A crise humanitária do povo Yanomami – com centenas de indÃgenas sofrendo de doenças e desnutrição – é apenas o mais recente capÃtulo dos mais de 500 anos de história do Brasil desde a chegada dos portugueses e outros europeus a essas praias e florestas. O ataque recente de garimpeiros, madeireiros e grileiros ameaça hoje os mundurukus, no Pará, os karipunas, em Rondônia, e muitas outras etnias que conseguiram sobreviver e manter seus territórios, sua cultura e seu modo de vida. Historiadores calculam que mais de três milhões de indÃgenas habitavam o que seria o Brasil em 1500. A maioria vivia nas matas ao longo do litoral – esses povos foram os mais dizimados na ocupação portuguesa.
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Este Rio de Janeiro, cidade de São Sebastião no batismo por Estácio de Sá, era território dos indÃgenas tupinambás e temiminós, etnias das quais restam poucos descendentes. Hoje, os nascidos aqui são cariocas – palavra vinda do tupi, lÃngua indÃgena falada pelos povos locais. Para alguns estudiosos, carioca é uma fusão de karaâiwa (ou simplesmente kari: caraÃba, homem branco) com oka (casa). Para outros, é o aportuguesamento da karióc, nome da aldeia tupinambá, uma das maiores do território, no sopé do morro do Outeiro da Glória, e também do rio que passava por ali. E Guanabara, Ipanema, Tijuca, Maracanã, Inhaúma, Jacarepaguá, Guaratiba e Sepetiba, marcas da identidade carioca, são todas palavras de origem indÃgena.
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Veja o que já enviamosDe acordo com o Censo 2010 (o de 2022 ainda está longe de ser concluÃdo), a cidade do Rio de Janeiro tinha quase 7 mil habitantes indÃgenas – em sua maioria, guaranis (que, em 1500, viviam mais ao sul do estado do Rio), tupiniquins (concentrados há cinco séculos no sul da Bahia e EspÃrito Santo) e tupinambás. No Brasil todo, 896 mil pessoas se declaravam ou se consideravam indÃgenas.
No Rio, o Censo registrou 127 grupos étnicos, que falavam 26 lÃnguas indÃgenas. Mas 63% dos autodeclarados indÃgenas recenseados no Rio em 2010 não sabia dizer qual era sua etnia. Apesar de responsáveis por tantas palavras usadas pelos cariocas, de terem trabalhado – como escravos – na construção do Aqueduto da Lapa, e de fazerem parte viva da história da cidade, os indÃgenas, sua cultura e sua memória são maltratados no Rio de Janeiro, particularmente por quem deveria cuidar da preservação e da valorização.
Fica aqui na cidade o Museu do Ãndio, criado em 1953 pelo antropólogo Darcy Ribeiro, então funcionário do Serviço de Proteção ao Ãndio, depois ministro, vice-governador e senador pelo Rio de Janeiro. O acervo do museu reúne quatorze mil peças etnográficas, dezesseis mil publicações especializadas em etnologia e mais de 50 mil imagens, além de quinhentos mil documentos sobre os povos indÃgenas. Subordinado à Funai, o Museu do Ãndio funciona, desde 1978, em um casarão em Botafogo, construÃdo em 1880, que integra um conjunto arquitetônico tombado pelo Iphan, do qual também fazem parte dois anexos que também abrigam parte do acervo e a área de trabalho dos funcionários.
O Museu do Ãndio, antes local de peregrinação de estudantes e pesquisadores, está fechado desde o governo Temer, para realização de obras de infraestrutura jamais terminadas – e praticamente paralisadas durante o governo Bolsonaro. Neste Dia Nacional de Luta dos Povos IndÃgenas (7 de fevereiro), fica aqui a lembrança para a ministra dos Povos IndÃgenas, Sônia Guajajara, e para a presidente da Funai, Joenia Wapichana: é preciso completar a obra e reabrir esse espaço de valorização da cultura, quem sabe agora, sob nova direção, também com novo nome, Museu dos Povos IndÃgenas.
De sua fundação até a transferência do acervo para Botafogo, o Museu do Ãndio funcionou em uma área ao lado do Estádio do Maracanã, outro sÃmbolo dos maus tratos à cultura indÃgena. Após a desativação, o espaço – onde, em 1910, funcionou a primeira sede do Serviço de Proteção ao Ãndio, antecessor da Funai – nunca teve novo destino: abandonado, o edifÃcio foi reduzido a ruÃnas. Em 2006, a área foi ocupada por um grupo de indÃgenas que reivindicava a criação de um centro cultural no local; em 2013, teve tiro, porrada e bomba quando o governo do Rio tentou desocupar o terreno – cedido, na ocasião, pelo governo federal – para ampliar o estacionamento do Maracanã para a Copa do Mundo.
Parte dos indÃgenas saiu, parte ficou na por eles chamada Aldeia Maracanã, que é alvo de ação judicial envolvendo o governo estadual, os invasores e a Funai, por envolver indÃgenas. Ainda há cerca de 50 pessoas, inclusive algumas crianças, vivendo em barracas no terreno do prédio em ruÃnas. Pesquisadores defendem a criação de uma universidade indÃgena no espaço.
Diante das dramáticas ameaças enfrentadas pelos povos indÃgenas em quase todas as partes do Brasil, o fechamento do Museu do Ãndio e o abandono da área da Aldeia Maracanã não devem estar entre as prioridades do ministério ou da Funai. Mas Sônia Guajajara e Joenia Wapichana são mulheres guerreiras indÃgenas: vão saber a hora de olhar para o patrimônio de seus povos também em território carioca.
