Maior exportador de carne bovina e soja do mundo, o Brasil tem todas as condições – e deve liderar pelo exemplo – de assumir o protagonismo na construção de um padrão internacional de rastreabilidade. Essa é a conclusão do estudo “Rastreando a responsabilidade: fortalecendo o monitoramento do desmatamento nas cadeias de suprimento de soja e carne bovina do Brasil”. De autoria de pesquisadores do WRI Brasil e da China, o levantamento conta ainda com apoio da BV Rio, da Amigos da Terra, dos Principles for Responsible Investment (PRI, de Londres) e da Proforest, da China.
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Juntas, essas duas cadeiras produtivas foram responsáveis, em 2024, por 60% das exportações agropecuários do Brasil. Naquele ano, a China foi o principal comprador mundial dessas commodities. Em dois anos, 2023 e 2024, as exportações somaram US$ 44,6 bilhões. À medida que o cerco internacional contra a carne bovina e a soja associadas ao desmatamento aumenta, a rastreabilidade completa e confiável da produção agropecuária virou um diferencial competitivo, deixando de ser apenas uma exigência regulatória.
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Veja o que já enviamosNa visão dos pesquisadores envolvidos no estudo, não se trata apenas de preservação do meio ambiente, mas de uma questão econômica e estratégica. Cadeias produtivas rastreáveis e transparentes fortalecem a confiança dos mercados, reduzem incertezas para exportadores e importadores, possibilitam o acesso a mercados mais exigentes e contribuem para a estabilidade das relações comerciais de longo prazo.
Em 30 de dezembro deste, por exemplo, entra em vigor a lei antidesmatamento da União Europeia, o que obrigará países exportadores de carne e soja, e também de café e madeira, como é o caso do Brasil, comprovarem, por meio de dados de geolocalização, a origem dos produtos. É fato que o comércio global de alimentos vem passando por uma transformação importante. Há uma clara tendência de compradores, governos e instituições financeiras ampliarem as exigências e buscarem maiores garantias de que produtos agrícolas, como soja e carne bovina, sejam produzidos em conformidade com critérios socioambientais e sem desmatamento.
O estudo do WRI propõe a criação de um marco de referência unificado, baseado na legislação brasileira e alinhado aos principais padrões internacionais para cadeias livres de desmatamento e conversão. “Mais do que respostas para as exigências que vêm lá de fora, o Brasil tem em mãos a oportunidade de transformar a transparência e a confiabilidade em estratégias de desenvolvimento“, avalia Mariana Oliveira, diretora do Programa de Florestas e Uso da Terra do WRI Brasil.
Uma das conclusões do trabalho é que “o atual conjunto de iniciativas do Brasil é fragmentado, apresentando inconsistências em aspectos fundamentais do monitoramento, como datas de cortes divergentes, fiscalização desigual e cobertura limitadas de fornecedores indiretos, o que comprometem a conformidade efetiva ao longo das cadeiras de suprimentos.”
Foram analisadas 21 iniciativas, das quais dez delas voltadas para a soja e 11 para a carne bovina, concebidas para apoiar o monitoramento e a verificação de cadeiras de suprimentos sustentáveis nos biomas Amazônia e Cerrado. Três iniciativas de rastreabilidade bem-sucedidas chamaram a atenção dos pesquisadores: o Protocolo de Monitoramento de Fornecedores de Gado da Amazônia, o Protocolo Grãos Verdes do Pará e as plataformas Selo Verde, analisadas nos estados do Pará, Minas Gerais e Maranhão.
O estudo ressaltou a importância da criação de um protocolo nacional integrado. Essa unificação de normas e regras, segundo os pesquisadores, melhoraria a capacidade de diferentes sistemas, aplicativos ou máquinas trocarem e usarem dados entre si. Com isso, as auditorias seriam simplificadas, aumentaria a transparência e fortaleceria a credibilidade das exportações brasileiras de soja e carne bovina.
O WRI também destaca a importância da China para unificar os protocolos: fortalecer os marcos legais e o comércio sustentável entre Brasil e China poderia trazer grandes benefícios para a conservação das florestas. Na avaliação da WRI, um protocolo bilateral criaria uma ‘linguagem comum’ entre os dois países, reduzindo incertezas para importadores e aumentando a credibilidade das cadeias brasileiras de soja e carne.
O estudo diz que desenvolver um protocolo comum é uma oportunidade estratégica para fortalecer a cooperação ambiental entre Brasil e China, ancorar o comércio na legalidade e na transparência e atender à crescente demanda global por cadeias de suprimento sustentáveis.
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