(Enviada especial a Sarajevo). No extremo noroeste da Bósnia e Herzegovina, no cantão de Una Sana, região próxima à fronteira com a Croácia, a situação dos imigrantes é desesperadora. Aqui encontram-se as cidades de Ostrozac (onde está o iraniano Amir Labbaf), Velika, Kladusa, Miral e BihaÄ. Em meio ao silêncio das montanhas que as circundam, em abril de 2020, foi erguido, a toque de caixa, o campo de refugiados de Lipa para enfrentar a emergência da covid-19. Com a mesma velocidade, oito meses depois, em 23 de dezembro, o campo foi destruÃdo por um incêndio e milhares de seres humanos ficaram sem ter para onde ir. Naquele mesmo dia a Organização Internacional para as Migrações (OIM), responsável pelo campo, anunciava o fechamento do local porque não era âadequado para hospedar pessoasâ: faltava água, saneamento básico e comida.
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Os âdesgraçadosâ de Lipa se somam à s centenas de outros refugiados que não encontram lugar nos campos do governo ou da OIM e acabam indo parar em barracas de plástico preto erguidas em meio à floresta ou em velhas construções abandonadas nas cidades.
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No centro de BihaÄ, cerca de 200 pessoas tentam se proteger do frio em um prédio abandonado nos tempos de guerra. Conhecido como Dom, seria um lar para idosos, mas nunca foi concluÃdo. O perigo é latente para os que vivem sob esse teto sem porta nem janela. Talvez, por isso, não tenha crianças e mulheres vivendo aqui. Os homens, que têm entre 21 e 35 anos, se organizam para que o campo improvisado, caindo aos pedaços, não despenque de vez em suas cabeças. O lugar mais parece um aterro: o lixo divide o espaço com seres humanos.
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Veja o que já enviamosComo ratos de laboratório, eles dormem amontoados em pequenos espaços mais fechados para tentar se proteger do frio. Os cobertores são usados para forrar o chão de cimento e os mais sortudos queimam o que ainda resta da madeira doada por ativistas dos direitos humanos. Os menos afortunados queimam plástico e enchem os pulmões de dioxina, substância altamente cancerÃgena. O fogo é usado não só para o aquecimento, mas também para preparar comida em grandes latões, que substituem as panelas. A miséria impera no Dom, e é impossÃvel mandá-la embora. Além de comida e roupas, esses seres humanos precisam, principalmente, de remédios e cuidados médicos.
No bar de um vizinho posto de gasolina, na periferia de BihaÄ, Gianni, um senhor aposentado, toma um café e conversa com outros dois amigos. Do outro lado da rua, em frente a um terreno baldio, um grande cartaz onde se lê “No campâ. Gianni diz que os habitantes de BihaÄ estão cansados dos problemas causados pelos refugiados. âEles ficavam espalhados pela cidade, faziam baderna até que o governo mandou todos para Lipaâ, conta, referindo-se ao campo que pegou fogo ano passado. Bósnio, sabe um pouco de italiano dos tempos em que foi caminhoneiro: “à um desastre, é tudo um jogo polÃtico”.
