(Com Fausto Salvadori) – âQuero conhecer a democracia e a justiçaâ, afirma Bruna Silva. Para ela, em todos os dias dos seus 36 anos de vida, sempre foram apenas palavras. Democracia. Justiça. Direitos. Tudo de se ouvir falar. Nada de se viver. Negra, mulher e favelada, Bruna faz parte da maioria de brasileiros a quem o acesso a algum direito básico sempre foi negado. Nascida em São João de Meriti, viveu a vida toda em uma favela, o Complexo da Maré, um dos maiores da cidade do Rio de Janeiro, na zona norte da capital fluminense. Sua mãe trabalhava de 15 em 15 dias como auxiliar de serviços gerais, a mesma função que Bruna seguiu. Como tinha de trabalhar, só pôde estudar até a terceira série do ensino fundamental. Seu marido é assistente de pedreiro e pai dos seus dois filhos, um menino e uma menina. O menino, Marcus VinÃcius, é agora motivo de luta.
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A vida na comunidade sempre foi âum perrengueâ, mas Bruna batalhava com gosto, pela alegria de ver os filhos crescerem ao seu lado. Até que, em 20 de julho de 2018, o mesmo Estado que já havia lhe negado tantos direitos determinou que seu filho Marcus Vinicius, aos 14 anos de idade, estava proibido de continuar a viver.
Tudo que eu queria era vê-lo crescer, mas o Estado tirou isso de mim
Marcus era estudante, flamenguista e praticava esportes. Estava se programando para começar a trabalhar e ajudar sua famÃlia quando âficasse grandeâ, o que seria logo. âMeu filho estava todo bobo com o pouco de bigode que estava nascendoâ, lembra Bruna. âNaquele momento, era eu quem dava tudo para eles. Meu filho sempre foi Ãntegro, estudioso, um grude comigo.â Do filho, Bruna guarda muitas lembranças gostosas, feitas de imagens, cores, cheiros: âA parte que eu mais gostava do corpo dele era a panturrilhaâ.
O menino cursava o sétimo ano da Escola Estadual Vicente Mariano, também na Maré, onde só tirava nota B. Ele vestia uma camiseta do colégio no dia em que foi baleado pelas forças da intervenção federal no Rio de Janeiro, comandadas pelo general do Exército Walter Souza Braga Netto. âTudo que eu queria era vê-lo crescer, mas o Estado tirou isso de mimâ, diz Bruna. âA polÃcia deveria ter abrigado meu filho e não matado ele, que estava com roupa de escola. O direito dele foi negado.â Marcus VinÃcius simboliza nosso personagem sem direito à vida. Ele se soma aos outros sem direitos da nossa série de reportagens: sem direito à moradia adequada, à proteção social, à educação, ao saneamento e à internet.
O direito à vida aparece logo no começo no artigo 5º da Constituição Federal, um dos mais importantes do texto constitucional, por tratar dos direitos e deveres individuais e coletivos. Está lá: a âinviolabilidade do direito à vidaâ é direito de todos, âsem distinção de qualquer naturezaâ. A Constituição volta a mencionar o direito à vida em outros dois artigos, 227 e 230, ao afirmar que famÃlia, sociedade e Estado têm o dever de garantir esse direito a crianças, adolescentes, jovens e idosos.
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Veja o que já enviamosA inclusão desse direito na Carta Magna, em 1988, foi alvo de chacota por parte do deputado constituinte Roberto Campos (1917-2001), economista e ministro da ditadura militar. âSegundo a Constituição, os impostos são certos, mas há dúvidas quanto à morte, pois o texto garante aos idosos o direito à vidaâ, disse uma vez. E, em outra, acrescentou: âLembrar-me-ei de impetrar um mandado de segurança contra o Criador se ele manifestar más intenções na próxima pneumoniaâ.
Os números revelam que, quando se trata de garantir o direito à vida, o Estado brasileiro tem se mostrado mais próximo das chacotas do economista liberal do que da solenidade do texto constitucional. Além de falhar em garantir a vida, o Estado é, muitas vezes, quem executa a morte. Em 2017, o Brasil registrou uma média de 175 assassinatos por dia, das quais 14 foram cometidas por policiais, segundo o último Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado pelo FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública).
Morrer de morte matada, no Brasil, é para quem tem a pele preta. A cada 10 assassinatos praticados por ano, 7 são contra a população negra, conforme o Atlas da Violência, publicado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e FBSP. à como se brancos e negros vivessem em paÃses diferentes: entre 2006 e 2016, o homicÃdio de mulheres negras aumentou 15%, enquanto o das demais mulheres não só deixou de subir, como ainda caiu 8%. Dos mortos pela violência policial, 76,2% são negros.
Marcus VinÃcius foi uma dessas vÃtimas.
Naquele 20 de junho, uma quarta-feira, Vinicius passou na casa de um amigo para irem juntos à escola. Quando viram que já estavam atrasados para entrar na aula, os amigos decidiram voltar. Viram o helicóptero Ãguia da PolÃcia Militar rodando sobre os barracos, dando tiros. A PolÃcia Civil, com o apoio do Exército, realizava uma operação na favela, em busca de suspeitos pela morte do investigador Ellery de Ramos Lemos, ocorrida uma semana antes, na Favela de Acari.
Os policiais dificultaram o socorro do meu filho, mandaram a ambulância voltar. Cheguei na UPA e meu filho pediu água. Disse para ele que tinha que ficar sem falar, como nos filmes: quando alguém se machuca não pode beber água. Meu filho precisou de quatro bolsas de sangue para estancar a hemorragia que sofreu
Os dois meninos resolveram esperar um pouco até a situação se acalmar. Depois, foram juntos até a casa de Vinicius. âEles saÃram de onde estavam e caminharam até a minha rua. Meu filho foi morto na rua de casaâ, conta Bruna.
âQuando estavam vindo, meu filho viu os blindados. Só que os policiais não estavam dentro, eles estavam a pé. Graças a Deus eu tenho uma testemunha que viu os policiais atirarem. Ela ainda perguntou, dentro da padaria, naquele momento, em quem eles estavam atirando. Mal sabia a moça que era no meu filho. O Estado ia matar duas crianças naquele dia. Meu filho e o amigo dele. Só que, por um movimento brusco, a bala pegou só no Viniciusâ, relata Bruna.
A notÃcia chegou a Bruna por volta das 9h, quando ela se preparava para ir trabalhar. Um vizinho lhe contou que seu filho havia sido baleado. Bruna correu até a UPA (Unidade de Pronto-Atendimento) da Maré e encontrou o filho ainda lúcido, sobre a cama.
âLevei um tiro, mãe. A polÃcia não viu que eu era estudante?â, ouviu VinÃcius perguntar.
âOs policiais dificultaram o socorro do meu filho, mandaram a ambulância voltar. Cheguei na UPA e meu filho pediu água. Disse para ele que tinha que ficar sem falar, como nos filmes: quando alguém se machuca não pode beber água. Meu filho precisou de quatro bolsas de sangue para estancar a hemorragia que sofreuâ, relembra Bruna. Da UPA, o menino foi transferido para o Hospital Getúlio Vargas. Os tiros feriram Vinicius no baço, que teve de ser retirado.
Bruna deixou o hospital para buscar roupas para seu filho em casa. Ao voltar, recebeu a notÃcia da pior maneira. âQuando estava voltando, uma vizinha veio me abraçar falando que sentia muito. Foi aà que eu vi que o hospital soltou primeiro para a televisão do que para mim que meu filho tinha morrido. Isso é um descasoâ, diz.
âA consequência disso é uma famÃlia dilacerada. Eu nunca pensei que meu filho fosse morrer desse jeito. Ele tinha 14 anos mas era um sujeito homem. De famÃlia, de caráter. Hoje, eu e minha casa somos tristes. Minha mãe se entrega em vida porque ajudou a criar ele. Aqui, se você olhar bem, não tem ninguém felizâ, declara Bruna.
Para a mãe de Vinicius, o Estado tirou a vida de um menino negro de 14 anos, de mochila e uniforme escolar, porque as favelas são um território sem direitos, onde democracia e justiça são só palavras. âA gente vive em um paÃs onde não há democracia. Essa democracia que eles falam que existe eu não vejo acontecer para quem é da favela. Essa democracia é para a galera do asfalto, da Zona Sul. Nós, pobres, não temos direitoâ, diz.
O desrespeito massivo pelo direito à vida das populações pretas e pobres das periferias brasileiras não pode ser explicado como um desvio, uma prática isolada de âalguns maus policiaisâ, como os governos costumam argumentar. âNão é desvio, é projeto. A letalidade policial, assim como o encarceramento em massa, são parte de uma polÃtica genocida do Estado contra corpos desumanizadosâ, analisa a advogada, ativista e pesquisadora Dina Alves, coordenadora do Departamento de Justiça e Segurança Pública do Ibccrim (Instituto Brasileiro de Ciências Criminais). Não há fato isolado capaz de dar conta de 14 mortes nas mãos da polÃcia todos os dias, nem de explicar por que os policiais miram tanto na pele negra. Para a pesquisadora, âo Estado brasileiro tem um projeto de nação de antinegritude porque nunca aceitou as populações negra e indÃgena como humanasâ.
Dina afirma que, quando o disparo de um policial militar arranca a vida de um menino negro como Marcus VinÃcius, a morte é apenas a culminação de um longo processo de desumanização a que esse menino foi submetido, âum processo que começa muito antes, o de negar a esse corpo uma série de direitosâ.
As vÃtimas da necropolÃtica
Assim, a morte de Marcus VinÃcius e tantos outros meninos negros fariam parte de uma tÃpica ação da necropolÃtica â conceito do filósofo camaronense Achille Mbembe, que dá nome a um ensaio de 2003 (publicado como livro no Brasil em 2018, pela editora N-1). Mbembe, para quem âmatar ou deixar viver constituem os limites da soberaniaâ, afirma, em NecropolÃtica, que o racismo é uma tecnologia criada para garantir o direito soberano de matar, seja nas senzalas do perÃodo escravocrata, nos campos de concentração nazistas, no apartheid sul-africano ou na dominação israelense sobre a Palestina. âNa economia do poder, a função do racismo é regular a distribuição da morte e tornar possÃveis as funções assassinas do Estadoâ, afirma Mbembe. Ao negar a humanidade de determinados grupos, o racismo permite realizar todo tipo de violência contra esses corpos desumanizados – de espancamentos a massacres.
As forças da intervenção federal, segundo Bruna, buscavam âvingançaâ pela morte do investigador Ellery de Ramos Lemos, em Acari. âO Estado mata criança porque acha que criança da favela não estuda. Elas estudam, sim, e os pais dão um duro danado para criar os filhos aqui dentro. Moramos aqui porque não temos opção, somos pobres. Eles mataram meu filho por vingança. Derramaram sangue de uma criança inocente.â
A pergunta que eu é faço é: negro é gente? Soa como uma pergunta simples, mas é algo que devemos perguntar sempre. Negro é gente? Tudo isso me dá uma angústia muito grande. Quando a população negra vai às ruas reivindicar direitos civis, lutar por transporte público, água, saúde, todas essas bandeiras, até que ponto é um avanço, se nós ainda estamos numa luta para sermos reconhecidos como gente?
Mortes de pessoas brancas são capazes de provocar cataclismas que mobilizam a mÃdia e os governantes, fazem os legisladores se movimentar a toque de caixa e provocam alterações até nos sistemas penal, prisional e socioeducativo. Em 1994, a morte da atriz Daniela Perez levou a uma mudança na Lei de Crimes Hediondos, que retirou a progressão de pena para os autores de homicÃdio qualificado. O assassinato da jovem Liana Friedenbach fez o governo de São Paulo construir, em 2006, uma Unidade Experimental de Saúde para abrigar o seu assassino, Roberto Aparecido Alves Cardoso, o Champinha, e o crime se tornou um sÃmbolo para os que lutam pela redução da maioridade penal (embora o próprio pai de Liana seja contra a redução e reconheça que mortes como a de sua filha infelizmente são comuns: âMorrem âLianasâ todos os dias, mas não são filhas da classe médiaâ, já declarou). E, em 2015, a morte do médico Jaime Gold, assassinado a facadas enquanto pedalava pela Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio, fez o governo carioca proibir o porte de armas brancas e criar um Sistema Estadual de Prevenção ao Roubo ou Furto e ao Comércio Ilegal de Bicicletas no Estado do Rio de Janeiro.
Quando os mortos têm a pele preta o impacto é muito diferente, mesmo que a vÃtima seja uma criança. As pessoas podem até comemorar. Foi o que fez um grupo de moradores do bairro rico do Morumbi, na zona sul de São Paulo, que, em 11 de junho de 2016, organizou uma marcha de agradecimento aos policiais militares que haviam atirado na cabeça de Ãtalo Ferreira de Jesus Siqueira, um menino negro de 10 anos de idade.
Mesmo que não comemorem, as pessoas podem apenas ignorar. No Rio, a intervenção federal prosseguiu normalmente após a morte de Marcus VinÃcius, como se nada tivesse acontecido. Na cerimônia em que celebrou o encerramento da intervenção, em 27 de dezembro do ano passado, o general interventor Walter Souza Braga Netto e o secretário de Segurança Pública fluminense, general Richard Fernandez Nunes, receberam uma medalha cada um e se cumprimentaram pelo trabalho bem feito.
Braga Netto disse que a intervenção âatingiu todos os objetivos propostosâ e se gabou: âcumprimos a missãoâ. Tanta comemoração dizia respeito à diminuição nas ocorrências de roubo de carga, que, com a intervenção, diminuÃram 14% em relação ao mesmo perÃodo do ano anterior, conforme o Observatório da Intervenção, coordenado pela faculdade Cândido Mendes. No que dizia respeito ao direito à vida, não havia tanto para celebrar: um recuo de 5,5% nos homicÃdios, acompanhado de um aumento de 40% no número de mortos pela polÃcia.
Ninguém mencionou o nome de Marcus VinÃcius na cerimônia em que os dois generais receberam suas medalhas.
âA pergunta que eu é faço é: negro é gente? Soa como uma pergunta simples, mas é algo que devemos perguntar sempre. Negro é gente?â, provoca a pesquisadora Dina Alves. âTudo isso me dá uma angústia muito grande. Quando a população negra vai à s ruas reivindicar direitos civis, lutar por transporte público, água, saúde, todas essas bandeiras, até que ponto é um avanço, se nós ainda estamos numa luta para sermos reconhecidos como gente?â, pergunta.
Hoje, Bruna Silva se dedica a lutar para que os negros sejam aceitos como sua gente. Ela guarda até hoje o uniforme escolar de Marcus, uma camiseta branca, com as listras azuis da escola e uma mancha na altura do peito, de formato irregular e marrom: a cor do sangue quando seca. O uniforme manchado virou uma bandeira de luta que ela levanta aonde vai em sinal de protesto. âEles ainda vão ouvir muito o nome do meu filho, Marcus Vinicius. A polÃcia não pode matar a gente assim, não. Nossos filhos têm vozâ, promete.
âA minha dor virou luta. Eu estou denunciando tudo que a polÃcia faz aqui dentro da favela. Já trouxe o Ministério Público, que escutou mais de 500 histórias de moradores. Sou perseguida dentro do lugar que eu moro, não posso ir sozinha pegar ônibus porque estou sendo vigiada. Tenho que estar sempre com alguém. Mas isso não vai me parar, vou continuar pedindo para os moradores denunciarem abusosâ, diz.
Se a camiseta ensanguentada do filho é sua bandeira, sua inspiração leva o nome da vereadora assassinada Marielle Franco. âSou grata a Marielle Franco, que me ensinou o que é lutar pelos direitos humanos que nem uma leoa. A gente, para ter voz, tem que brigar.â
A luta de Bruna Silva, agora, é pelo filho que se foi e pela filha que ficou. âEu luto para que, agora, minha única filha, tenha o direito de ir e vir. O que faltou ao irmão, naquele dia 20 de junho, ela tem que ter.â
