Entre os muitos venenos do pensamento de direita, na luta da polarização, um dos mais eficazes é a criminalização de palavras e conceitos. Ãs portas de 2024 (e certamente ano novo adentro), um sistema polÃtico virtualmente extinto semeia conflitos viscerais no Fla-Flu que segue instalado no Brasil: o comunismo. Não há, no Ãndex do debate público, palavra mais hedionda. Deveria ser somente folclórico, por surrealista, mas virou sintoma da irracionalidade que se apossou de muitos corações e mentes.
Leu essa? Vence a humanidade
O termo ganha de goleada, em popularidade e mobilização, de outras definições de mazelas bem mais urgentes para a sociedade: desigualdade, violência, miséria, poluição, pobreza, morte, desequilÃbrio, indÃgena, sem-terra, entre várias outras. Todas ficam ofuscadas pela inútil gritaria que contamina a sociedade inteira. Quem não adere à maluquice, está oprimido pela criminalização semântica.
Ao comentar a aprovação de Flávio Dino para o STF pelo Senado, Lula permitiu-se gracejo sobre o tema. âSegundo a extrema-direita, [Dino] foi o primeiro comunista a assumir a Suprema Corte e eu espero que seja um comunista do bem, que tenha amor, carinho e, sobretudo, que seja justo, porque ali não pode prevalecer apenas a visão ideológica aliâ.
O presidente e seus opositores referem-se à famosa entrevista do então governador do Maranhão, em 2019, na qual que ele se assume comunista, âgraças a Deusâ. Em fala pontilhada bom humor, paciência e sorriso, Dino responde até à provocação emblemática da direita, sobre a suposta contradição entre a posição polÃtica e a posse de bens de consumo como o Iphone. âQueremos que todos tenham acesso à tecnologia, essa é a diferença. Alguns querem para poucos, nós queremos que seja para todos. Ser comunista é isso, defender a comunhão, a partilha, justiça social, valores que devem sempre ser atualizados. Acreditamos na solidariedade, na convivência, na perspectiva clara de que a riqueza seja partilhada com mais justiçaâ, prega, a três afogueados jornalistas. âSomos orgulhosamente utópicosâ, arremata.
Não adianta. Nesta lamentável quadra da história, o comunismo terminou igualado à pedofilia, ao canibalismo e a barbáries afins. Vitória da extrema-direita que precisa ser dissolvida para ontem, porque arrasta junto valores civilizatórios essenciais, como cidadania, igualdade de oportunidades, democracia, respeito à s diferenças, tolerância, inclusão, estado democrático de direito. Preceitos do âpessoal dos direitos humanosâ, para lembrar outro chavão conservador.
Agora, a patologia ultrapassou as fronteiras ao sul, com o bizarro Javier Milei, presidente da Argentina recém-eleito, invocando âameaças comunistasâ a todo instante. Deveria ser apenas ridÃculo, mas torna-se perigoso pela repetição incessante que transforma em verdade.
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Veja o que já enviamosPor aqui, o governo Lula tem tanto de comunista quanto de venusiano. O presidente iniciou a trajetória polÃtica como lÃder sindical, versado no diálogo e no entendimento com os patrões das montadoras do ABC paulista. Até pareceu radical na adolescente eleição de 1989, mas vestiu o traje de âLulinha paz e amorâ para vencer após três derrotas â e nunca mais despiu.
O Brasil está completamente inserido no jogo do capitalismo; pratica resolvidamente a economia de mercado; combate a desigualdade social e a concentração de renda muito menos do que deveria; não tem qualquer intenção nem projeto de ruptura ideológica; respeita a propriedade privada e preserva todos os privilégios de sua elite. Mas a gritaria continua.
Com fervor, inclusive, religioso. Os coronéis da fé (na definição imbatÃvel do pastor/deputado Henrique Vieira) professam o conservadorismo, berrando nos púlpitos uma inexistente âameaça comunistaâ. Mas alcançam ouvidos dos fiéis, alimentando o conservadorismo que despreza o estado democrático de direito. à aà que (para usar expressão de outro tempo) mora o perigo.
Comunismo é algo que o Brasil jamais esteve perto de adotar, nem nunca estará. Somos tragicamente capitalistas â e assim será, até a consumação dos séculos.
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O ano termina com meninos negros sendo perseguidos pelos agentes públicos nas praias cariocas, exclusivamente pela cor da pele. Com o aval de polÃticos que flertam com o eleitorado de extrema-direita, pensando na votação municipal de 2024. Barbárie sob o sol â e a desalentadora certeza de que a democracia por aqui continua seletiva.
