Nas aulas de Geografia e Ciências, as crianças aprendem que o Centro-Oeste é formado por três estados (Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul) e pelo Distrito Federal. Aprendem que a maior parte desta região do Brasil tem o Cerrado como bioma, uma savana tropical com verões quentes e chuvosos e invernos secos. Na escola da vida, as famÃlias que moram no Centro-Oeste aprendem que nos últimos anos a savana mudou em resposta à s mudanças climáticas. A temperatura aumentou, a umidade do ar diminuiu, os padrões de chuva estão muito alterados. Os livros escolares ainda não informam que o Cerrado foi o bioma com a maior área queimada em agosto de 2024, equivalente a 43% de tudo que pegou fogo no Brasil no perÃodo (dados do Monitor do Fogo, do MapBiomas). Mas os alunos e pais que vivem na região sentiram no corpo os efeitos, quase a sensação de viver em um deserto. Assim como ocorre no Sudeste, a fumaça traz problemas respiratórios, especialmente aos grupos de saúde mais vulnerável, e prejudica a produção agrÃcola, gerando perdas econômicas e insegurança alimentar a quem depende de recursos naturais para viver.
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A escola ensina ainda como funciona, em teoria, o equilÃbrio ambiental; na prática, basta olhar para locais como o Pantanal. De forma direta, as comunidades enfrentam dificuldades para manter sua subsistência com tanto fogo, desmatamento e redução da água. De forma indireta, todo o paÃs e o continente sul-americano sentem os impactos, pois a chamada âcaixa dâágua do Brasilâ, agora em risco, compromete a segurança hÃdrica, energética, alimentar e a biodiversidade nacional.
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Veja o que já enviamosNo quilombo pantaneiro, a luta para garantir preservação e subsistência
Olhando de fora, podia ser uma tarde de domingo qualquer. Jesuelly Eloiza Vieira Ozorio, de 9 anos, tomava banho de balde com outras crianças onde vive, no Quilombo Ribeirinha FamÃlia Osório, localizado em Corumbá, Mato Grosso do Sul. O que a cena não capta é que a brincadeira servia principalmente para amenizar o calor. Assim como em outros dias, aquele último final de semana de setembro estava absurdamente quente e seco, reflexo das queimadas no Pantanal.
Em outros tempos, Jesuelly e os amigos correriam para lá e para cá; afinal, qual criança não gosta de correr? Agora é preciso poupar o fôlego. âA gente corre um pouquinho e já fica cansadoâ, conta a menina. Dois dias antes, as aulas da escola da região haviam sido suspensas por conta da fumaceira. Alunos passaram mal, o cheiro é forte dentro e fora das salas de aula, tanto faz se a porta fica aberta ou fechada, se é para usar máscara ou não. Está em todo o lugar.
Sejamos didáticos: a menina sente os impactos do clima na saúde, na educação, no lazer. E sua famÃlia também perde o direito de produzir o sustento em seu próprio território. FamÃlia de tradição agrÃcola e pesqueira, os Ozório vivem um 2024 de estiagem histórica no Pantanal, com queda direta na fonte de renda. AuxÃlios externos ou governamentais pouco chegam até ali. Não bastasse a luta histórica pelo direito à terra, como tantos outros quilombos, ainda há a batalha pela subsistência.
O Pantanal está ficando muito queimado e não tem como os bichinhos ficarem lá, então é por isso que eles vêm para cá
A mãe de Jesuelly, Ãrica Vieira Castelo, e o tio da menina, Jorge Rodrigues da Silva, narram os desafios diários e recentes. Já não é mais possÃvel pescar. Pela seca do Rio Paraguai, à margem na comunidade, há escassez de peixes neste perÃodo. âEm 49 anos de vida, nunca vi nada parecido com issoâ, relata Jorge. A alternativa seria ir de barco a locais mais distantes, porém não compensa o valor do combustÃvel se voltarem com pouco peixe. Plantar se tornou a principal ocupação e com dificuldades: além da falta de água para irrigar, a fauna local está desorientada devido aos incêndios.
âA gente já está produzindo em menor quantidade do que antes: bananas, mamão, mandioca, abóbora-cabotiá. E este pouco, ainda por cima, os bichos vêm e comemâ, explica Ãrica. Quais bichos? Animais da mata, que fogem dos incêndios e buscam alimentos, seja na horta dos Ozório, das famÃlias ao redor ou até em áreas urbanas, como em Ladário, cidade que faz limite com Corumbá.
Circulam vÃdeos de queixadas (porcos-do-mato) andando em bandos nas ruas e supermercados. No quilombo, já avistaram rastros de onça. Capivaras comem melancias inteiras da plantação. Passarinhos perdidos escolhem as alfaces, hortaliça preferida, justamente a verdura que os Ozório mais vendiam em feiras ou forneciam para escolas. Ainda se salvam rúcula, cebolinha e salsa, e, também, rabanete e beterraba.
Ouvindo a conversa dos adultos sobre os animais, Jesuelly se divide entre sentir medo (por saber que andam soltos por aÃ, como a cobra sucuri encontrada um dia antes no galinheiro) e pena. âO Pantanal está ficando muito queimado e não tem como os bichinhos ficarem lá, então é por isso que eles vêm para cáâ.
Consciente das histórias de seus ancestrais no território, com respeito pela natureza e a tradição passada de geração em geração no quilombo, a menina tem um recado do que espera que mude daqui para frente: âQuero que as pessoas parem de tacar fogo no Pantanal, de queimar as árvores que são a nossa fonte de ar. Estão prejudicando a nossa maneira de viverâ.
Fumaça interrompe rotina escolar em BrasÃlia
Da esquina de casa, a menina Isabella e o pai, Herbert Herik, avistavam parte das queimadas da gigante Floresta Nacional de BrasÃlia (Flona) no inÃcio de setembro. à a maior unidade de conservação do Distrito Federal, que já teve quase metade da área total consumida pelo fogo, segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Não bastasse uma perda ambiental destas proporções, imagine a fumaça nos ares da cidade. Somado ao cenário desolador, foram 157 dias sem chuva em BrasÃlia (até 28 de setembro), além do calor sem precedentes. A combinação de fatores leva diversos estudantes de muitas escolas a passar mal e desmaiar, um dia após o outro. Sim, o verbo está conjugado no presente, pois é uma situação longe de ser encerrada.
Situada em Taguatinga, região administrativa do Distrito Federal, a poucos metros da Flona, a CEF 17 tem 872 alunos matriculados no Ensino Fundamental 2, do sexto ao nono ano. Diariamente algum caso de saúde relacionado ao calor ou à fumaça chega ao conhecimento da diretora, Andréia Ferreira. São casos de mal-estar, sangramento nasal e desmaios ou ainda vômitos e calafrios. Um aluno chegou a ter convulsões. O telefone dos pais toca, com pedidos para buscarem os filhos antes do turno acabar.
âNunca vi nada parecido em 12 anos na direçãoâ, comenta Andréia. âPercebemos os impactos diretamente na vida de todos, desde os professores que precisam passar o conteúdo e, também, sofrem com a situação até os alunos que não conseguem se concentrar. Ficam agitados, impacientes, com baixa energiaâ, lamenta a diretora.
Importante registrar que as salas de aula da CEF 17 têm ar-condicionado, conforto raro nas escolas públicas. Para tentar amenizar os desconfortos, a cada troca de intervalo os professores incentivam os alunos a beberem água. Em outras escolas do DF, a orientação é promover banhos de mangueira no recreio, para aliviar o calor de forma lúdica com as crianças menores.
Percebemos os impactos diretamente na vida de todos, os alunos que não conseguem se concentrar. Ficam agitados, impacientes, com baixa energia
Cedinho, pela manhã, na caminhada de cinco minutos para a escola, Isabella já confere a temperatura, que na imensa maioria dos dias de setembro não baixava de 36 graus. Aos 14 anos, a estudante do 9º ano já perdeu aulas por causa do calor e da fumaça. Sentiu fraqueza, enjoos, dor de cabeça e febre. Nestes dias, voltou para casa antes do meio-dia e passou horas só descansando, com o climatizador de ar ligado sempre, até se recuperar.
Mesmo com sintomas, levar ao posto de saúde para consulta seria outra odisseia. As emergências estão lotadas, como o pai viu no noticiário, por conta do aumento do número de casos precisando de atendimento e também da greve dos médicos da rede pública de saúde do Distrito Federal, recém-encerrada (27 de setembro, sexta-feira).
âPara ser atendido só com a pulseirinha vermelha, um caosâ, explica Herbert, 46 anos, professor de educação fÃsica, que também vê impactos em seu próprio trabalho. Uma de suas atividades é dar aulas de tai chi chuan, arte milenar chinesa de meditação e movimento, ao ar livre, já que a natureza proporciona um cenário mais relaxante. Devido ao clima, é impossÃvel marcar qualquer turma antes das 18h, horário ainda abafado, mas não tão insuportável.
Entre os indispostos com o calor estão os mascotes da famÃlia, o gatinho Flock e os cães Romeu e Julieta. A tutora Isabella faz o que pode para colaborar, colocando gelo nos potinhos de água, molhando o chão para refrescar as patinhas e deixando o trio na frente do ventilador. Informa-se pelas notÃcias trazidas pelo pai, que acredita que tudo isso vai longe: âDizem que é só uma âonda de calorâ, mas creio que irá piorar. Pois as ações globais realizadas são mÃnimas para reverter esse quadroâ.
*A série especial ‘As crianças e a crise climática’ foi uma das vencedoras da Bolsa #Colabora de Reportagem â 8 anos
