#RioéRua – a saideira de uma celebração carioca

Pandemia faz rua e aglomeração virarem risco de vida e torna celebrar verbo de mau gosto: só resta ao cronista sair temporariamente de cena

ODS 11 • Publicada em 4 de abril de 2021 - 18:19 • Atualizada em 12 de junho de 2022 - 11:10

Esse #RioéRua nasceu como forma de celebrar o reencontro de um carioca com esta cidade – em particular, com sua característica rueira, marcante e definidora, de ser um lugar de encontros. Encontros, naturalmente, na rua: nos bares, nas praias, nas praças, nas rodas de samba, nas manifestações de protesto, nas aglomerações grandes e pequenas.

Resistimos, assim, durante esses últimos anos – o cronista, sua cidade e as ruas – com muitos momentos felizes, apesar do Crivella, do Witzel e do inominável. Mas veio a pandemia. Desde março de 2020, este #RioéRua foi condenado a revisitar momentos do passado desta cidade sempre rueira – das andanças de Tiradentes à história da Pedra do Arpoador, passando pelo Convento do Carmo e pelo Buraco do Lume – ou a lamentar as perdas deste Rio de São Sebastião para a pandemia.

Mesmo em momentos mais otimistas, era preciso ter cuidado para não incentivar, de alguma forma, qualquer tipo de aglomeração carioca. De todas ações preventivas contra a disseminação do vírus, o distanciamento social é a mais eficaz – mais do que qualquer máscara – e, certamente, a mais dolorosa.

Com um ano de pandemia, e o Brasil mergulhado em um destino trágico a caminho dos 500 mil mortos, empurrado por um presidente genocida e seu inepto governo, este #RioéRua não tem como prosseguir na sua proposta.

Cervantes, Bar do David e Galeto Sat's: tríplice aliança para as madrugadas na região do Lido (Foto: Oscar Valporto)
Madrugada na calçada em frente ao Cervantes, em Copacabana: mais um símbolo da boemia carioca fecha as portas temporariamente na pandemia do Lido (Foto: Oscar Valporto – 16/12/2019)

O meu prazer – a rua – “virou risco de vida”, como cantou o poeta Cazuza. O Rio que eu buscava sempre encontrar agora agoniza nas esquinas, entre o medo e a irresponsabilidade. Rodas de samba e manifestações de protesto são quase sempre virtuais; o fechamento provisório do glorioso Cervantes, ponto final de tantas noitadas cariocas, é só mais um parágrafo triste de uma lastimável sequencia de golpes nas história boêmia da cidade que já vitimou o Hipódromo, o Mosteiro, o Navegador, o Kalango, o Senataí, a Casa Vilarino.

E celebrar, definitivamente, virou um verbo fora de mora, quase politicamente incorreto. Sobreviver parece ser o único motivo adequado para celebração no país à mercê do Capitão Cloroquina, com hospitais lotados, mutirão para abrir covas, de filas para entrar nas UTIs, falta de oxigênio, de vacinas e de governo.

Por tudo isso, este #RioéRua vai pedir uma saideira carioca e, como o Cervantes, fechar as portas por tempo indeterminado. Sou otimista e acho que tudo vai melhorar.  Mas ainda demora. O cronista espera estar vacinado até o fim de abril; e vivo quando a pandemia for vencida pela ciência. Assim, poderemos voltar a celebrar o Rio e a rua e aproveitar todas as aglomerações que os cariocas adoram e merecem.

#RioéRua

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