Espécie de ancestral da mãe de todas as polarizações â a polÃtica, ainda à espreita, prestâenção querido incauto! â, o duelo de narrativas entre público e privado dominou os anos 1990. Repetia-se com fervor de oração o mantra de que o Estado era incompetente e privatizar garantia o esplendor da eficiência. Assim, a dicotomia â progresso e atraso, perfeição e equÃvoco, modernidade e anacronismo â espalhou-se como agrotóxico na lavoura.
Por causa da irracionalidade binária, tem gente no escuro há quase uma semana, na maior cidade do Brasil.
Leu essa? A eterna via crúcis dos passageiros de ônibus no Rio
A prometida excelência do setor privado desmoronou a partir de uma tempestade com granizo e ventos de até 100km/h que varreu São Paulo na tarde da sexta-feira. A tormenta de verão em plena primavera (olha a crise climática aÃ, gente!) materializou pesadelo para milhões de pessoas, condenadas pela incompetência da concessionária Enel a ficar sem energia elétrica por uma eternidade. A crise iluminou vários aspectos da predatória caça ao lucro â com aval de eleitos para cuidar da população â num serviço essencial à vida contemporânea.
Milhões de vÃtimas da empresa â filial brasileira da multinacional italiana, herdeira da estatal Eletropaulo, responsável, desde 2018, pelo fornecimento de energia elétrica em 24 municÃpios da mais populosa região metropolitana do Brasil â amargaram prejuÃzos irreparáveis. Alimentos se estragaram; mercadorias se perderam; eletrodomésticos se tornaram inúteis; pessoas com mobilidade reduzida não puderam sair de casa, sem condições para descer escadas em andares altos. Tudo culpa da Enel e de seus padrinhos no poder público.
De tão dramático, o martÃrio dos clientes explodiu em revolta. Terça (7), a rodovia Raposo Tavares, em Cotia, e a Avenida Giovanni Gronchi, na capital, foram bloqueadas em protesto contra o apagão interminável. A manifestação na via paulistana revelou aspecto cruel (e frequente em situações assim): ela separa o endinheirado bairro do Morumbi, onde a luz voltou rapidamente, da favela de Paraisópolis, que jazia à s escuras. Porque o âuniversalâ serviço privado chega primeiro a quem paga mais.
E aqui aparece a grande especialidade dos executivos das concessionárias: embrulhados em ternos bem cortados e gravatas caras, desfiam histórias tristes à plateia. De cabelo engomado e adestrados por milionários treinamentos de mÃdia, empenham vocabulário gorduroso para, no fim, culpar clientes e governos.
Outro personagem surrealista da história, o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, apareceu diante da TV com a parolagem de uma âcontribuição de melhoriaâ dos consumidores, para instalar cabos subterrâneos â equipamento banal, antigo até, em cidades administradas com seriedade, mundo afora. O alcaide paulistano sugeriu que os clientes paguem pela obra â e a cara dele nem coçou.
Receba as colunas de Aydano André Motta no seu e-mail
Veja o que já enviamosCertos mesmo, só os boletos da concessionária que, como a morte, chegarão inevitavelmente. Até agora, não se fala de abatimento nas contas pelos (muitos) dias de serviços não prestados. Os prejuÃzos sofridos pelo apagão vão morar nas calendas; quem quiser que corra atrás no oceano bravio das pequenas causas judiciais. Enquanto isso, a Enel São Paulo â flagrada com caminhões estacionados no pátio enquanto seus clientes mergulhavam no caos â prospera: demitiu 36% de seus funcionários desde 2019 (afinal, inchado é o setor público) e embolsou lucro de R$ 1,4 bilhão em 2022.
O apagão paulistano é apenas o capÃtulo mais recente do samba do privatista doido que assola o Brasil. Cantado em loas â inclusive pela mÃdia â, o setor privado tem uma coleção de esqueletos no armário. Produziu, por exemplo, duas das maiores tragédias ambientais de nossa história: os rompimentos das barragens de Fundão, em Mariana (obra da Samarco, propriedade da Vale e da anglo-australiana BHP), que deixou 18 mortos e um desaparecido; e de Córrego do Feijão, em Brumadinho (de autoria da Vale), onde morreram 272 pessoas e três desapareceram. Além das duas cidades, o dano ambiental se espalhou por Minas Gerais, destruindo rios, florestas e comunidades inteiras.
São privados também os horrorosos serviços de transporte cariocas, com destaque para a Supervia, responsável pelos trens na região metropolitana do Rio, martÃrio cotidiano padrão Enel. (Jamais por acaso, o setor segue estatal em mecas do capitalismo, como Nova York, Londres, Paris e Tóquio.) Os bancos, com lucros estratosféricos, tarifas milionárias e serviços precários, são outro exemplo lamentável. Seguros-saúde â que excluem os idosos e se tornam impossÃveis de usar quando mais se precisa â também estão na lista.
Ah, mas o colunista está muito radical, reclamará um defensor das privatizações. O setor público também tem seus pecados; muitos, aliás. O inferno mora na narrativa irracional, apaixonada por um lado e enojada do outro. A ideia neoliberal de ausência do Estado â alicerce do Consenso de Washington, doutrina baseada na liberdade dos mercados â espalhou ruÃna pelo mundo. Determinados setores, como transporte, saúde e energia não podem estar subordinados à pressão do lucro. Dá errado.
A apagada maior cidade brasileira serve de prova.
