Luize Sampaio*
Um morador de Queimados, municÃpio da Baixada Fluminense com cerca de 150 mil habitantes, tem em média 12 anos de vida a menos do que um morador da cidade de Niterói, também na Região Metropolitana do Rio. Os altos Ãndices de violência podem ser uma das explicações para essa disparidade apontada pelo Mapa da Desigualdade 2020. No Atlas da Violência 2018, Queimados foi apontada como a cidade mais violenta do paÃs, com um Ãndice de 134,9 mortes violentas para cada 100 mil habitantes. No ano seguinte, o municÃpio permaneceu no top 5 da mesma pesquisa, feita pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, com taxa de 115,6 mortes violentas.
Para diminuir esses Ãndices, os coletivos e organizações locais querem que o poder público aposte em esporte, cultura, educação e emprego. Atualmente, durante o perÃodo eleitoral, o municÃpio vive uma disputa de narrativas intensa: o tema violência se tornou também uma das principais pautas eleitorais dos planos de governo apresentados pelos candidatos à prefeitura da cidade. Mas, ao contrário do que pregam os moradores, 7 dos 10 prefeitáveis querem combater à violência com foco no videomonitoramento das ruas e com a ampliação da atuação da guarda municipal.
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Veja o que já enviamosà no meio desse embate de caminhos das forças locais e polÃticas que surge a Agenda Queimados 2030. ConstruÃda de forma coletiva, junto a ativistas e coletivos locais, a publicação reúne uma série de dados e propostas que buscam garantir a superação dessa violência no território. Essa agenda vai ser lançada no dia 24 de outubro, em parceria com os territórios de Japeri, São Gonçalo e Maré que também estão produzindo suas agendas locais.
As pautas da publicação de Queimados são atravessadas pelos valores de direito à cidade, desenvolvimento sustentável e superação da violência. Gerente de projetos do Golfinhos da Baixada, Gisele de Castro, uma das coordenadoras do trabalho, explica como a Agenda busca utilizar o esporte na redução da violência. âO esporte tem potencial de promover a transformação social. Vivenciamos essa possibilidade aqui no Golfinhos através da natação. A cultura do esporte tem que ser vista como uma ferramenta de polÃtica pública no combate à violência; ela cria uma nova possibilidade de futuro para as crianças e jovens. Por isso, queremos que a prefeitura olhe com mais cuidado para o setor e passe a incluÃ-lo no orçamento público da cidadeâ, enfatizou Gisele.
Para a coordenadora, a Agenda Queimados é resultado de um trabalho de cuidado feito por moradores que amam a cidade. Gisele contou também como a crise sanitária provocada pelo novo coronavÃrus atravessou a produção da Agenda. âEsse trabalho foi produzido após uma série de coletas de dados e análise de pesquisas. E, durante a pandemia, parte do grupo se mobilizou para ajudar a população com a doação de cestas básicas. Nessas entregas, conversando e entrevistando cerca de duas mil pessoas, conseguimos desenhar o perfil dos moradores da cidade. Isso nos ajudou a decidir os temas e urgências que colocamos na Agendaâ, resumiu Gisele.Â
Os dados do grupo mostraram que mais de 70% das pessoas que receberam as cestas eram mulheres, chefes de famÃlia, que trabalhavam informalmente. O Mapa da Desigualdade mostrou que essa é uma realidade anterior a pandemia: a pesquisa – produzida pela Casa Fluminense, associação civil com foco em polÃticas públicas para a Região Metropolitana do Rio – aponta que, a cada 100 moradores de Queimados, apenas 10 têm emprego formal na cidade.
A Agenda Queimados acredita da criação de um programa de primeiro emprego como forma de estimular a mudança tanto no quadro de violência quanto no de desemprego. A proposta é convocar jovens que estavam em privação de liberdade ou então com dificuldades escolares a se capacitar profissionalmente em espaços públicos, desenvolvendo qualidades técnicas em prol da produtividade municipal.
A juventude é uma das grandes apostas do grupo para uma mudança na cidade. Integrante da organização social bxd_Qm2, o universitário Lennon Medeiros, de 24 anos, faz parte da produção da Agenda Queimados e afirma que o documento foi pensado para aproximar os jovens da pautas do municÃpio. Para isso, ressalta o poder da internet. “Queremos qualificar o debate público, despertar o interesse das pessoas pelos temas e a internet é uma ferramenta importante para isso”, afirmou.
Mesmo com os dados do Mapa da Desigualdade mostrando que somente 27,6% da população tem acesso à banda larga fixa, Lennon acredita que são por redes móveis que o engajamento dos jovens vai acontecer. âExiste muito tráfego de informações e trocas acontecendo pelos celulares, mas qual a qualidade dessas interações? Queremos que a tecnologia seja uma aliada, para isso é preciso engajar a juventudeâ, explicou.Â
Agendas locais 2030Â
Elaboradas por lideranças e grupos da região de Japeri, Queimados, São Gonçalo, Maré e Santa Cruz, as agendas locais são resultado de um trabalho de escuta e análise de dados territoriais. Elas surgiram como uma forma ampliar a Agenda Rio 2030, que é um conjunto de propostas de polÃticas públicas, atualizada e produzida pela Casa Fluminense  e sua rede de parceiros na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. As agendas locais têm como objetivo amplificar o debate público e o monitoramento social, não só aquele que é feito na academia e nos órgãos de governo, mas também nos territórios.
*Casa Fluminense
