Mais isolado do que nunca, o Brasil chegará a Conferência do Clima, a COP26, tão ou mais desacreditado do que em 2019, quando ocorreu, em Madri, a COP25. Faltando pouco menos de dois meses para o encontro da ONU em Glasgow, na Escócia, Jair Bolsonaro segue sendo visto como o maior negacionista climático do mundo. O presidente já vem sendo considerado internacionalmente um perigo, dado o peso do paÃs no combate à s mudanças climáticas. Na série âA caminho de Glasgowâ, o #Colabora antecipa bastidores das negociações e o ânimo dos tomadores de decisão no tabuleiro climático global.
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Está claro, por exemplo, que depois de os Estados Unidos terem se livrado de Donald Trump, o âgoverno de John Biden recolocou o paÃs no jogo e seu governo tem adotado posturas proativas, além de posicionar a questão climática na centralidade do seu discursoâ. A análise de Stela Herschmann, especialista em polÃticas climáticas do Observatório do Clima, indica que, com a saÃda de Trump, o isolamento de Bolsonaro cresce a olhos vistos, à medida que se aproxima a COP26.
[g1_quote author_name=”Stela Herschamnn” author_description=”especialista em polÃticas climáticas do Observatório do Clima” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]O Brasil é, em termos polÃticos, o maior risco para o mundo porque pode prejudicar os esforços globais no combate à s mudanças climáticas
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Veja o que já enviamosâO Brasil é, em termos polÃticos, o maior risco para o mundo porque pode prejudicar os esforços globais no combate à s mudanças climáticasâ, avalia Stela, citando que nada mudou na polÃtica ambiental, apesar da dança das cadeiras no Ministério do Meio Ambiente (MMA) com a saÃda de Ricardo Salles e a entrada de Joaquim Leite. âTem ficado claro nas audiências públicas no Senado, por exemplo, que tanto o MMA quanto o Ministério da Agricultura estão preocupados com a imagem do Brasil lá foraâ.
A preocupação, no entanto, não vem se traduzindo num redirecionamento da polÃtica ambiental. Nem mesmo discursos bem construÃdos têm conseguido convencer os tomadores de decisão mundo afora. A cúpula de lÃderes sobre o clima, convocada por Biden, em abril, foi um divisor de água. Na ocasião, Bolsonaro prometeu, no seu discurso, âfortalecerâ os órgãos ambientais e âduplicarâ os recursos para a fiscalização. No dia seguinte, último dia do encontro, o governo anunciou um corte de 24% no orçamento do meio ambiente para 2021.
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A distância entre a prática e o discurso tem tirado a credibilidade do paÃs e o “Brasil chegará a COP26 desacreditadoâ. Em reuniões com o MMA, Stela tem ouvido, por exemplo, que o Brasil não pretende ser um entrave nas discussões sobre o artigo 6, como ocorreu em Madri. âTemos ouvido que o governo chegará com uma postura proativaâ, conta ela, admitindo, no entanto, que não está claro se o paÃs vai, realmente, mudar de posição em relação ao tema.
O histórico do governo é preocupante. Desde que Bolsonaro assumiu, o desmatamento vem girando em torno dos 10 mil km2, o que significa um âaumento de 46% em relação à média dos anos anterioresâ. Em dezembro do ano passado, ao anunciar a NDC brasileira, sigla em inglês para Contribuição Nacionalmente Determinada que envolve compromissos voluntários criados pelos paÃses signatários do Acordo de Paris, a meta do paÃs piorou, indo de encontro ao que vem ocorrendo mundo afora. âO que o paÃs fez foi uma pedalada climáticaâ, avalia Stela.
Mesmo se comprometendo com as metas anunciadas em 2015, ao mudar a base de cálculo relativa ao ano de 2005 â o que é um procedimento normal, desde que as metas também sejam atualizada â o governo retrocedeu, o que significa que âpodemos chegar em 2030 emitindo 400 milhões de toneladas a mais do que havia sido previsto anteriormenteâ.
Em 2005, o paÃs havia emitido 2,1 giga toneladas de CO2 e se comprometido, ao assinar o Acordo de Paris, a reduzir as emissões em 37% até 2025 e em 43% em 2030. Ao refazer o cálculo, o volume de emissões passou a ser de 2,8 giga toneladas de CO2.
Os paÃses, analisa Stela, estão olhando o paÃs com preocupação e a maior probabilidade é que não venham a fazer nenhum tipo de acordo com o Brasil, enquanto resultados não sejam efetivos. Tudo indica que, no tabuleiro climático global, a tática adotada com o antecessor de Biden venha a se repetir com Bolsonaro: “à esperar passar, como fizeram com os Estados Unidos durante o governo Trump”, conclui Stela.
