A âfamÃlia futebolâ chegará ao fundo do poço da vergonha no inÃcio da noite â seca, porque assim funciona no deserto â de domingo, 20 de novembro. Ãs 19h locais (13h de BrasÃlia), rola a bola da Copa do Mundo do Catar, com os anfitriões â um nada futebolÃstico â diante do Equador. Estará consumada a maior infâmia da história recente do esporte mais popular da Terra.
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A reunião dos maiores jogadores da atualidade terá como endereço um paÃs subjugado por uma teocracia, que despreza os direitos humanos, oprime mulheres, massacra LGBTs, martiriza trabalhadores e ignora conceitos como sustentabilidade e tragédias como a crise climática. Preceitos das civilizações modernas passam longe daquele rincão sem chuva.
Mas jorra dinheiro â o que realmente importa para a dona do jogo. Ao levar seu principal produto para um emirado absolutista e hereditário, numa viagem no tempo até a Idade Média, a Fifa virou sócia de um multimilionário projeto de lavagem da imagem do paÃs. A 22ª Copa do Mundo afundou-se no sportswashing â quando o esporte se traveste de chamariz para virar do avesso a visão sobre lugares, pessoas, empresas. Está feio? Bota Messi, Benzema, Neymar, Mbappé, Vinicius Jr num gramado impecável, de um estádio novinho, que fica bonito.
Dessa vez, a receita desandou por servir a um paroxismo como o Catar. O paÃs constrói sua obscena riqueza a partir de uma atividade venenosa para o planeta â a extração de petróleo e gás. Dono da 14ª maior reserva do combustÃvel fóssil do mundo, com renda per capita de US$ 144 mil (22 vezes a do Brasil e 2,5 a dos EUA), o emirado absolutista não precisa tourear questionamentos e prestações de contas tÃpicos dos estados democráticos. Seus governantes fazem o que bem entendem â inclusive Copa do Mundo.
O paÃs não tinha equipamento minimamente próximo do Padrão Fifa, outra bizarrice da entidade que exige arenas caras para a realização de suas competições (mesmo sem perspectiva de utilização depois). No caso catari, moleza â os organizadores bancaram a construção de sete estádios, aeroporto, metrô, hotéis, estradas e até uma nova cidade, Lusail, onde fica o campo da final, a 15 quilômetros da capital Doha. Tudo num intervalo de 12 anos.
Choveram relatos de violências diversas, de trabalho análogo à escravidão a milhares de mortes entre os 30 mil imigrantes contratados para erguer as instalações da Copa. Um constrangimento planetário, com seres humanos confinados em acomodações indigentes, tendo passaportes confiscados e salários retidos pelos patrões.
âVi centenas de operários que ficaram dois anos sem receber. O que eles vão comer?â, denunciou o filipino Ambet Yulson, secretário-geral do ICM, a Internacional de Trabalhadores da Construção Civil e da Madeira. âà um caso que vai contra a convenção internacional sobre trabalhos forçados. à escravidão modernaâ, atacou ele, após participar de 25 inspeções desde 2017.
As mortes durante as obras somaram algo entre 6,5 mil e 15 mil pessoas, a depender da investigação. (Nos três mundiais anteriores, Brasil incluÃdo, foram nove vÃtimas.) O emirado zilionário rejeitou clamores de ONGs para criar um fundo que indenizaria as famÃlias dos mortos, provenientes de paÃses como Ãndia, Paquistão, Nepal, Bangladesh e Sri Lanka. E o ministro Ali bin Samij Al-Marri ainda acusou as entidades de direitos humanos de âdesacreditar o Catar com afirmações deliberadamente enganosasâ.
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Veja o que já enviamosAnte à pressão internacional, o anfitrião da Copa até aprovou reformas trabalhistas como tentativa de maquiar os problemas, mas era tarde. Assim como será indisfarçável a brutalidade de gênero, motivo de protesto até de uma integrante da elite do poder futebolÃstico. Em março, a presidente da Federação Norueguesa, Lise Klaveness, assumiu o protagonismo no Congresso Anual da Fifa, realizado em Doha. âDireitos humanos e democracia não estavam no time titular até muitos anos depois. Esses direitos básicos foram deixados na reservaâ, protestou a dirigente. âNão pode haver espaço para lÃderes que não podem ser sedes do futebol feminino. Não pode haver espaço para anfitriões que não podem garantir legalmente a segurança e o respeito à s pessoas LGBTQ que vêm a este teatro dos sonhosâ.
No bojo, a tragédia humanitária e social expôs o DNA da Fifa (de todo o poder do esporte, na verdade), em sua aventura pelo Oriente Médio. A entidade marcou o maior gol contra de sua história com a desastrada estratégia de escolher as sedes de dois Mundiais â 2018 e 2022 â ao mesmo tempo. Serviu para radicalizar a patológica gula dos cartolas por dinheiro.
Em 2 de dezembro de 2010, seis paÃses europeus apresentaram quatro candidaturas para 2018 (Inglaterra, Rússia, Espanha/Portugal e Holanda/Bélgica); Austrália, EUA, Japão, Catar e Coreia do Sul se lançaram na disputa da edição de 2022. Até as calçadas de Zurique, a cidade da Fifa, sabiam que os melhores projetos eram o inglês e o americano â mas terminaram escolhidos a terra da vodca e a pequenina monarquia que flutua em petróleo.
A Copa de 2018, aliás, serviu como aperitivo da excrescência. A Rússia negligencia os direitos humanos, naturaliza o racismo e a misoginia, e sua democracia tem a solidez de um castelo de areia. O ex-agente da KGB Vladimir Putin está no poder desde 1999, revezando-se entre os cargos de primeiro-ministro e presidente. Ocupa a chefia do executivo desde 2012, cavalgando o oximoro da ditadura que se renova em eleições sem credibilidade. (Em 2021, aprovou lei que lhe permite ficar no posto até 2036.) Além disso, o paÃs criou uma indústria do doping, que levou ao banimento dos Jogos OlÃmpicos e de mundiais de quase todos os esportes. Não estará no Catar por causa de outra exclusão, pela invasão à Ucrânia.
A corrupção desenfreada na escolha duplamente absurda pôs os mandachuvas da bola na mira do FBI e do Departamento de Justiça dos EUA. A investigação que durou três anos terminou, em 2015, com sete cartolas presos, por desvio de US$ 150 milhões. O sol passou a nascer quadrado para, entre outros, José Maria Marin, presidente da CBF, e Chuck Blazer, caricatura ambulante que comandava a Federação de Futebol dos EUA.
O então presidente da Fifa, Sepp Blatter, escapou da cadeia, mas perdeu o emprego. Encurralado pela denúncia (publicada pelo âNew York Timesâ) de que Jérôme Valcke, secretário-geral e seu braço-direito, tinha conhecimento da propina de US$ 10 milhões paga a um cartola do Caribe pelo voto em favor da Ãfrica do Sul como sede da Copa de 2010, renunciou após comandar a Fifa por 17 anos â e, segundo investigação interna, embolsar, com dois funcionários, o equivalente a R$ 286 milhões.
(Processado, Blatter acabou inocentado na primeira instância, mas a promotoria suÃça recorreu. O escândalo envolveu mais gente, inclusive um astro dos campos, o francês Michel Platini, que renunciou à presidência da Uefa por ter recebido 1,8 milhão de euros, também na baixaria do Catar.)
O cartola suÃço não inventou nada. Apenas seguiu o caminho aberto por seu antecessor, o brasileiro João Havelange, que vislumbrou o potencial de dinheiro e poder do futebol a partir das artesanais copas dos tempos de Garrincha, Pelé, Eusébio, Beckenbauer, Bobby Moore. Pragmático além de qualquer limite ético, o ex-atleta olÃmpico de natação e polo aquático articulou sua ascensão com as confederações não europeias e comandou a dona do jogo de 1974 a 1998.
A primeira Copa de Havelange empata com a do Catar em indignidade. Em 1978, o brasileiro transformou a Fifa em sócia de uma das mais sanguinárias ditaduras do século 20 para realizar o Mundial na Argentina. Ignorou os milhares de mortos e desaparecidos no paÃs e mandou a bola rolar nos campos enlameados pelo inverno sul-americano. Ainda fez pose de estadista na tribuna dos estádios ao lado do general Jorge Videla, primeiro e mais violento ditador do regime.
Os parceiros assistiram juntos ao time do craque Mario Kempes conquistar a competição, batendo a Holanda por 3 a 1 no Monumental de Nuñez â a 3,5 quilômetros da Escola de Mecânica da Armada, onde os torturadores praticavam atrocidades contra homens, mulheres e crianças. História de outro tempo, ancestral do arbÃtrio catari.
Depois de todo o poder, Havelange terminou seus dias no desterro. Em 2013, renunciou ao posto de presidente de honra da entidade (qualquer semelhança com o cargo dos bicheiros nas escolas de samba não tem nada de coincidência) para escapar de punições pelo envolvimento nos casos de corrupção que arrastaram os outros. Morreu aos 100 anos, em agosto de 2016, durante os Jogos OlÃmpicos do Rio.
O inventor da Fifa poderosa e multimilionária não viveu para testemunhar o constrangimento da Copa do Catar. Torcidas de vários clubes protestam e pedem boicote ao evento. PaÃses como França e SuÃça dispensaram as fan fest (tradição nos mundiais) em protesto pelas violações dos direitos humanos.
Até marcas comerciais estão fazendo o marketing na contramão. A cervejaria escocesa BrewDog espalhou orgulhosos outdoors e painéis em pontos de ônibus, do seu âantipatrocÃnioâ à Copa. âPrimeiro Rússia, agora Catar. Mal podemos esperar pela Coreia do Norteâ, zomba um deles. âPara sermos claros, amamos futebol, mas não amamos corrupção, abusos e morte. No Catar, a homossexualidade é ilegal, açoitamento é uma forma aceita de punição e está tudo bem que 6.500 trabalhadores tenham morrido construindo estádiosâ, ataca a empresa, em texto nas redes sociais.
Mas os poderosos do futebol não aprendem a lição. Conceitos como compliance e governança são miragens na vida real do jogo, em todas as esferas. O racismo grassa impune nas arquibancadas; a desigualdade e a concentração de renda imperam e 12 clubes europeus, delirantemente endinheirados, contratam todos os craques, dominando os campeonatos de que participam. Um deles, o Paris Saint-Germain de Neymar, Messi e Mbappé, tem como dono o Fundo Soberano do mesmo Catar.
A Premier League, maior e mais rica competição nacional, é uma espécie de paraÃso fiscal da bola. Aceita dinheiro de qualquer procedência â até outro dia, o Chelsea integrava o patrimônio de Roman Abramovich, bilionário russo que só foi enxotado por causa da invasão à Ucrânia. O Manchester City, ex-pequeno que, comandado pelo genial Pep Guardiola, joga o melhor futebol entre clubes, pertence ao sheik Mansour Bin Zayed Al Nahyan, vice-primeiro-ministro dos Emirados Ãrabes e dono de uma fortuna de US$ 41 bilhões (pouco mais de R$ 200 bilhões).
O capÃtulo mais recente dá um passo adiante na promiscuidade: o Newcastle foi comprado por 300 milhões de libras (quase R$ 2 bilhões) pelo Fundo Público de Investimento da Arábia Saudita, do prÃncipe Mohammad Bin Salman â aquele que mandou esquartejar um jornalista na embaixada do paÃs na Turquia. Agora, vai brincar na elite do futebol.
Hora do (breve) intervalo no cotidiano de propinas e escândalos, problemas e vilões â vai começar a Copa. Os craques baterão um bolão, haverá golaços, lances memoráveis, emoção, alegria, choro e ranger de dentes, até um dos capitães erguer a taça, dia 18 de dezembro. Mas uma derrota está garantida: dessa vez, será impossÃvel esconder a sujeira.
