Machismo na ponta da língua

Há um machismo embutido na língua portuguesa. Jakob Helbig / Cultura Creative

O português é um idioma machista, mas já há um movimento para torná-lo mais inclusivo

Por Lee Weingast | Artigo1 • Publicada em 14 de junho de 2017 - 16:49 • Atualizada em 18 de junho de 2017 - 14:10

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Há um machismo embutido na língua portuguesa. Jakob Helbig / Cultura Creative
Há um machismo embutido na língua portuguesa: mulheres frequentemente perdem a identidade. Jakob Helbig /Cultura Creative

É muito comum, nas minhas aulas de inglês, ouvir alunos brasileiros falarem de seus “fathers”. Na minha cabeça surge a imagem de dois homens, e me pergunto se, de repente, o aluno foi criado por um casal do sexo masculino. E quando falam de seus “brothers”? Pergunto se eles, além de “irmãos” também têm irmãs. Numa conversa em português, as mulheres, frequentemente, perdem a sua identidade: uma irmã pode virar um irmão, mas um irmão nunca vira irmã. Se você é irmã, mãe, tia, etc desaparece toda vez que falam de você no plural, se estiver com pelo menos uma pessoa do sexo masculino: os grupos são de irmãos, tios, pais… O fato é que há um machismo embutido na língua portuguesa. Na verdade, em todos os idiomas latinos.

Como se pode notar nas redes sociais, há um movimento para tornar o português escrito menos machista e mais aberto ao leque de gêneros

Na língua inglesa isso não acontece. E já existem termos para um plural de gêneros, sem especificar qual deles. Um grupo de irmãos e irmãs chama-se “siblings”. “Parents” é o plural de mães e pais. “Cousins” são primos e/ou primas. Há bastante tempo – pelo menos nos Estados Unidos –, estão surgindo (e sendo cada vez mais usadas) palavras que não definem o gênero, como parte de um esforço para combater o machismo. Quando eu era criança, se falava em “policeman”, fireman”, e “stewardess”. Como uma menina poderia sonhar em ser “fireman” quando crescesse?

Hoje, algumas dessas barreiras impostas pelo idioma estão sendo derrubadas. Independentemente do gênero, quem cuida da segurança nas ruas é  “police officer”. Quem combate incêndio é “firefighter”. E quem serve bebidas aos passageiros num avião é “flight attendant”.

Como se pode notar nas redes sociais, há um movimento para tornar o português escrito menos machista e mais aberto ao leque de gêneros. O artigo que indica o gênero é substituído por X, como nesta frase: “Amigxs, estão animadxs para a festa?”.

Até na língua falada começam a surgir maneiras de ser mais abrangente. É possível ouvir pessoas mencionando seus “amigues”, “querides”. Essas expressões sinalizam um momento em que a questão de gênero está mais no mainstream. A presença de pessoas trans na televisão é uma evidência disso.

Não digo que seja preciso abolir o gênero de substantivos e adjetivos em português, alterando os fundamentos da língua. Mas é interessante ter consciência do lugar do gênero nas nossas falas e textos. Palavras têm poder, e podem até limitar ou estimular sonhos.

Lee Weingast

Lee Weingast é nova-iorquina e carioca de coração. Com mestrado em Pedagogia Bilíngue, ela vive no Rio desde 2003, trabalhando como professora de inglês, intérprete e tradutora. Como guia de Food Walks, Lee leva estrangeiros para conhecer a história e a vida da cidade, através de sua gastronomia. Ela adora compartilhar com amigos, de longe e de perto, seu amor pela terra que escolheu para morar. E se locomove pela cidade a bordo de sua bike, onde fica ainda mais feliz.

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8 comentários “Machismo na ponta da língua

  1. Marcelo Lins disse:

    Que besteira, só pelo fato de termos masculinos estarem definindo o plural de algumas palavras não torna a língua machista, para mim, isso vai da cultura, não tem haver com gênero…

  2. Lee Weingast disse:

    É uma questão de estar ciente do gênero presente no idioma, pois existe e tem significado. A cultura está ligada à língua, e vice versa.

    • Marcelo Lins disse:

      Todos estamos ciente disso e não precisamos colocar isso na língua, a intensão de colocar palavras no masculino nunca foi por causa de valorizar um gênero. Em uma reportagem do site exame, vi a seguinte frase:
      “O brasileiro é um povo divertido”
      O professor dessa reportagem deu um bom exemplo de como não só para essa frase como para tantas outras que mesmo que pudéssemos colocar um termo “neutro” nelas, outros termos vão para o masculino justamente por questão de concordância…ver machismo na língua para mim é como criar uma “teoria da conspiração”…

  3. Lisa disse:

    Lee, I just read your cogent piece, and really appreciate your perspective. You will be dismayed, however, to read the translation of your bio into English, particularly the last sentence:

    Lee Weingast is New Yorker and Carioca at heart. With a master’s degree in Bilingual Education, she has lived in Rio since 2003, working as an English teacher, interpreter and translator. As a guide to Food Walks, Lee takes foreigners to know the history and life of the city, through its gastronomy. She loves to share with friends, from far and near, her love for the land she chose to live in. And he moves around the city aboard his bike, where he is even happier.

    Bjs, Lisa

  4. Marcelo disse:

    Olá gostaria de saber sua opinião com relação à palavra pessoas.
    Se eu digo “As pessoas estão felizes”, nessa frase estou desconsiderando as pessoas do sexo masculino?

  5. Lee Weingast disse:

    Como já falei, acho interessante estar ciente das manifestações de gênero na língua. Quando falamos em seres humanos ou pessoas, já se sabe que a palavra engloba vários gêneros. A palavra irmãos é o plural do masculino só, e a(s) irmã(s) se perdem.

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