Com fotos de Flávio Tavares
São João das Missões (MG) – Os Xakriabá foram obrigados a adormecer a cultura indÃgena nos perÃodos de perseguição â muitos foram torturados por falar o idioma próprio ou manter os costumes. Anelita de Souza lembra de quando seus pais e avós eram perseguidos pelos fazendeiros e não podia falar a lÃngua deles, nem ensinar. “Ainda hoje, tem lugares que não podemos nem dizer que somos indÃgenas”.
Para não serem perseguidos ou mortos, eles também deixaram de se pintar no passado. As pinturas corporais foram guardadas nas cerâmicas, que eram mantidas na terra. E, até mesmo recentemente, alguns falam que, ao ir na cidade pintados, são discriminados. Mas, nos últimos anos, eles estão buscando fortalecer suas tradições e reativar saberes. As crianças aprendem a se pintar nas escolas dentro da reserva.Â
Gostando do conteúdo? Nossas notÃcias também podem chegar no seu e-mail.
Veja o que já enviamosDesde a década de 90, o critério principal para definição de quem é Ãndio ou não é a auto-identificação. Os indÃgenas têm direitos especiais garantidos na legislação como reconhecimento ao massacre que esses povos sofreram no Brasil, uma dÃvida histórica ainda não paga. Eles são cidadãos brasileiros com direito à s terras que tradicionalmente ocupam, possuem um sistema de saúde especial, diferente do SUS, e educação diferenciada, já que o sistema de ensino brasileiro é colonizador.Â
[g1_quote author_name=”Anelita de Souza” author_description=”IndÃgena Xakriabá” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]
Ainda hoje, tem lugares que não podemos nem dizer que somos indÃgenas
[/g1_quote]Algumas pessoas de fora, ao chegarem nas aldeias, não percebem os Xakriabá como Ãndios, por guardarem os estereótipos de “penas, trajes e lÃngua”, e por desconhecerem o processo violento de mistura e contato deles com os não-indÃgenas por vários anos.Â
“Quando se trata de povos indÃgenas, muitas vezes as pessoas confundem lÃngua com cultura. Mas é um complexo de práticas, crenças, de modos de habitar, de se relacionar com as pessoas e o ambiente, de estar no mundo”, destacou o antropólogo Pedro Rocha. Ele acrescenta que, muitas vezes, no processo de genocÃdio e etnocÃdio pelo qual passaram os povos indÃgenas, “a lÃngua se perde, mas a cultura, por sua plasticidade, permanece”.Â
Confira todas as reportagens da Série Especial sobre a Terra Xakriabá
Os Xakriabá mapearam o patrimônio cultural e arqueológico da reserva indÃgena, onde há muitas pinturas rupestres, espaços de Toré e encantados, onde a onça Iaiá se encontra e dá proteção a eles. E nem tudo pode ser falado ou mostrado aos que não são indÃgenas, pois eles precisam do contato com o branco hoje, mas mantêm preservada as riquezas sagradas.
Educação e juventude
Para recuperar o idioma Xakriabá, uma famÃlia de lá passou um tempo com o povo Xerente, em Tocantins, que tem o mesmo tronco linguÃstico. Nas escolas da reserva, existem “professores de cultura” que focam na lÃngua, nas pinturas, nos cantos, saberes e histórias. Mas os próprios professores dizem que não ensinam, pois a cultura já nasce com eles.Â
As escolas indÃgenas tiveram inÃcio em 1996, anos depois a UFMG implantou o curso de formação de professores indÃgenas. Hoje são nove escolas na reserva Xakriabá com funcionários indÃgenas.Â
Nos últimos anos, os Xakriabá começaram a ingressar em cursos de outras áreas diferente da licenciatura e a seguir carreira acadêmica. Célia Xakriabá foi a primeira a fazer graduação e mestrado, concluÃdo em julho de 2018. Aos poucos, eles deixam de ser objetos de estudo para ocupar o lugar de produção de conhecimento, da aldeia para fora.Â
Edgar Kanaykõ Xakriabá concluiu seu mestrado, neste ano de 2019, na área da antropologia visual, relacionado ao audiovisual indÃgena, com a missão de usar a imagem como instrumento de luta. “O Brasil desconhece a própria história”, afirmou ele que pretende construir narrativas a partir do olhar propriamente indÃgena. Para Kanaykõ, o movimento dos indÃgenas na universidade ocorre dentro da própria busca pela retomada do território: é “um pé na aldeia e outro no mundo” , como diz ele.
Descolonização
O desafio é descolonizar o sistema de ensino. Mesmo nas escolas de primeiro e segundo graus que estão dentro das aldeias, tudo precisa ser desconectado do pensamento branco. Os materiais didáticos e o currÃculo escolar são diferenciados, com aulas de direitos e cultura indÃgenas, por exemplo. Nas disciplinas comum, como matemática, eles aprendem através dos desenhos geométricos das pinturas.Â
O olhar descolonizado se exemplifica também na arquitetura Xakriabá. As casas de barro construÃdas por eles duram cerca de seis anos para que no refazer eles possam ensinar outras gerações como obter a medida de barro, que varia conforme a lua.Â
Elizabete Alves Barros, 25 anos, contou que construiu sua casa sozinha. Ficou três anos nesse processo e, quando a conhecemos, ela tinha acabado recentemente, estava orgulhosa ao lado do filho. “Acordava à s 5h para pegar barro e arrumar os paus no mato”, disse.Â
Ela mora com outras dez mulheres numa área cercada na aldeia Embaúba: todas não estão mais com maridos, que morreram ou se separaram, mas criam seus filhos e dão conta de tudo. Assim como se nota a força da mulher indÃgena, a juventude Xakriabá também está movimentando a cultura e promovendo encontros para discutir pautas e lutas. A maioria dos Xakriabá atualmente é formada por jovens de 15 a 30 anos. E eles já carregam a luta pelo território tradicional para chegar na beira do rio São Francisco.Â
