Em 1979, uma série norte-americana de quatro capÃtulos, que misturava ficção e realidade, tendo Meryl Streep como estrela principal, deixou a Alemanha Ocidental em estado de choque ao ser levada ao ar em horário nobre, com cenas demasiadamente chocantes inspiradas em fatos reais. Seu nome: âHolocaustoâ. Produzida pela rede de TV NBC, a produção, bastante realista, tocou numa ferida mal curada da alma alemã â os crimes nazistas da Segunda Guerra Mundial.
Segundo a BBC, um terço da população da Alemanha Ocidental (cerca de 20 milhões de pessoas) assistiu a pelo menos parte da série. Além disso, pesquisas revelaram que, após verem a série, 86% dos espectadores alemães discutiram o Holocausto com amigos ou familiares. O resultado foi que, a partir dos anos 80, várias escolas alemãs procuraram dar uma nova educação aos alunos sobre o nazismo e o Holocausto, saindo das salas de aula e promovendo visitas educativas a campos de concentração. Além disso, por causa da série, historiadores alemães começaram a dar mais atenção ao Holocausto e os campos de concentração abriram ao público as primeiras grandes exposições e memoriais.
Na grande maioria dos casos, as atividades escolares com visitas aos campos da morte receberam ótimas avaliações de resultados. Ou seja, contribuÃram decididamente para que jovens alemães que não viveram a Segunda Guerra Mundial tivessem uma consciência crÃtica sobre o nazismo e seus crimes.
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Veja o que já enviamosO negacionismo do Holocausto também aumentou muito no Brasil no perÃodo de Bolsonaro como presidente. E um dos caminhos para combater isso é investir na educação antinazista nas escolas, que não fique apenas nos horrores do Holocausto, mas que mostre aos nossos jovens estudantes o que é o nazismo e o mal que ele faz a uma sociedade democrática
Aqui, no Brasil, quando perguntados sobre quais seriam os melhores caminhos para o enfrentamento ao neonazismo, os estudiosos são unânimes em dizer que precisamos desenvolver um programa educacional sobre o nazifascismo. Mas, igualmente, sobre a escravidão e sobre a ditadura militar de 1964, questões centrais da História brasileira, como destaca a psicóloga Lia Vainer Sschucman:
âEsse amor aos militares por parte de uma classe média que diz que âna ditadura era melhor de se viverâ, isso não se cria na Argentina, porque lá eles construÃram uma memória da ditadura. Mas que memória nós construÃmos aqui, no Brasil? Não há, e tampouco construÃmos uma verdade da escravidão brasileira. Meus alunos sabem como funcionava um feudo na Europa medieval, mas não sabem nada da Casa Grande e da Senzala. E não é culpa deles, é do ensino. Hoje dizemos: âSem anistiaâ. Mas as pessoas nem sabem o que é anistia… Nós, intelectuais brasileiros, gritamos frases que a população, em geral, não consegue sequer saber o significado. Nós temos oportunidade agora de construir nossas memórias coletivas, que poderão reforçar uma educação contra o neonazismoâ.
Michel Gherman acrescenta que a educação tem que ir além da pedagogia do Holocausto:  âTodas as pesquisas mostram claramente que o neonazismo cresceu fortemente no Brasil graças ao bolsonarismo. Ninguém conseguiu até hoje provar o contrário. O negacionismo do Holocausto também aumentou muito no Brasil no perÃodo de Bolsonaro como presidente. E um dos caminhos para combater isso é investir na educação antinazista nas escolas, que não fique apenas nos horrores do Holocausto, mas que mostre aos nossos jovens estudantes o que é o nazismo e o mal que ele faz a uma sociedade democrática. Isso é mais importante do que nunca, porque, hoje, temos um movimento crescente nas escolas de apologia ao nazismo, inclusive com ataques violentos, que vêm num crescendoâ.
Não apontar as semelhanças do bolsonarismo com o nazismo é cometer uma normalização de discursos que são essencialmente neonazistas. à preciso chamar pelo nome correto e, enquanto pesquisador, caracterizar
Além da educação, Gherman defende uma atualização da legislação brasileira que pune os crimes de nazismo: âNossa legislação é antiga, é uma lei que trata do nazismo da Alemanha dos anos 30 e 40. Hoje temos um neonazismo a brasileira, onde as pessoas agem como nazistas, mas não se apresentam nem se assumem como tal. Ao contrário, fazem tudo para ânaturalizarâ ações neonazistas como se fossem coisas normais, sem o carimbo explÃcito da suástica. à preciso atualizar a legislação, com leis que garantam punição de forma eficaz para atos inspirados ou motivados por ideias nazistas, que precisam ser devidamente tipificados como crimes â desde a criação e a disseminação de fake news até a instigação ao ódio, que culmina em atos golpistas e terroristasâ.
Renato Levin Borges reforça a necessidade de uma ampla educação antinazista: âOs bolsonaristas presos em BrasÃlia estão se comparando aos judeus nos campos de concentração: isso é uma banalização. Na verdade, se estivessem na Alemanha de Hitler e nos colocassem nos campos de concentração, eles é que estariam do lado de fora como nossos algozes. Não apontar as semelhanças do bolsonarismo com o nazismo é cometer uma normalização de discursos que são essencialmente neonazistas. à preciso chamar pelo nome correto e, enquanto pesquisador, caracterizarâ.
Levin Borges defende projetos educacionais que promovam a sensibilização dos estudantes, inclusive com atividades fora da sala de aula: âOs projetos de desfascistização e desradicalização contra a extrema-direita que deram certo na Noruega, na Alemanha e na Ãustria, passam não só pelo ensino em sala de aula, mas também pela sensibilização do afeto. Que é a experiência existencial, de sentir algo e conseguir se conectar com ele. Então, quando as escolas alemãs levam os alunos para visitar um campo de concentração, cria o impacto para os jovens de ver a pilha de sapatos de crianças que morreram ali. Teremos que descobrir modos de trabalhar isso junto ao bolsonarismo, que é como uma casca dura e impermeável, subjetiva e afetivamente. Quando você tenta argumentar com um bolsonarista, ele diz que você mente, que é controlado pela mÃdia, que foi enganado na universidade. Achar um ponto para rachar isso passa muito mais em como conseguimos afetar esse sujeito do que dar uma aula para eleâ.
Levi Borges acredita que, junto com medidas educacionais e novas leis, uma ação de afeto para desarmar a resistência dos bolsonaristas é igualmente importante: âCom a catástrofe humanitária do bolsonarismo, a gente não pode mais se dar ao luxo de não disputar as pessoas. E não temos tempo para teorizar, é preciso trocar a roda com o carro andando. O neoliberalismo tornou as pessoas isoladas, individualizadas e responsáveis pela sua sorte e sua miséria, competindo um contra o outro. Já o fascismo oferece um grupo de acolhimento. Aquela tia ou avó que ficava sozinha, passa a ter um grupo que conversa sobre tricô e que quer dar um golpe, achando que vai salvar o paÃs para os netos. Essa noção de pertencimento é fundamental. à preciso desconectar essas pessoas das fontes que radicalizaram elas, mas não as deixar isoladas. Elas precisarão ser reconectadas numa outra comunidade de acolhimento e escutaâ.
O professor de Filosofia destaca algumas iniciativas que podem ser inspiradoras para uma educação antifascista e antibolsonarista: âA coisa de fazer um café e convidar as pessoas para conversar sobre polÃtica, na campanha de Fernando Haddad à presidência em 2018, por mais que não tenha dado certo em termos eleitorais, foi uma tentativa válida. Mas ações como essas não podem ser episódicas, tem que ser continuadas. Senão, daqui a quatro anos o neonazismo ganha de novo. Porque a polÃtica é um desdobramento da disputa cultural, que não é só produção de mÃdia, é também a conversa com o vizinho, no grupo comunitário ou na associação de moradores. Se não fizermos isso, estamos fadados a perder. Porque o fascismo sempre vai oferecer pertencimento e valorização em algum grupoâ.
18 livros recentes sobre o bolsonarismo e o neonazismo no Brasil
- âO Neofascismo No Poder (ano I) Análises CrÃticas Sobre O Governo Bolsonaroâ, de Juliana Fiuza Cislaghi e Felipe Demier (organizadores), Consequência, 2019.
- âOs engenheiros do caos: como as fake news, as teorias da conspiração e os algoritmos estão sendo usados para disseminar ódio, medo e influenciar eleiçõesâ, de Giuliano da Empoli, VestÃgio, 2019
- âO Brasil dobrou à direita: uma radiografia da eleição de Bolsonaro em 2018â, de Jairo Nicolau, Zahar Editora, 2019.
- âAntissemitismo, uma Obsessão: Argumentos e Narrativasâ, de Eliane Pszcol e Heliete Vaitsman (organizadoras), Numa, 2020.
- âO fascismo em camisas verdes: Do integralismo ao neointegralismoâ, de Leandro Pereira Gonçalves e Odilon Caldeira Neto, FGV Editora, 2020.
- âO não judeu judeu: A tentativa de colonização do judaÃsmo pelo bolsonarismoâ, de Michel Gherman, Fósforo Editora, 2022.
- âFascismo à brasileira: como o integralismo, maior movimento de extrema-direita da história do paÃs, se formou e o que ele ilumina sobre o bolsonarismoâ, de Pedro Doria, Planeta, 2020.
- âCrônica de uma tragédia anunciada: como a extrema-direita chegou ao poderâ, de Wilson Gomes, Sagga Editora, 2020.
- âA República das MilÃcias: dos esquadrões da morte à Era Bolsonaroâ, de Bruno Paes Manso, Todavia, 2020.
- âA máquina do ódio: notas de uma repórter sobre fake News e violência digitalâ, de PatrÃcia Campos Melo, Companhia das Letras, 2020.
- âCriminalização da negação do Holocausto no Direito Penal Brasileiroâ, de Milena Gordon Baker, Thoth Editora, 2020.
- âOvo Da Serpente: a ameaça neofascista no Brasil de Bolsonaroâ, de Valério Arcary, Cid Benjamin e Felipe Demier, Mauad X, 2020
- âFascismo Brasileiroâ, de Diego Aguiar, Mundo Contemporâneo, 2020.
- âTempestade Ideológica â Bolsonarismo: A Alt-Right e o Populismo Iliberal no Brasilâ, de Michele Prado, Lux, 2021.
- âGuerra Pela Eternidade: o Retorno do Tradicionalismo e a Ascensão da Direita Populistaâ, de Benjamin R. Teitelbaum, Editora da Unicamp, 2022
- âO Ovo da serpente â Nova direita e bolsonarismo: seus bastidores, personagens e a chegada ao poderâ,de Consuelo Dieguez, Companhia das Letras, 2022
- âDo transe à vertigem: Ensaios sobre bolsonarismo e um mundo em transiçãoâ, de Rodrigo Nunes, Ubu Editora, 2022
- âNeonazismo, um risco atual â Por que? Onde? Como?â, de Eliane Pszcol e Heliete Vaitsman (organizadoras), Numa, 2023.
