Em poucos minutos de conversa, já é possÃvel perceber o quanto Day Molina é revolucionária. Pioneira em trazer perspectivas indÃgenas para o universo da moda brasileira, criadora de uma marca que valoriza a potência do feminino, além de ativista na luta por mudanças nessa indústria, a estilista tem percorrido uma trajetória que merece destaque.
Sua carreira começou quando, ainda durante o perÃodo em que cursava sociologia, passou a trabalhar como figurinista em um atelier. A experiência foi tão transformadora que a levou a seguir o caminho da moda.
âQuando eu decidi fazer o freela nesse atelier, eu não tinha noção de que essa pequena movimentação transformaria muita coisa na minha vida. Foi nesse lugar que eu dei os meus primeiros passos na carreira, e ali, eu entendi que queria mesmo estudar modaâ, relembra a estilista.
Gostando do conteúdo? Nossas notÃcias também podem chegar no seu e-mail.
Veja o que já enviamosAinda nessa época, Day ganhou uma bolsa para estudar Direção de Arte na Argentina, onde entendeu que a estrutura do racismo não fazia parte apenas da realidade brasileira, mas sim, de toda a América Latina e do resto do mundo. âFoi quando eu comecei a aprofundar a minha pesquisa para questionar quem são os criadores indÃgenas atuando na indústria da moda. E naquela época não existiam pessoas indÃgenas protagonizando lugares de liderança, de opinião, ou atuando como designersâ.
Dessa forma, mapeou e criou um casting para trazer visibilidade aos profissionais indÃgenas, e deu inÃcio ao movimento #descolonizeamoda. Ao se reconectar com a sua própria narrativa, encontrou na sua linhagem matriarcal, a motivação para seguir esse propósito. Sua bisavó Caetana foi uma das primeiras mulheres que exerceram o ofÃcio de alfaiate em Pernambuco, como forma de sustentar a famÃlia após se tornar viúva. Enquanto isso, sua avó Nana influenciou na forma como Day se posiciona no mundo. Logo, trabalhar para o feminino se tornou quase que uma consequência, e em 2017, lançou a Nalimo.
âEu sempre falo que Nalimo não é só uma marca de moda, é um movimento de vanguarda, é um movimento de profunda coragem de tocar em assuntos que antes não eram falados dentro da indústria da moda. E eu sempre digo que o meu grande viés de empoderamento foi a intelectualidadeâ.
Todo esse repertório lapidou sua perspectiva mais analÃtica sobre os modos de se fazer moda. âEu olho mais para os processos, do que para uma roupa. Eu olho muito mais para aquilo que eu quero dizer através de uma roupa, do que só o design. Porque para mim, o design só pelo design é inútil. Ele não tem propósito algum. Agora, quando eu olho para o design e para o processo dele, e aquilo que eu quero dizer através disso, eu encontro o meu propósito e consigo conectar com pessoas que estão no mesmo movimentoâ.
Se refletir o sentido de se fazer moda é parte da sua essência, com o seu processo criativo não seria diferente. Suas criações, como ela mesma sinaliza, estão num lugar do feminino, das conexões, da coletividade, do matriarcado, e do empoderamento de todas as gerações que vieram anteriormente.
âEu sempre falo que o meu processo criativo também está nesse lugar onde eu consigo pisar na terra, sentir o vento, ouvir o rio, ouvir os encantados que dentro da nossa cultura tem um papel importantÃssimo. Porque a gente entende que os nossos mais velhos morrem e voltam para a terra, voltam para a natureza. Viram árvores, viram rios, viram pássaros, viram o próprio vento, viram a chuvaâ, conta a estilista.
A relação saudável com a natureza é sua premissa, e dessa maneira, as peças da Nalimo são produzidas em fibra natural, orgânica (cânhamo) ou com tecnologia sustentável. As modelagens geométricas também refletem uma das formas que a estilista encontrou para reduzir impactos, uma vez que geram menos resÃduos por conta do design minimalista.
O minimalismo, inclusive, é muito expressivo na identidade da Day e da sua marca. âQuando ainda era stylist, li um artigo que me tocou profundamente. Se tratava de um relato documental sobre o impacto da moda nos rios da China. A cada temporada, os rios eram coloridos pelo Pantone da estação. Se a cor da temporada fosse azul, se percebia na poluição. Eu chorei lendo esse artigoâ.
Como cada detalhe que compõe os cuidados com a sua marca, poucas cores foram escolhidas para serem trabalhadas na Nalimo, mas cada uma delas apresenta um forte simbolismo da sua cosmologia.
âUsamos uma cartela de cores minimalista, com códigos ancestrais importantes para nós: o branco reflete a nossa espiritualidade, o preto simboliza o genipapo; o cinza pelas florestas incendiadas de forma criminosa; o vermelho pela resistência e nossas lutas; os tons de marrom pela diversidade de nossas peles. Raramente usamos outras coresâ.
Para Day, a moda é uma ferramenta polÃtica que pode representar cosmologias em defesa dos territórios, dos princÃpios e dos valores éticos. Como consequência, tem buscado também difundir seus aprendizados nesse campo. Recentemente, a estilista participou de uma imersão com mulheres Kayapó para ensiná-las o ofÃcio da costura, com o propósito de proteger a terra, possibilitar a troca e fortalecer a autonomia financeira e criativa delas.
âEssa experiência de partilhar o meu conhecimento, me ensina muito mais do que qualquer instituição de ensino. Para nós, indÃgenas, todos temos o potencial de aprender e ensinar. Isso responde a muita coisa. Rompe a lógica colonial sobre mestre e aluno. Na aldeia somos todos alunos, somos todos mestres. E juntos criamos coletivamente, pensamos e praticamos. à muito bonito esse movimentoâ.
Ao todo, o projeto contemplou 33 aldeias. E todas essas comunidades receberam máquinas de costura e insumos têxteis para que mulheres Kayapó pudessem criar suas próprias vestimentas transmitindo, dessa forma, aspectos da sua cultura e identidade.
Refletindo sobre as possibilidades de futuro, a criadora demonstra muita energia ativa para seguir materializando novas conquistas. âO fundamento da minha pesquisa está nisso; fazer da moda algo democrático, mais acessÃvel, expressando nossa diversidade étnica e cultural. Nessa caminhada, também estou escrevendo meu livro que é tão aguardado desde já. Sou a primeira mulher indÃgena atuando na vanguarda desse movimento. Escrevendo, pensando, mapeando e criando novas referências estéticas em nÃvel de representatividade racialâ, finaliza.
