Elas são como parentes distantes, que aparecem para uma visita a cada quatro anos. Mas não se engane: pertencem à famÃlia â desgraçadamente. Sinalizam uma vida melhor, apenas para voltar em seguida à dimensão de onde, na verdade, nunca vão sair: a ficção. No Rio de Janeiro, a campanha eleitoral está sempre acompanhada por elas, as mentiras. E os candidatos não se constrangem em chama-las de volta, a cada disputa. Parece obrigação.
Leu essa? Ãnibus, eterna maldição do Rio
Até muda o setor, mas a inverossimilhança se mantém. A preferida das últimas disputas é a Linha 3 do Metrô, a ligação por trilhos entre São Gonçalo, na Região Metropolitana, e o Centro da capital, atravessando a BaÃa de Guanabara por túneis subterrâneos. Trajeto de 37 quilômetros, ligando as duas cidades mais populosas do estado, para debelar dramáticos problemas de mobilidade urbana.
Na corrida eleitoral de 2022, os três principais candidatos a governador repetiram os anteriores e prometeram construir a Linha 3. Não se engane: eles mentiram.
LÃder das pesquisas, Claudio Castro (PL) invocou a lorota numa visita à Saara, mês passado. âA gente está fazendo o corredor expresso em São Gonçalo, e com certeza o final dele é a junção do metrô, a Linha 3. (…) Esse projeto já está no nosso conjunto de mobilidade urbanaâ, mandou, sem constrangimento.
Marcelo Freixo (PSB) recorreu ao embuste no fim da sabatina do RJ TV, na terça-feira (13). âVamos investir em trem e metrô. à prioridade absoluta fazer o metrô ser ampliado e aà a Linha 3 é muito importanteâ, prometeu, socorrendo-se da ressalva de que âdepende do governo federalâ.
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Veja o que já enviamosEx-prefeito de Niterói â por onde o modal dos sonhos também passaria â, Rodrigo Neves (PDT) embarcou na patranha de peito aberto. âVamos fazer a Linha 3 do metrô que estava prevista para ser feita antes da Linha 4. Vamos começar no primeiro mandato. Escreva aÃ.â, garantiu, ao G1 em agosto, falando numa âlicitação internacionalâ.
Tudo cascata.
âA Linha 3 não será feita por uma infinidade de razõesâ, antecipa Ronaldo Balassiano, professor de Planejamento em Transportes da Coppe/UFRJ, acrescentando que a obra carÃssima é só a primeira delas. âAlgo tão extenso e complexo demanda um estudo profundo de mobilidade urbana e de urbanismo, com visão de demanda, realidades locais e viabilidade econômicaâ, lista ele, citando as trapalhadas do BRT carioca como prova da incompetência invencÃvel.
Muito mais urgente do que a decisão sobre o modal, aponta Balassiano, é remover do caminho mazelas renitentes da administração pública fluminense. âComeça por não tolerar a corrupção daqui, que multiplica o custo das obras por quatroâ, ensina. âE o foco precisa ser a melhoria do sistema de transporte como um todo, com um diagnóstico para funcionar de forma integrada, com bilhete único de valor que as pessoas possam pagarâ, segue o professor que, aos 67 anos, não alimenta qualquer esperança de mudança em setor tão maltratado no Rio.
Ele lembra ainda o poder dos empresários de ônibus, que enfeitiçam todos os inquilinos de cargos públicos por aqui. “O desastre do transporte rodoviário na pandemia é 99% culpa % deles”, atesta. “A prefeitura não consegue sequer eletrificar a frota, nem oferecendo comprar os veÃculos. Uma coisa simples!” Balassiano usa os exemplos do atual cenário para defender um administrador central, que garantiria a integração do sistema. E destaca que, no lugar da Linha 3, o investimento, para socorrer vários municÃpios, deveria ser o transporte hidroviário, com as barcas pela BaÃa.
A saga do metrô, a partir de 1979, ratifica o vaticÃnio do especialista. ConstruÃdo a passo de cágado, com equÃvocos e paralisações, oferece hoje as linhas 1 (General Osório, em Ipanema, a Uruguai, na Tijuca), 2 (Botafogo-Pavuna) e 4 (General Osório-Jardim Oceânico, na Barra). Pelas suas 41 estações passam cerca de 900 mil passageiros todos os dias. Privilegiando a área mais rica do Rio, mantém inacabada a estação da Gávea, buraco que consumiu milhões de reais e põe em risco a estrutura dos prédios da região.
A comparação com o serviço em outras metrópoles é complexa; muitas começaram a investir no transporte há mais de um século (Londres, Nova York, Paris, Berlim), outras embrenharam-se em obras intensas (Pequim, Cidade do México). Apenas para dimensionar a irrelevância da versão carioca, o maior metrô do mundo fica em Xangai, na China â inaugurado em 1993, ostenta 18 linhas e 459 estações, que carregam 7,7 milhões de pessoas diariamente. O modal mais extenso do Brasil fica em São Paulo, e não é grande coisa: seis linhas, 91 estações e quase 2 milhões de passageiros diários.
Prevista no projeto original do metrô carioca/fluminense, de 1968, a Linha 3 seria a maior integração intermodal do Brasil. Ao longo dos governos, virou monotrilho, passou a BRT, voltou a ser metrô, cogitou-se formatos hÃbridos â mas jamais saiu da xanadu dos planos não realizados. E sempre â sempre â volta a visitar o Rio, como mentira eleitoral.
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As campanhas nessa terra ensolarada e desigual historicamente passeiam pelos delÃrios mais inatingÃveis. Muitas eleições travestiram-se em plebiscitos sobre segurança. Moreira Franco prometeu acabar com a violência do Rio em seis meses; Sérgio Cabral inventou as UPPs para esconder uma patológica saga de corrupção; Wilson Witzel prometeu dar âtiro na cabecinhaâ de marginais que portassem fuzis.
Outra lenda eleitoral é a limpeza da BaÃa de Guanabara. Criado em 1994 com banda de música e promessas paradisÃacas, o Programa de Despoluição construiu quatro estações de tratamento, mas faltaram quase todos os canos para levar os dejetos até elas (transporte não é o forte por aqui). A parte instalada, chamada ETE Pavuna, opera com apenas 18% de sua capacidade.
Na enchente de dinheiro das OlimpÃadas de 2016, emergiu a promessa de tratar 80% do esgoto lançado na baÃa. Cinco anos depois, a taxa variava entre 24% e 46%, dependendo da fonte. Agora, com a concessão do saneamento à iniciativa privada, os projetos se renovaram e a nova meta é tratar 90% até 2033.
Todos os casos cabem no aforismo do Capitão Nascimento: nunca serão.

Enfim esses polÃticos nem conseguem inventar novas mentiras estão sem criatividade kkkkkkk sempre as mesmas promessas e com um grande detalhe sem cumpri las