Sinônimo de resistência e guerreiro incansável

Cacique Raoni disputou o Prêmio Nobel da Paz 2020. Candidatura do líder indígena ocorreu em meio ao aumento do desmatamento, queimadas na Amazônia e desmonte da área ambiental

Por Liana Melo | 1 • Publicada em 8 de dezembro de 2021 - 17:29

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Cacique Raoni. Foto de Ricardo Stuckert/ Instituto Raoni
Cacique Raoni. Foto de Ricardo Stuckert/ Instituto Raoni

Cacique Raoni está feliz. A simples indicação do seu nome ao Nobel da Paz 2020 injetou ânimo no guerreiro, que está tendo um ano bastante desafiador. Os últimos meses não foram nada fáceis para o líder caiapó. Além da crescente hostilidade do governo contra os povos indígenas, Raoni Metuktire foi internado com um quadro de depressão após a morte da sua mulher Bekuika em junho, e, dois meses depois, contraiu Covid. Nova internação. Ainda convalescente, o candidato acompanhou o resultado do prêmio da sua casa, em Colider, a 648 km de Cuiabá. Do alto do seu histórico e da sua história, Raoni honra o título de guerreiro. É um líder incansável. Mas quem levou o Prêmio Nobel da Paz 2020 foi Programa Mundial de Alimentos (PMA), a maior agência das Nações Unidas, por seus esforços no combate à fome. O resultado foi divulgado nesta sexta, dia 9 de outubro, em Oslo, na Noruega.

Ainda que não ostente mais a agilidade dos tempos da juventude, impossível ficar alheia à figura icônica do “cacique da paz”, como também é conhecido.  Com o seu inseparável cocar de penas amarelas, sua voz imponente e o botoque, adorno de madeira fixado no lábio inferior, o guerreiro da etnia caiopó continua firme e forte. A força de sua imagem e sua trajetória de 50 anos de luta e defesa dos direitos dos povos indígenas transformaram Raoni num forte concorrente ao Nobel da Paz 2020. O lançamento da sua candidatura não poderia ter sido mais oportuna, seja pelo aumento do desmatamento, as queimadas na Amazônia e o  crescente desmonte da área ambiental promovido no governo Bolsonaro.

Raoni e seu neto Bebtuk. Foto de Liana Melo
Raoni e seu neto Bebtuk. Foto de Liana Melo

Se levasse o prêmio, Raoni teria sido o primeiro brasileiro a ganhar o título individualmente, caso tivesse ficado entre os três candidatos que poderiam dividir a premiação. O Brasil foi premiado há 32 anos, o Nobel da Paz foi dado às forças de manutenção da paz da Organizações das Nações Unidas (ONU), das quais o país era um dos integrantes. Às vésperas do prêmio, um dos 318 candidatos inscritos ao Nobel da Paz fez um apelo pelo fim do garimpo em Terras Indígenas. Epicentro da mineração ilegal, o garimpo já destruiu cerca de cinco mil hectares de floresta da Terra Indígena Kayapó nos últimos três anos. O manifesto foi assinado por três associações de indígenas: Instituto Raoni, Associação Floresta Protegida e Instituto Kabu.

“Repudiamos a forma como o governo federal vem estimulando a invasão de nossos territórios, seja pela retórica que fortalece o crime organizado, seja pela omissão e fragilização dos órgãos responsáveis pela proteção dos territórios indígenas e pelo combate a atividades ilegais e predatórias”, diz o manifesto.

O nome de Raoni foi indicado ao Nobel da Paz em setembro de 2019. À época, o líder indígena ainda confrontava o presidente Bolsonaro. “Eu sou líder. Bolsonaro não é líder”, disse para uma plateia ávida por ouvi-lo durante o IX Encontro e Feira dos Povos Indígenas, que ocorria em Brasília. Sua entrada no auditório onde se realizava o encontro foi emocionante. De arrepiar. Todos se calaram, à medida que ele, calmamente, mas decidido, subia ao palco. Só que os petardos disparados do Planalto Central obrigaram a uma mudança de tática: Raoni passou evitar falar sobre o presidente e responder seus ataques, por concluir que era uma perda de tempo. Os novos campos de batalha vão ocorrer no Legislativo e no Judiciário.

Guerreiro incansável, Raoni sempre foi um incômodo para Bolsonaro. Seus encontros com o presidente Emmanuel Macron e o Papa Francisco, em 2019, tiraram o presidente do sério. Este ano, durante seu discurso na ONU, Bolsonaro deu o troco e tentou, novamente, desqualificar o líder indígena: “Muitas vezes alguns desses líderes como o cacique Raoni, são usados como peça de manobra por governos estrangeiros na sua guerra informacional para avançar seus interesses na Amazônia”. Só que a realidade se impõe e a tentativa de descredenciá-lo sempre esbarrou na biografia do inimigo.

Sua trajetória de luta de Raoni começou na década de 70, quando ele liderou uma briga contra a construção da BR-080, que, atualmente, é conhecida como MT-322. Nos anos 1980, foi peça-chave no capítulo que consta na Constituição sobre os povos indígenas. Ao defender o diálogo, internacionalizou a causa indígena e fez amigos mundo afora. O cantor inglês Sting é o mais notório deles. Esteve à frente do 1º Encontro dos Povos Indígenas do Xingu, em 1989, para protestar contra a usina hidrelétrica de Belo Monte. À época, comprou briga com Dilma Rousseff. Seu legado pode ser traduzido no Instituto Raoni, que ajudou a fundar em 2001.

Em janeiro último, cerca de 600 lideranças atenderam ao chamado do cacique e uniram suas vozes no histórico Encontro dos Povos Mebêngôkre, em defesa da terra e dos direitos indígenas. Sinônimo de resistência, Raoni, do alto dos seus 90 anos, continua na luta. Com ou sem prêmio, ele já avisou: “Não vou desistir, vou continuar até quando o meu corpo resistir”.

Liana Melo

Formada em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Especializada em Economia e Meio Ambiente, trabalhou nos jornais “Folha de S.Paulo”, “O Globo”, “Jornal do Brasil”, “O Dia” e na revista “IstoÉ”. Ganhou o 5º Prêmio Imprensa Embratel com a série de reportagens “Máfia dos fiscais”, publicada pela “IstoÉ”. Tem MBA em Responsabilidade Social e Terceiro Setor pela Faculdade de Economia da UFRJ. Foi editora do “Blog Verde”, sobre notícias ambientais no jornal “O Globo”, e da revista “Amanhã”, no mesmo jornal – uma publicação semanal sobre sustentabilidade. Atualmente é repórter e editora do Projeto #Colabora.

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