Vozes da Floresta oferece bolsas-reportagens e mentorias para jovens comunicadores indÃgenas. Em 2021, quatro selecionados produziram reportagens abordando as discussões da COP26 e como elas impactam seus povos e territórios. O projeto tem apoio do British Council e parceria com o #Colabora e ((o))eco.
A Terra IndÃgena Mangueirinha, no sudoeste do Paraná, abriga 789 famÃlias, entre indÃgenas das etnias Kaingang e Guarani, que vivem ali há séculos, cercados pela maior reserva de araucárias do mundo. Preservar o inestimável patrimônio ambiental tem sido batalha tão dura como longeva â em 1947, a árvore representou perto de 80% da madeira exportada pelo Brasil. Hoje, no território indÃgena de 17.240 hectares, está uma das principais florestas da espécie, tÃpica do Sul e do Sudeste.
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O Brasil deve a sobrevivência das araucárias naquele trecho da baÃa do Rio Iguaçu à s tenazes mulheres que vivem por lá. A conservação está diretamente ligada à luta dos Kaingang e dos Guarani Mbyá pelo direito à terra tradicional, garantido desde o inÃcio do século passado. Em 1903, por terem ajudado a construir estrada na região, os indÃgenas, receberam a escritura de toda a área, do governo estadual.
A partir da década de 1970, empresas exploradoras de madeira reivindicaram direitos sobre pedaços do território, estabelecendo litÃgio que se arrastou até 2005. Após uma década de estudos antropológicos e arqueológicos que comprovaram a ocupação original, a Justiça deu ganho de causa aos indÃgenas, formalizando a posse do território. Atualmente, a TI Mangueirinha é formada por seis aldeias: Passo Liso, Mato Branco, Paiol Queimado, Ãgua Santa, Palmeirinha do Iguaçu e Aldeia Sede, onde estão as principais edificações, como escola, posto de saúde e posto da Funai.
Mas a luta parece que jamais encontrará um fim.
A floresta de araucárias é conhecida pelos indÃgenas como âmata pretaâ ou âpinhal pretoâ, integrando mosaico de vegetação com predominância da bracatinga, denominada âmata brancaâ. Com o passar dos anos e as mudanças de paradigmas referentes ao meio ambiente, a prática de abrir novas áreas para lavoura foi se tornando cada vez mais frequente entre os indÃgenas de Mangueirinha, consolidando a agricultura como uma das principais atividades econômicas. As lavouras ocupam hoje 14% do território.
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Veja o que já enviamosA Associação dos Produtores IndÃgenas de Mangueirinha (Aproinma) organiza e apoia a produção com agricultura mecanizada em áreas coletivas e individuais. Cerca de 104 hectares de lavoura comunitária (soja, principalmente) são cultivados exclusivamente para gerar renda, realizar a manutenção do maquinário e manter a associação. Para famÃlias que plantam menos de 6,6 hectares, o apoio prestado pela Aproinma é gratuito. A entidade ainda administra os recursos advindos do ICMS Ecológico, repassados pelas prefeituras de Mangueirinha, Coronel Vivida e Chopinzinho, destinados à s áreas que possuem reservas florestais de conservação no Paraná.
O dilema entre manter a floresta em pé e ampliar a área da lavoura espreita as comunidades, gerando conflitos que separam até famÃlias nas aldeias. Hoje, a floresta de araucárias está reduzida a 3% de sua área original e menos de 1% pode ser considerada floresta primária. A devastação é resultado tanto do corte das árvores para fins madeireiros como para a abertura de áreas agrÃcolas, geralmente associadas a solos mais férteis, como a âterra roxaâ do Paraná.
Fica com as mulheres a missão de salvar a floresta, protegendo o meio ambiente, para manter viva a TI Mangueirinha. Uma das guardiãs é a Kaingang Jociele Luiz, 29 anos, que estuda pedagogia e dá aulas na comunidade. Mãe de dois filhos, ela atua em causas indÃgenas desde a adolescência. âMuitas lutas são herdadas e a preservação é mais uma, não apenas obrigação de todo indÃgena, que nasce sabendo a importância da terra preservadaâ, aponta ela. âMuitas pessoas não veem que o compromisso com a preservação diz respeito a tudo que envolve a proteção da nossa biodiversidade. Tem a ver com a preservação da vida humana na Terraâ.
A indÃgena observa os biomas se esvaindo de modo gradual mas constante â e se espanta quando chamam de desenvolvimento. âNão acredito que isso seja desenvolver, mas destruir. O que aprendi com minha mãe foi proteger os meus e o meu povo enquanto a maior parte da população não indÃgena pensa no agora, e os que pensam no futuro só se preocupam em deixar uma boa situação econômica para seus filhosâ, analisa. âMas aà pergunto: o que vale o dinheiro se você não vai poder comprar o ar e a água para o seu filho amanhã?â
O porvir motiva também o engajamento de outra Kaingang, Derci Alves. Ela ensina aos filhos a importância de viver em comunidade, para fortalecer a luta contra os preconceitos que espreitam os povos indÃgenas. âNossa ancestralidade é maior, e nosso orgulho indÃgena precisa prevalecerâ, convoca, garantindo sequer se lembrar quando começou a luta pelas araucárias. âIsso vem conosco, essa conexão com tudo que está na natureza, só lembro que quando ouvÃamos o chamado, agasalhávamos os filhos e Ãamos, para protestar fechando a BRâ.
Para Derci, a vida não faz sentido sem a proteção do território exatamente como é. âLutamos contra muitos crimes, o genocÃdio, a fome entre outras pragas que estão aà para dizimar os povos indÃgenasâ, lamenta, contando que a luta exige enfrentar as novas formas de destruição do solo sagrado. âMas o bom é que muda dos dois lados â hoje temos muitas formas de denunciar o que afeta nossa comunidade”.
Jociele confirma. âHoje a gente tem mais autonomia de sair dos nossos territórios para falar das nossas pautas; temos contatos com outros povos e discutimos formas de nos protegerâ, lista. âAcima de tudo, podemos espalhar a semente da proteção do meio ambiente. Não estou falando só da minha aldeia, mas do planetaâ.
Nascida e criada na Mangueirinha, Carla Carneiro, também professora, se define como indÃgena em ascendência graças à educação. Mãe de uma filha, enxerga no ensino a ponte para transmitir a cultura e o respeito pelo sagrado por tudo que rodeia os povos tradicionais. âO ar, a água, as plantas, o alimento que cultivamos fazem parte de uma grande rede. O ar se conecta com as árvores que se conectam com o solo, que se conecta com a água, que se conecta com os seres vivosâ, argumenta a indÃgena. âSe um dia uma dessas conexões acabar, toda a rede se perde, o que significará a extinção. Daà a importância da proteção de nossa floresta nativa. Parar de destruir o meio ambiente não basta! Temos de reflorestar, pois a partir do momento em que você planta uma árvore, está plantando água, ar â vidaâ.
A professora se divide em relação à s polÃticas de preservação. Reconhece o potencial da teoria que está no papel, mas é cética sobre a transposição para vida real. âO impedimento para a proteção concreta está nos que deveriam aplicar as leis. Aquelas falas todas cultas adiantam pouco sem ações práticasâ, critica. âMuitas polÃticas ajudam e muito os povos indÃgenas, mas precisa haver ajuda mais efetiva, mostrando, por exemplo que o desmatamento dá lucro, mas a preservação rende muito mais. Isso é pouco falado, não está nos meios de comunicaçãoâ, atesta.
Carla ainda lamenta o desequilÃbrio na atenção à s populações ameaçadas, muito concentrada na Amazônia. âAlgumas polÃticas públicas deveriam englobar mais territórios e regiões. Não é só a Amazônia que tem povos indÃgenasâ, sublinha. âAqui no sul mesmo tem vários parentes que lutam quase solitários na preservação de nosso bioma para o futuroâ.
Para outra guardiã, a dona de casa Roseli Carneiro Cipriano, o amanhã com a floresta em pé exige mais comprometimento dos governantes. âEles não podem esquecer que sem os indÃgenas protegendo o meio ambiente, não vai sobrar nadaâ, sustenta ela, 58 anos. âNão luto por mim, mas por meus filhos e netos, por meu povo e também pelos homens brancos. A preservação não vai beneficiar apenas a nósâ. Com tristeza, ela aponta que a preocupação está cada vez mais restrita aos povos da própria floresta. âInfelizmente só um povo luta pela vida de todos os povos. Uma pena, gostaria muito que os não indÃgenas tivessem a visão de que a terra não é apenas lucro, mas riqueza tambémâ, ensina. âEla nos dá vida. Quer algo mais valioso do que viver e não apenas tentar sobreviver?â
