Espécies do Cerrado e da Amazônia perderam até 65% de seu habitat

Tatu-bola (Tolypeutes tricinctus) no Parque Nacional das Emas, em Goiás: em cinco anos, animal símbolo da Copa do Mundo de 2014, viu aumentar em 9% a cultura de soja dentro dos limites da sua distribuição, no Matopiba (Foto: Adriano Gambarini / WWF Brasil)

Estudo da WWF Brasil mostra que avanço da agropecuária vem reduzindo biodiversidade nos dois biomas

Por Oscar Valporto | ODS 14ODS 15 • Publicada em 3 de março de 2022 - 12:04 • Atualizada em 8 de março de 2022 - 09:47

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Tatu-bola (Tolypeutes tricinctus) no Parque Nacional das Emas, em Goiás: em cinco anos, animal símbolo da Copa do Mundo de 2014, viu aumentar em 9% a cultura de soja dentro dos limites da sua distribuição, no Matopiba (Foto: Adriano Gambarini / WWF Brasil)

O aumento do desmatamento e da conversão de matas nativas, especialmente para a produção de soja e para a pecuária, vem provocando a redução do habitat da maioria das espécies da Amazônia e do Cerrado. Estudo, realizado pelo WWF-Brasil, avaliou 486 espécies (183 aves, 101 anfíbios, 118 mamíferos e 84 lagartos e serpentes): algumas perderam mais da metade da área original de distribuição. “O Cerrado e a Amazônia são dois dos epicentros da crise de perda de biodiversidade que engloba também outros biomas da América do Sul. Esta é uma infeliz similaridade destes dois biomas brasileiros, tão diferentes biologicamente”, aponta o estudo. A maior parte das espécies perdeu entre 25% e 65% da área original de distribuição.

Leu essa? O Cerrado em (muito) perigo

A situação é mais grave no Cerrado, onde estão algumas espécies com o habitat mais ameaçado. O lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) – animal escolhido para a nota de R$ 200 – teve mais da metade de seu habitat perdido; o tatu-bola (Tolypeutes tricinctus), escolhido pela Fifa como mascote oficial da Copa do Mundo de 2014, viu aumentar em 9% a área das lavouras de soja dentro dos limites da sua distribuição, na região do Matopiba, no Cerrado. Outras espécies conhecidas, como o gato-do-mato-pequeno (Leopardus guttulus) e o macaco-prego-de-papo-amarelo (Sapajus cay), perderam quase 80% de sua área.

Além de já ter perdido mais da metade da sua cobertura original, o que restou no Cerrado encontra-se bastante fragmentado e, em muitos casos, degradado pela ação intensa do homem

Mariana Napolitano
Gerente de Ciências da WWF Brasil

Do total de espécies analisadas, 136 são endêmicas, com mais de 95% da área de distribuição restrita aos dois biomas. Entre as espécies endêmicas, foram registradas perdas médias de 17% para a Amazônia e 35% para o Cerrado. O estudo destaca a situação de algumas dessas espécies que só ocorrem neste ponto do planeta, como o ave macuquinho-de-brasilia (Scytalopus novacapitalis), assim batizado devido a ocorrência restrita às proximidades da capital. O macuquinho, espécie identifica após a construção de Brasília, “já teve mais de 56% da área de ocorrência original perdida sendo um testemunho do impacto da rápida e mal planejada conversão das áreas nativas da região”, alerta o estudo do WWF.

O estudo foi realizado em parceria com a consultoria Gondwana, sob coordenação do pesquisador Cristiano de Campos Nogueira. De acordo com a WWF Brasil, o objetivo é apresentar as consequências da perda de vegetação nativa para a biodiversidade do Cerrado e da Amazônia brasileira, além de evidências para propostas de políticas públicas e de ações de conservação das espécies nos dois biomas. Para calcular o impacto da perda de habitat sobre a biodiversidade, os pesquisadores cruzaram mapas da distribuição de cada uma das espécies (disponíveis no site da IUCN) e os dados do MapBiomas para o uso do solo no Cerrado e na Amazônia.

O bioma Cerrado é a savana com maior biodiversidade do planeta, mas também um dos mais ameaçados. De acordo com o estudo, apenas nos últimos dez anos, o Cerrado perdeu 6 milhões de hectares de vegetação nativa – pouco mais da metade desta perda (3,2 milhões de hectares) foi detectada na região do Matopiba, que inclui partes dos estados de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. “Além de já ter perdido mais da metade da sua cobertura original, o que restou no Cerrado encontra-se bastante fragmentado e, em muitos casos, degradado pela ação intensa do homem, criação de gado, fogo recorrente, invasão de espécies exóticas, dentre outros”, afirmou Mariana Napolitano, gerente de Ciências do WWF-Brasil, na apresentação do estudo.

Das 486 espécies avaliadas no estudo, 484 tiveram seu habitat impactado. As mais afetadas com a perda de área foram o patomergulhão (Mergus octosetaceus), com 68%; galito (Alectrurus tricolor), 70%; tiriba-do-Paranã (Pyrrhura pfrimeri), 70%; lagarto-de-rabo-vermelho (Vanzosaura rubricauda), 72% e e o cervo (Blastocerus dichotomus), 56%. Os pesquisadores frisam que as áreas de ocorrência das espécies se sobrepõem – o desmatamento de apenas um local afeta várias espécies de uma vez só.

Lobo-guará no Cerrado: Imagem da nota de R$ 200, animal está ameaçado de extinção com acelerada perda de habitat (Foto: Bento Viana / WWF Brasil)
Lobo-guará no Cerrado: Imagem da nota de R$ 200, animal está ameaçado de extinção com acelerada perda de habitat (Foto: Bento Viana / WWF Brasil)

Ameaças nos dois biomas

O estudo aponta que, no Cerrado, a maior parte das espécies perdeu entre 30 e 70% de sua área de distribuição enquanto, na Amazônia, o maior número de espécies perdeu até 20% de sua área de distribuição original. “Estas diferenças se explicam pelo fato do impacto na Amazônia ainda estar concentrado na borda sul e sudoeste e restrito a 17% do bioma enquanto a conversão do Cerrado abrange todas as porções do bioma”, afirmam os pesquisadores.

A situação pode ser duplamente ruim para as espécies afetadas por perdas nos dois biomas. “Para a ave chororóde-goiás (Cercomacra ferdinandi), endêmica das áreas úmidas da bacia Araguaia-Tocantins, contar com uma área de ocorrência de 107,5 mil km2 no Cerrado e de 49,7 mil km2 na Amazônia, não foi suficiente para afastá-la do risco de extinção. A alteração dos ciclos de inundação do rio por barragens e a substituição da vegetação nativa por pasto fizeram desaparecer 74% da área de ocorrência na Amazônia e 35% no Cerrado”, exemplifica o estudo.

O documento do WWF aponta ainda que o impacto generalizado sobre as espécies deve servir de alerta. “Quando várias espécies perdem a maior parte das áreas de ocorrência, significa que partes importantes dos ecossistemas estão desaparecendo”. O estudo também destaca a importância da biodiversidade. “Um alto grau de diversidade entre espécies, variedades, raças, populações e ecossistemas pode ajudar a criar e manter solos saudáveis, polinizar plantas, purificar a água, fornecer proteção contra eventos climáticos extremos ou qualquer outro serviço vital”.

Em sua conclusão, o documento frisa que, para frear o ritmo de perda de espécies é necessário eliminar imediatamente o desmatamento e a
degradação da vegetação nativa causados pela produção, principalmente, de carne e soja. “É essencial a mudança de mentalidade das empresas e do governo: a destruição do ecossistema é desnecessária, pois já existem áreas suficientes para a expansão do agronegócio – que inclusive, já está sendo prejudicado com quebras de safras constantes por conta da degradação ambiental”, afirmou Mariana Napolitano, gerente do WWF que participou do estudo.

Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Está de volta ao Rio após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. É criador da página no Facebook #RioéRua, onde publica crônicas sobre suas andanças pela cidade.

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