Não passo incólume ao fim do ano. Detesto as ruas intransitáveis, as lojas cheias, aquele abafamento tÃpico de quando está para chover âa qualquer momento agoraâ, e o céu desaba em água bem no meio das compras de Natal.
Mas simplesmente amo esse clima caótico de reta final, de semanas repletas de sextas-feiras, da sensação de âconseguimosâ. Aquele afobamento tÃpico de quando está para chover papel picado âa qualquer momento agoraâ, e a gente sabe que venceu mais um ano, bem no meio do abate do leão nosso de cada dia.
à sempre também a época de voltar à minha cidade, no interior do Rio, estar com a minha numerosa e ruidosa famÃlia, e me encontrar com o que eu fui. Também – e talvez principalmente – é o perÃodo de me deparar com tudo que eu tentei desesperadamente não ser por tanto tempo.
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Veja o que já enviamosE fiquei pensando nisso. No quanto, principalmente como mulher – mas não só -, a gente passa a vida se esquivando de rótulos em que tentam nos enfiar e que só nos aprisionam, sufocam e machucam. Numa cidade pequena como a Três Rios em que eu nasci e cresci, desviar de estereótipos, apelidos e pechas que tentam colar à gente é questão de sobrevivência, é pular de pedrinha em pedrinha pra tentar chegar inteira à outra margem da vida.
Ninguém quer ser a piranha da cidade, a feia da sala, o burro da galera, e por aà vai – embora não haja absolutamente qualquer problema em alguma dessas coisas. Por outro lado, algumas pechas tinham lá seu valor na pirâmide social adolescente: o pegador, a mais bonita, a/o gente boaâ¦Tudo isso fica bem diminuto, óbvio, quando a gente enfrenta questões mais reais e palpáveis. Na esteira da vida, importa muito pouco se você foi a âa feia da turmaâ da sua cidade do interior – ou de uma grande capital, que seja – em algum momento, enquanto precisa trabalhar, se relacionar e fazer a roda girar todo dia.
O problema é que a gente cresce aprendendo a tentar, sob qualquer custo, desviar de rótulos babacas e caber nos engrandecedores. Eu mesma já caà nessa cilada mais vezes do que gostaria de admitir. Já adulta, me vi passando maquiagem pra ir no mercado pra fugir do que senti quando, novinha, vi meu nome na lista das feias de alguma turma em que estudei. Até hoje, me vejo com dificuldade de pedir ajuda ou demonstrar fraqueza, desde que sabe-se lá como, passaram a me ver como uma mulher âforteâ – qualquer que seja o significado disso.
E é claro que pequenezas como as que senti e sinto não são comparáveis a rótulos muito mais crueis e sintomáticos de opressões profundas e estruturais: a âneguinhaâ ou ânegãoâ da turma (quando tinha), o viado do colégio, a sapatão da galera, a/o pobre do rolê.
No fim das contas, todo rótulo, embora possa ser (parcialmente) verdadeiro, é injusto; ninguém é uma coisa só o tempo todo. Dá pra alguém ser um babaca no trabalho e um amigo exemplar, ou vice-versa. à imprescindÃvel saber se virar sozinha, mas conseguir pedir uma força quando a coisa aperta. à muito recomendável saber falar muita bobagem, fazer piada sem graça e dizer os palavrões mais escabrosos, mesmo tendo uma oratória exemplar. Pabllo Vittar cravou: âpiranha também ama, piranha também choraâ. Só fascista que é apenas isso mesmo, e contamina todas as áreas da vida.
Enquanto olho aqui da janela da minha mãe e contemplo a cidade onde tentei driblar tantos rótulos e caber em mil outros, fico pensando que o que eu quero de 2025 é que a gente possa extravasar para além dos estereótipos em que tentam nos engarrafar. Transbordemos. (E que quem insiste neles que se afogue pra lá, âo leite mau na cara dos caretasâ etc – porque também não somos de ferro).
