O espetáculo atravessa um par de madrugadas, com elenco que ultrapassa 36 mil pessoas; a maioria não se conhece; inexiste ensaio geral, tampouco prova de roupa; o cenário todo só fica pronto na hora; a apresentação se dá em cortejo de 800 metros e obriga a conduzir equipamentos gigantescos, de formatos diferentes entre si; deve durar tempo patologicamente marcado; acontece sob chuva ou céu estrelado, calorão ou ventania; por fim, um júri avalia o desempenho, a partir de parâmetros únicos (e algo peculiares).
Leu essa? Fábulas carnavalescas reais
A mágica coletiva terá, daqui a pouco mais de duas semanas, sua 92ª edição. Transcorre (quase sempre) sem maiores sobressaltos anualmente, desde 1932, e, ao longo dessa odisseia, consolidou-se como emblema de paixão, beleza, drama, superação, arte â a melhor cara do Brasil. Obra, resistência e conquista do povo preto do Rio.
Fosse na Alemanha, no Japão ou em outra terra de colonizador, o desfile das grandes escolas de samba cariocas seria exaltado mundo afora, como aferição da excelência de uma sociedade. Encontrariam até jeito de endereçar o Nobel a algum artista criador. Mas tais privilégios não alcançam a periferia. Tudo certo â a gente se diverte por aqui sem precisar de aval alienÃgena.
Para 2024, as grifes da folia oferecem cardápio de enredos com agudo sentido cultural, inspirados em livros, personagens essenciais de presente e passado, histórias mágicas e misteriosas â sempre com muita macumba. Novamente, a maratona estará pautada por muito engajamento polÃtico, de inegociável viés progressista. Viagem virtuosa e, até onde a vista alcança, sem volta.
Quase todos os temas flertam com os ODS, mas alguns tocaram em especial o coração do #Colabora â e nenhum mais do que o criado pelo carnavalesco Edson Pereira para o Salgueiro. âHutukaraâ será uma celebração-defesa do povo Yanomami, denunciando o genocÃdio contra a etnia no governo Bolsonaro. A palavra-tÃtulo é pura poesia: âO céu original a partir do qual se formou a terraâ.
O vizinho Oscar #RioéRua Valporto abriu o coração salgueirense e detalhou a proposta, que produziu alguns dos versos mais bonitos do ano: âPelo povo da floresta/ Pois a chance que nos resta/ à um Brasil cocar!â Será lindo e forte, como convém.
Outro enredo totalmente #Colabora conduzirá a Portela. A maior campeã e mais tradicional das escolas vai apresentar âUm defeito de corâ, inspirado no livro espetacular (e homônimo) de Ana Maria Gonçalves. André Rodrigues e Antonio Gonzaga, os carnavalescos, conceberam uma resposta de Luis Gama, o abolicionista, à mãe, Luiza Mahin, lÃder de seu povo em Salvador. âSaravá Kehinde! Teu nome vive!/ Teu povo é livre! Teu filho venceu, mulher!/ Em cada um de nós, derrame seu axé!â, celebra o samba. Lindo!
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Veja o que já enviamosO Ãndice #Colabora de Carnaval passeia por outras escolas. Como o ParaÃso do Tuiuti, que também falará da luta pela liberdade, em âGlória ao Almirante Negroâ, reverência a João Cândido, o lÃder da Revolta da Chibata. Eternizado em âMestre-sala dos maresâ, a canção icônica de Aldir Blanc e João Bosco, o personagem entra para a coleção de temas progressistas da escola de São Cristóvão nos últimos anos.
Personagem negro menos conhecido, Ras Gonguila, mito da folia de Maceió, protagoniza o desfile da Beija-Flor. A gigante nilopolitana desfilará com enredo delirante (criação do carnavalesco João VÃtor Araújo) para festejar o folião descendente de escravizados que se intitulava herdeiro da realeza etÃope.
Na exaltação à cultura popular, difÃcil será bater a Mangueira e seu âA negra voz do amanhãâ, enredo-homenagem a Alcione concebido pelos carnavalescos Annik Salmon e Guy Estevão. Ãcone da própria escola, a cantora maranhense terá sua história conjugada à aposta que fez no futuro, ao fundar a Mangueira do Amanhã. Garantia de emoção.
Assim como âGbalá â Viagem ao templo da criaçãoâ, da Vila Isabel, que repete enredo de Oswaldo Jardim (1960-2003), apresentado originalmente em 1993 com a mensagem de um mundo melhor a partir da valorização das crianças. âQuando acaba a criação/ Desaparece o criador/ Pra salvar a geração/ Só esperança e muito amorâ, reza o samba magistral de Martinho da Vila, gênio brasileiro que vai comemorar seu 86º aniversário no desfile da escola.
Flertam com os parâmetros #Colabora também os enredos de Grande Rio, âNosso destino é ser onçaâ, baseado no livro de Alberto Mussa e em mitos tupinambá; de Mocidade e a irreverência do âPede caju que dou… Pé de caju que dáâ, sobre a fruta âcom a cara do Brasilâ, como reivindica o samba; e da Viradouro, no seu âArroboboi, Dangbéâ, sobre a energia do culto ao vodum serpente, influência decisiva para as guerreiras do Daomé.
Certa mesmo só a vitória da cultura mais popular, preta e brasileira, que move as escolas de samba cariocas. Tem de ser muito ruim da cabeça ou doente do pé para não ser apaixonado pela magia incrÃvel dos bambas da SapucaÃ.
