Com 108 mil habitantes, 30% a mais do que possuÃa antes de ter sua rotina virada do avesso pela construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, Altamira, no Pará, está no topo do ranking das cidades mais violentas do paÃs. A cidade do Norte do paÃs tem taxa de 107 homicÃdios por 100 mil habitantes – quase quatro vezes a média nacional. O dado está no Mapa da Violência 2017, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública e com o Ministério do Planejamento. Divulgado nesta segunda (5), o documento contém indicadores de 304 municÃpios, de um perÃodo de 10 anos _ entre 2005 e 2015.
[g1_quote author_name=”Daniel de Castro Cerqueira” author_description=”Diretor do Ipea” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]No Norte do paÃs, quando pequenas cidades se tornam economicamente viáveis, elas também se transformam em rotas do narcotráfico, que arrasta consigo uma onda de violência
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Veja o que já enviamosOs números são estarrecedores. Acontece pelo menos um homicÃdio a cada três dias na cidade paraense que, há pouco mais de seis anos, sequer possuÃa casas de alvenaria: a população morava na beira do rio, em palafitas. A comparação com anos anteriores evidencia ainda mais a escalada da violência: em 2000, eram 9 homicÃdios por 100 mil habitantes; e em 2005, a taxa já tinha subido para 50.
Segundo Daniel de Castro Cerqueira, diretor de Estudos e PolÃticas do Estado, do Ipea, a situação de Altamira é emblemática, por demonstrar os impactos do crescimento desordenado provocado por uma grande obra.  “Quando as transformações urbanas e sociais acontecem sem as devidas polÃticas públicas, não apenas em relação à segurança, mas também ao ordenamento urbano e à prevenção social (educação, cultura, saúde), podem afetar diretamente a taxa de criminalidade nas cidadesâ, avalia.
De acordo com Cerqueira, são quatro os canais que podem afetar a taxa de criminalidade de uma cidade e todos eles estão evidentes em Altamira: desemprego, elevado volume de recursos em circulação, migração de trabalhadores e falta de polÃticas públicas para atender à s demandas do crescimento urbano.
Cerqueira cita estudos mostrando que, para cada 1% de queda na taxa de desemprego, há uma diminuição de 2,1% na taxa de homicÃdios. O diretor do Ipea, no entanto, lembra que, ao mesmo tempo em que uma grande obra gera muitos empregos, diminuindo as chances de um jovem enveredar para o mundo do crime, o âtiro sai pela culatraâ quando as oportunidades são restritas ou atendidas por migrantes, ou quando são limitadas a um perÃodo de tempo.
[g1_quote author_name=”Daniel Cerqueira” author_description=”Diretor do Ipea” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Cresce o número de alunos, de pacientes, de moradores, e não se vê crescimento correspondente em vagas nas escolas, leitos nos hospitais ou casas para morar
[/g1_quote]O volume de dinheiro em circulação também é uma faca de dois gumes. âA geração de renda atrai coisas boas que o mercado pode oferecer para a economia local, mas também pode atrair algumas mazelas. No Norte do paÃs, quando pequenas cidades se tornam economicamente viáveis, elas também se transformam em rotas do narcotráfico, que arrasta consigo uma onda de violênciaâ, avalia Cerqueira.
As grandes obras atraem trabalhadores de outras cidades e estados. Eles chegaram durante o perÃodo da construção da usina de Belo Monte e acabaram ficando por lá mesmo após  o término das obras. Por fim, faltam polÃticas públicas que atendam à s demandas geradas por esse inchaço da população e pelo crescimento desordenado. âCresce o número de alunos, de pacientes, de moradores, e não se vê crescimento correspondente em vagas nas escolas, leitos nos hospitais ou casas para morar. O poder público precisa associar diretamente essas demandas a oportunidades de desenvolvimento econômico regional e não a problemas sociaisâ, diz Cerqueira.
Estudo desenvolvido pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) junto aos cinco municÃpios que compõem a região impactada por Belo Monte, entre eles Altamira, demonstrou que as contrapartidas até chegaram a ser cumpridas pela construtora, mas não foram levadas adiante pelo governo do Estado. Um hospital geral construÃdo pela empresa responsável pela obra ficou sem funcionar por falta de equipamentos e profissionais. Só abriu quatro anos depois de de pronto, ainda parcialmente.
As obras de saneamento, prometidas para atender a 100% dos moradores, tão logo a obra terminasse, nunca saÃram do papel. A população continua exatamente onde estava em 2008, antes de a Eletrobras solicitar a licença para a construção da usina: com zero de saneamento. Completam o quadro de abandono, escolas precárias e em quantidade menor do que o necessário, e falta de policiamento, reclamação constante dos moradores.
O diretor do Ipea é enfático ao fazer a relação direta do Ãndice de Desenvolvimento Humano (IDH) de Altamira (0,665) com o grau de violência na cidade. Jaraguá do Sul (SC), o municÃpio mais pacÃfico entre os 304 acima de 100 mil habitantes pesquisados pelo Ipea, apresenta taxa de 3,7 homicÃdios por 100 mil habitantes e IDH de 0,803. Em 2015,  a renda per capita  do municÃpio catarinense era mais do que o dobro de Altamira. No mesmo ano, quase 70% dos jovens com mais de 18 anos, em Jaraguá do Sul, tinham ensino Fundamental completo. Em Altamira, eles não passavam  de 46%. âA qualidade da polÃtica pública é um dos elementos cruciais para a diminuição das dinâmicas criminaisâ, conclui Cerqueira.

Lamentável, essa situação. Principalmente quando o governo não dá continuidade aos programas.