A mais alta nobreza dos povos indÃgenas brasileiros visitou a terra da rainha Elizabeth e foi recebida na universidade de Oxford, na Inglaterra, para pedir ajuda internacional no momento em que suas terras e culturas estão sob ataque da polÃtica anti-ambiental do governo Bolsonaro. Juntos, os caciques Raoni Metuktire e Megaron Txucarramãe, da etnia Caiapó, Davi Kopenawa, dos Yanomami, e a deputada federal Joênia Wapichana fizeram um dramático pedido de apoio à plateia de estudantes e professores, ao participaram do painel âAmazônia: violência crescente e tendências preocupantesâ, do Departamento de Desenvolvimento Internacional da universidade, a mais antiga do Reino Unido, com mais de 900 anos. O #Colabora acompanhou o encontro, realizado sábado, 1º de fevereiro.
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Veja o que já enviamosOs lÃderes indÃgenas levaram uma pauta de prioridades que mostra a urgência dos problemas em seus territórios, frequentemente ameaçados, toda vez que o presidente se manifesta sobre a situação dos Ãndios no Brasil. E apresentaram estratégia comum, ao pedir que os europeus pressionem seus governos para que estes tentem fazer pressão sobre Bolsonaro a fim de que: não seja liberada a mineração em terras indÃgenas; os garimpeiros invasores sejam retirados da Terra Yanomami, em Roraima; e que sejam demarcados os territórios hoje em processo de regularização. Pediram também que os consumidores europeus não comprem produtos originários de invasões de terra indÃgena, como madeira e ouro.
Segundo Davi Yanomami, estima-se que cerca de 20 mil garimpeiros invadiram a reserva indÃgena – com área um pouco maior do que Portugal – poluindo os rios e o solo com o uso de mercúrio na extração de ouro. âAjudem-nos! Não fiquem só nos ouvindoâ, apelou Davi, estimados 63 anos, xamã do seu povo, premiado internacionalmente e autor (em parceria com com o antropólogo Bruce Albert) do best-seller âA queda do céuâ. âBolsonaro diz que a Terra Yanomami é muito grande para pouco Ãndio, que queremos criar território independente. à mentira! Somos filhos da terra. à preciso mergulhar fundo e descobrir onde o coração da terra está batendo. O meio ambiente está pedindo socorro. A mineração é boa para os governos e as grandes empresas. Mas não traz benefÃcios pra nós. O garimpo está matando os rios, os peixes e os Ãndios. Escrevam para o presidente Bolsonaro”â, reforçou Davi.
[g1_quote author_name=”Davi Kopenawa” author_image=”LÃder Yanomami” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]à preciso mergulhar fundo e descobrir onde o coração da terra está batendo. O meio ambiente está pedindo socorro. A mineração é boa para os governos e as grandes empresas. Mas não traz benefÃcios pra nós. O garimpo está matando os rios, os peixes e os Ãndios. Escrevam para o presidente Bolsonaro!
[/g1_quote]Os lÃderes indÃgenas não quiseram ficar no espaço tradicional reservado aos palestrantes, em frente à plateia. Preferiram formar um cÃrculo, como fazem nas aldeias, com o público próximo a eles podendo fazer perguntas. Apesar da informalidade, a presença dos caciques criou uma aura de reverência na plateia, sobretudo pelo carisma de Raoni, estimados 90 anos, e hoje um dos maiores sÃmbolos mundiais de defesa das florestas tropicais. Apesar de ter aprendido um pouco de português nos anos 1950, quando teve contato com os irmãos Villas Boas, Raoni agora só se manifesta no idioma de sua tribo e é traduzido pelo sobrinho, Megaron Txucarramãe, estimados 69 anos.
Desta vez estava sem o cocar de penas amarelas que costuma usar e seus longos cabelos grisalhos se destacavam, além do botoque, o adorno de madeira fixado no lábio inferior, usado apenas pelos grandes guerreiros e oradores da etnia caiapó. Raoni é as duas coisas. Ainda jovem compreendeu que os Ãndios teriam de lutar para garantir o direito à s suas terras. E desde então não parou mais. Graças à sua mobilização, conseguiu a demarcação das terras dos caiapós, no Mato Grosso. Sua luta ficou mais conhecida depois que obteve o apoio do cantor Sting e com ele fez uma turnê internacional, no fim dos anos 1980, denunciando o desmatamento da Amazônia, já preocupante à quela época e que só se agravou nos últimos anos. Recebido por presidentes, reis, prÃncipes, papas e artistas, é desqualificado pelo presidente de seu próprio paÃs. Em setembro do ano passado, na ONU, Bolsonaro disse que Raoni não tinha mais o âmonopólio” da representação dos indÃgenas brasileiros.
Não foi isso que se viu em Oxford, onde cacique magnetizou a plateia e foi tratado com evidente deferência pelos demais indÃgenas presentes. âNão quero guerra, não quero conflito. Deixem o Ãndio viver em paz na floresta. Pressionem os governos de vocêsâ, apelou Raoni à audiência, com várias nacionalidades europeias presentes. âVocês são dependentes do dinheiro. Trabalham para ter dinheiro para comprar comida. Nós, não. Nós temos caça e roça. Não precisamos de dinheiro. Nós dependemos da floresta, da terra e do rioâ, ensinou o lÃder indÃgena.
O sobrinho Megaron reforçou a estratégia de pedir pressão internacional. âFaçam documentos para que os governos de vocês tomem providências. A pressão é muito importante para ajudar os povos indÃgenasâ, afirmou o cacique, lembrando também da situação dramática da etnia guarani-kaiowá, acossada pelo agronegócio no Mato Grosso do Sul. Megaron lembrou a campanha que lançou Raoni ao Prêmio Nobel da Paz no ano passado e disse que ela será relançada neste ano.
O pioneirismo de Joênia Wapichana, 46 anos, a credenciou para estar ao lado das grandes lideranças. Primeira mulher indÃgena advogada, primeira indÃgena deputada federal (pelo partido Rede Sustentabilidade) e também a única a fazer uma inédita defesa no Supremo Tribunal Federal a favor da homologação da reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima – tese vitoriosa na corte, em 2009. Joênia destacou que muitos produtos comercializados na Europa, como madeira e ouro, são extraÃdos ilegalmente em terras indÃgenas. âSão produtos que trazem o sangue indÃgena. Vocês também recebem produtos do agronegócio brasileiro. Vocês acham que estão livres dos agrotóxicos? Não estão, porque o governo brasileiro autorizou cerca de 300 agrotóxicos que foram banidos aqui para serem usados no Brasil. Se vocês compram, não estarão livresâ, enfatizou Joênia. âExijam dos governos de vocês um selo ou certificação que garanta que os produtos que vocês consomem não tem origem em crimes cometidos em áreas indÃgenasâ, sugeriu.
IndÃgenas da nova geração acompanham o giro das lideranças mais velhas na Europa. O filho de Davi Yanomami, Dario, expôs uma outra preocupação: que os não Ãndios aprendam a distinguir as diferenças e particularidades entre as etnias. âVocês usam muito o conceito de povos da Amazônia. O conceito certo é povos da floresta ou povos originários. Tem uma diversidade muito grandeâ, argumentou Dario, o que faz todo sentido, considerando que existem 305 povos indÃgenas e 274 lÃnguas faladas por eles. Demonstrando a reverência com os mais velhos, Dario disse aos acadêmicos: âMeu mestrado e meu doutorado estão aquiâ, enquanto apontava para Raoni, Megaron, Davi e Joênia. Os embaixadores dos povos indÃgenas ainda teriam outras capitais a percorrer nesta semana. Querem levar sua voz a quem quiser ouvi-los, já que em seu próprio paÃs têm tido dificuldade de reverberar sua luta pelo meio ambiente e por direitos humanos, que deveria ser a de todos os brasileiros.
