Passou da hora de o Brasil aprender que inevitáveis, de verdade, só a morte e os boletos. Com os paÃses, as contas vêm com a História â e os ocupantes desse rincão ensolarado e violento insistem em não honrar os débitos que se acumulam na marcha do tempo. Os juros e a correção dos calotes são pesados; geram mortos, feridos, desigualdade, tristeza, revolta, injustiças variadas.
Na mais patrimonialista das sociedades, a permanente aposta foi no conchavo, no ânem eu nem vocêâ, no deixar tudo sempre igual. Perdem â e morrem â os de sempre: pretos, pobres, periféricos, mulheres, LGBTs, minorias em geral. No exemplo mais gritante, os brasileiros seguem a vida normalmente, ignorando os 50 mil assassinados a cada ano. Banho de sangue naturalizado.
O paÃs que, ainda colônia, massacrou indÃgenas até quase exterminá-los, depois investiu na mais longeva escravidão (dura até hoje, em alguns cantos) e jamais pagou a volumosa conta social. Nas muitas vezes em que sabotou os Direitos Humanos e a democracia, preferiu perdoar os vilões, sedimentando dÃvidas profundas. Aposta, por aqui, só no racismo, na misoginia, na homofobia. Ao escolher não cuidar das feridas que fabrica, o Brasil acaba por eternizá-las.
Está em cartaz no Amazon Prime exemplo de cobrança bem executada da dÃvida de uma nação. âArgentina 1985â narra o julgamento dos generais que comandaram a sangrenta ditadura de sete anos, entre 1976 e 1983, no paÃs. Mais de 30 mil pessoas desapareceram e as torturas estão entre as mais bárbaras da história humana.
Os argentinos escolheram não perdoar. Como mostra o filme estrelado pelo onipresente Ricardo DarÃn, levaram criminosos como Jorge Rafael Videla, o mais famoso e sanguinário dos ditadores, ao banco dos réus e os condenaram à prisão perpétua (o general morreu na cadeia, em 2013). Baniram a quadrilha do arbÃtrio da vida democrática e ainda investigam muitos crimes do perÃodo.
Chamado de âNuremberg argentinoâ, em referência ao julgamento dos nazistas pós-Segunda Guerra Mundial, a cruzada judicial foi obra da coragem de Raúl AlfonsÃn, o primeiro presidente (1983-1989) do paÃs redemocratizado. Relembra Ariel Palacios, jornalista e escritor radicado em Buenos Aires, profundo conhecedor da história de nossos vizinhos, que o julgamento se deu na esfera civil, por crimes de assassinato, tortura e sequestro, dentro do Código Penal vigente. âUma conquista de AlfonsÃn, que venceu três tentativas de golpe, num momento em que os militares ainda mantinham grande poder, com o arsenal comprado para a Guerra das Malvinasâ, contextualiza o correspondente da Globonews. âA desconstrução desse poder só veio nos anos 1990, no governo de Carlos Menemâ.
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Veja o que já enviamosA derrocada teve como emblema cena lendária, quando Néstor Kirchner chegou à presidência (2003-2007). âProcedaâ, ordenou ao chefe do Exército, Roberto Bendini, que retirasse com as próprias mãos as fotos dos generais Videla e Reynaldo Bignone da galeria na Escola Militar de El Palomar. O ato de exuberante simbolismo aconteceu em 24 de março de 2004, aniversário do golpe de estado que, em 1976, depôs a presidente Isabelita Perón.
(Apenas imaginem Lula ou qualquer presidente mandando um oficial tirar o retrato de Geisel, Medici, Figueiredo ou outro general-ditador da galeria no Palácio do Planalto. à ruim, hein?)
âArgentina 1985â está disponÃvel para quem quiser aprender. E não falta aluno do lado de cá da fronteira, onde ainda sobrevivem cartazes clamando pelo fechamento do STF e por âintervenção militarâ. A horda que se apropriou da camisa canarinho da seleção não se constrange em atacar o estado de direito. Do lado de cá, da defesa, escalam-se os verdadeiros cidadãos de bem.
Jamais por acaso, o calote mais doÃdo da história recente está ligado à ditadura militar. Ao contrário da Argentina, o Brasil escolheu não investigar crimes de Estado cometidos no perÃodo â a tal anistia ampla, geral e irrestrita â permitindo, entre vários erros, que prosperasse no Congresso uma excrescência, efeito colateral do arbÃtrio: Jair Bolsonaro.
Por décadas, quase ninguém se incomodou com o deputado bizarro, que proferia barbaridades em tom grosseiro, mas não tinha relevância na fauna do Legislativo. Nem quando ele exaltou o mais famoso torturador das Forças Armadas, Brilhante Ustra, no voto do pastiche parlamentar que golpeou Dilma Rousseff, houve qualquer comoção. Passou batido.
(Na lista do ânão podemos esquecerâ, estão os colegas jornalistas que, na antiética busca por audiência, deram voz e palanque para o capitão repetir ofensas e outras selvagerias. Quase todos hoje olham para o lado quando surge o assunto. Merecem ser lembrados para sempre como avalistas do desastre.)
Deu no que deu em 2018 â e o Brasil recebeu castigos variados por mais esse calote. Quase 700 mil mortos na pandemia, a Amazônia no caminho da destruição, o genocÃdio indÃgena, o desmonte do patrimônio público, a sabotagem à s universidades, o permanente ataque à democracia e à s liberdades e obrigações constitucionais. Uma lista macabra e interminável, que sinaliza reconstrução longa e penosa.
Para enfrentar Bolsonaro e sua horda de fanáticos, precisamos recorrer a um senhor de 77 anos, com inestimáveis serviços prestados ao paÃs, que deveria estar descansando, mas teve de voltar em socorro. O buraco das dÃvidas é tão profundo que só alguém com a monumental popularidade de Luiz Inácio Lula da Silva pode toureá-lo. Estamos, de novo, pendurados no velho torneiro mecânico.
E domingo, o Brasil ganha nova chance de pagar um quinhão de suas muitas dÃvidas. Como na senha da maquininha do cartão, basta apertar o número certo: 13. (A outra opção nos transformaria no Afeganistão tropical.) Alguns débitos serão honrados e a vida pode retornar a padrões suportáveis â com muito por fazer, mas diante de algum horizonte.
Assim, vamos lá pagar â e, quem sabe, aprender, enfim, que não vale a pena ser caloteiro com a História.
