Há 50 anos, quando o mundo se reunia para debater os problemas ambientais globais na Conferência de Estocolmo, o desmatamento da Amazônia era de cerca de meio por cento. Meio século depois, 21% da região que abriga a maior floresta tropical do mundo já foi desmatada. Diante desse histórico, agravado nos últimos anos, o pesquisador Beto VerÃssimo, do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), alerta que o cenário é de alto risco. âA Amazônia está numa encruzilhadaâ, afirma ao explicar que a continuidade do panorama atual de degradação tende a levar a floresta a uma situação de colapso irreversÃvel.
Para o pesquisador, evitar essa tendência dependerá do enfrentamento de uma conjunção de fatores como avanço dos crimes ambientais, desmonte de polÃticas públicas, tentativas de flexibilização da legislação, pressão sob territórios de povos tradicionais e exploração insustentável da natureza, opinião que coincide com a de outras referências no tema consultadas pelo #Colabora.
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Para quem pensa que 21% de desmatamento é pouco diante da resistência de 79% da Amazônia, VerÃssimo destaca que a proximidade de 25% de perda da vegetação nativa representaria o âponto de não retornoâ (tipping point, na expressão original em inglês). Isso significa um nÃvel de degradação capaz de modificar as caracterÃsticas da floresta tal qual a conhecemos. Seria o colapso de um tripé formado pela presença inigualável de biodiversidade, da capacidade de sequestro de carbono e de oferta hÃdrica assegurada pelas dinâmicas de evapotranspiração das suas árvores, além de outras funções ecológicas fundamentais ao equilÃbrio climático regional, nacional e global.
Um estudo publicado na revista Nature, em 2021, discute essa problemática que vem sendo alertada por climatologistas nos últimos anos. A publicação também confirma que essa tendência de alto nÃvel de degradação já é uma realidade em trechos da floresta que estão funcionando como fontes de emissão de carbono, em vez de atuarem justamente ao contrário, como sumidouros.
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Veja o que já enviamosVerÃssimo destaca outras contradições amazônicas, como a existência de territórios com altos indicadores de violência e pobreza. O Ãndice de Progresso Social (IPS) divulgado pelo Imazon, em 2021, ilustra essa realidade, ao evidenciar que os 15 municÃpios da Amazônia Legal com os piores IPS estão fortemente associados com desmatamento e conflitos fundiários. O pesquisador ressalta, ainda, que a economia regional tem muita ilegalidade e baixa produtividade. Segundo observa, a Amazônia responde, ao mesmo tempo, por 8% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro (por ser exportadora de commodities como alimentos e minerais) e por 50% das emissões de carbono e outros gases de efeito estufa do paÃs, justamente pelas mudanças no uso da terra para o avanço de atividades econômicas de altos impactos ambientais como a agropecuária. âTem um erro nesse modelo de desenvolvimentoâ, opina.
VerÃssimo afirma que é possÃvel desenvolver economicamente a região sem desmatá-la, embora reconheça que esse processo depende de prioridades governamentais. Ele considera que uma mudança no cenário polÃtico-institucional brasileiro vai ser decisiva para o futuro da região e para evitar o âponto de não retornoâ da floresta, embora reitere que não podemos esperar muito tempo para isso. âNão adianta tentar mudar depois. Não se consegue mudar o climaâ, alerta.
Desde 1988, o Projeto de Monitoramento do Desflorestamento na Amazônia Legal (Prodes) produz as taxas anuais de desmatamento, por meio de análises de imagens de satélites. Desde 2004, quando foram desmatados 27.772 quilômetros quadrados, a maior taxa do século, o governo brasileiro enfrentou grandes pressões nacionais e internacionais. Foi quando se lançou o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia legal (PPCDAm) e, em 2005, se criou o Grupo Permanente de Trabalho Interministerial (GPTI) para definir ações estratégicas para a região. Até 2012, quando se atingiu o menor nÃvel histórico, com 4.571 quilômetros quadrados desmatados, foram alcançados avanços gradativos.
A partir de 2012, as estatÃsticas passaram a oscilar, até que mais de 7 mil quilômetros quadrados foram desmatados em 2016, um marco preocupante. Desde 2018, tem se confirmado uma tendência de alta, agravada a partir de 2019, superando 10 mil quilômetros quadrados de vegetação nativa desmatada. Já em 2021, foram derrubados mais de 13 mil quilômetros quadrados de floresta (recorde nesta década).
Modelo de desenvolvimento equivocado favorece a expansão do crime organizado
Para Suely Araújo, especialista sênior em PolÃticas Públicas do Observatório do Clima, o governo do presidente Jair Bolsonaro âtrouxe de volta uma visão desenvolvimentista equivocada de 50 anos que só levará ao aumento da pobreza, da degradação ambiental e do caos social na Amazôniaâ.
Diante de inúmeras fragilidades institucionais, a ex-presidente do Ibama ressalta que a região está tomada por quadrilhas que se retroalimentam do garimpo ilegal, do tráfico de drogas, do roubo de madeira e de outras atividades ilegais. âà uma mistura de ilÃcitos. O quadro é assustadorâ, opina. Esse cenário é ilustrado por estudos como âCartografias das Violências na Região Amazônicaâ, repercutido pelo #Colabora em 2021, ao ser lançado.
A especialista considera que a troca de governo precisará retomar ações governamentais bem sucedidas e abandonadas no atual cenário polÃtico-institucional como o PPCDAm. Mas pondera que esse instrumento de polÃtica pública precisará incorporar um componente de enfrentamento do crime organizado, já que em 2004, quando foi lançado, o quadro de violência não se comparava ao atual cenário na região. âO próximo governo vai ter que mostrar força com megaoperações para a desocupação de territórios tradicionais como a Terra IndÃgena Yanomami, invadida por mais de 20 mil garimpeiros. Esse será um grande desafioâ, analisa.
A gente está tentando segurar esses problemas que os não indÃgenas estão gerando e a biodiversidade está sofrendo também. A Mãe Terra está sofrendo com a violação da natureza e os crimes ambientais. Esse é o resultado da colonização que está matando a Amazônia
Ao comentar sobre a militarização das instituições governamentais e a proposição de iniciativas como o âProjeto de Nação: o Brasil em 2035â, lançado em maio pelo Instituto General Villas Boas, com a presença do vice-presidente da República, Hamilton Mourão, Suely destaca a importância de os militares se concentrarem nas ações de defesa, suas principais competências. Em contrapartida, reitera, âdevem deixar que as áreas que têm conhecimento cientÃfico sobre a Amazônia possam atuar em benefÃcio do desenvolvimento sustentável da regiãoâ.
Enquanto o Projeto de Nação dos militares prevê inclusive a flexibilização da legislação ambiental para favorecer o avanço de obras de infraestrutura e a expansão da produção de commodities, na Amazônia, as 73 organizações da sociedade que integram o Observatório do Clima lançaram, também em maio, o primeiro volume da estratégia Brasil 2045 â Construindo uma potência ambiental. O documento apresenta 74 medidas e 62 ações emergenciais para que o próximo governo possa reconstruir as capacidades estatais com foco em agendas centrais como clima, biodiversidade, dentre outros temas que devem ser tratados como prioritários.
O segundo volume do documento Brasil 2045, será entregue após as próximas eleições, para a equipe do governo vencedor do pleito. Como parte das recomendações deverão ser listados os decretos, as instruções normativas e as portarias que precisarão ser revogados pelo sucessor do presidente Jair Bolsonaro.
Oito áreas prioritárias para a reconstrução da agenda ambiental brasileira
- PolÃtica climática e acordos internacionais;
- Prevenção e controle do desmatamento;
- Bioeconomia e atividades agrossilvopastoris;
- Justiça climática;
- Energia;
- Biodiversidade e áreas costeiras;
- Indústria e gestão urbana;
- Governança e financiamento da polÃtica ambiental nacional.
âSem os povos indÃgenas, a Amazônia já estaria morta há muito tempoâ, afirma Dário Kopenawa
Para Dário Kopenawa, vice-presidente da Hutukara Associação Yanomami, filho mais velho do xamã e lÃder indÃgena reconhecido mundialmente, Davi Kopenawa, é impossÃvel pensar no presente e no futuro da Amazônia sem resgatar o passado de colonização europeia no Brasil. Em 522 anos de luta e resistência dos povos originários do paÃs, ele destaca que a região se tornou uma das principais provedoras nacionais de commodities agropecuárias e minerais para o mundo e o seu futuro dependerá de mudanças nesse modelo predatório de desenvolvimento econômico.
âPensando sobre passado e presente, podemos dizer que sem os povos indÃgenas a Amazônia já estaria morta há muito tempo. Estamos dentro da floresta. Por isso ela ainda está viva. Nós lutamos pela sua proteção. Sem os indÃgenas a Amazônia já estaria toda queimada e derrubada pelos fazendeiros e madeireiros. Mas os povos originários estão lá e a Amazônia resisteâ, afirma o lÃder Yanomami.
Além do preconceito e da incompreensão, segundo Dário, os povos originários da Amazônia enfrentam hoje muitas ameaças decorrentes do processo de exploração dos territórios indÃgenas. âA gente está tentando segurar esses problemas que os não indÃgenas estão gerando e a biodiversidade está sofrendo também. A Mãe Terra está sofrendo com a violação da natureza e os crimes ambientais. Esse é o resultado da colonização que está matando a Amazôniaâ, reitera.
Sobre o futuro, Dário não tem dúvidas. âA sociedade brasileira tem que respeitar a legislação ambiental e a Constituição. Tem que parar de desmatar e queimar a floresta. Tem que haver um consenso entre as comunidades indÃgenas e não indÃgenas para cuidar da Amazônia. Precisamos nos unir e entrar em consensoâ, defende. Sem isso, ele não enxerga a possibilidade de provisão de serviços ambientais prestados pela floresta como água limpa, ar puro, equilÃbrio climático e proteção da biodiversidade entre tantos outros bens comuns. Os efeitos da crise climáticas na região, segundo ele, são perceptÃveis. âOu chove muito ou chove poucoâ, observa ao destacar que incêndios e desmatamento estão contribuindo para agravar o cenário.
Retirada de garimpeiros invasores da Terra Yanomami é crucial
Ao completar recentemente 30 anos de demarcação com grande celebração por essa conquista histórica, o garimpo ilegal representa o principal problema enfrentado na Terra Yanomami. O lÃder indÃgena explica que junto com esse movimento que reúne mais de 20 mil garimpeiros vieram ameaças de morte, desmatamento e contaminação dos rios por mercúrio. Os impactos são graves na saúde da população, sobretudo de crianças e idosos, e se somam a outros fatores preocupantes como alcoolismo, prostituição, abuso sexual e uso de drogas.
De acordo com o relatório Yanomami sob ataque: Garimpo ilegal na Terra IndÃgena Yanomami e propostas para combatê-lo, lançado em abril, o garimpo ilegal na Terra Yanomami cresceu 3.350% de 2016 a 2020. Nesse contexto de conturbações, âcresceu todo tipo de conflitos e violação de direitos do povo Yanomami e o aumento de doenças como malária, diarreia, tuberculose, câncer e desnutriçãoâ, denuncia o lÃder indÃgena.
Segundo o relatório, 273 comunidades Yanomami estão afetadas pelo garimpo ilegal, envolvendo 16.000 pessoas, 56% da população total. A maior Terra IndÃgena do Brasil (tem 96.650 quilômetros quadrados) conta com 350 comunidades, com uma população de aproximadamente 29 mil pessoas, distribuÃda entre os estados do Amazonas e de Roraima.
Dário destaca que todas as autoridades já foram acionadas, dentre as quais, o Ministério da Justiça, a Funai e o Ministério Público Federal. Ele recorda que o Supremo Tribunal Federal já acionou o governo federal para promover a retirada dos invasores do território, mas até agora isso não aconteceu, com exceção de algumas intervenções pontuais, insuficientes para resolver o problema. âEnquanto não acontecer uma grande operação para a desintrusão, o garimpo ilegal não vai acabar.â
Por conta da própria mobilização da organização indÃgena e de um trabalho em redes de parcerias, têm sido realizados sobrevoos na Terra Yanomami para monitoramento do processo de ocupação ilegal dos garimpeiros, com mapeamento da extensão dos territórios invadidos e documentação por meio de fotos e produção de relatórios. âFazemos isso para mostrar ao governo e à sociedade o que está acontecendo. Infelizmente, muita gente está apoiando os garimpeiros e isso é grave porque o garimpo só traz impactos negativos para a floresta e para os povos indÃgenas. Nós somos contra essa atividade que também é proibida pela legislação brasileira.â
