A vida nunca deu moleza ao carioca Laudeni Casemiro. Negro, nascido no andar de baixo da sociedade, toureava carências variadas â os boletos, sempre eles, em especial â como feirante, enfrentando a rotina com dificuldade adicional, devido à condição adquirida na infância, numa queda de cavalo: a perda do braço direito. Mas seguiu em frente, movido pelo talento de compositor. Sambista, o Laudeni.
Leu essa? A melhor cara do Brasil
Estava na batalha da música desde 1970, mas a recompensa nunca chegava. O Brasil jamais sorriu para a turma que faz as músicas, não seria diferente com ele. Até um dia, em 1993, quando Zeca Pagodinho gravou “Jiboia comeu o boi”, samba de Laudeni e João Quadrado; brotou dinheiro maior do que a média dos caraminguás de direito autoral.
O sambista não vacilou: subiu o Rato Molhado, favela da Zona Norte carioca, e patrocinou grande comemoração pelo feito. Porque âo que espanta a miséria é festaâ, pontificou. âA gente não faz festa porque está feliz, mas porque está tristeâ, concluiu, produzindo peça única de filosofia, que decifra muito da potência cultural carioca. Laudeni subiu o morro, reuniu a galera, distribuiu cerveja e formulou o aforismo em sua pele famosa: Beto Sem Braço, compositor de sambas fundamentais e totem do Império Serrano.
Sim, a riqueza intelectual caudalosa do samba carioca produz em ritmo incessante peças da mais alta filosofia. Mergulhar na conexão entre miséria e festa permite viajar por diversas camadas que decifram o Rio de Janeiro e o Brasil. Para ficar na mais óbvia: o Carnaval e sua música nascem no bojo da diáspora africana, que sequestrou milhões de pessoas para transformá-las em escravizados do outro lado do Atlântico. Libertados por interesses econômicos e abandonados à própria sorte, tiveram como solitário caminho a miséria.
Diante da sociedade viciada na desigualdade e no acúmulo de capital, os negros descendentes de Ãfrica deram seu jeito para espantar a tristeza â e construÃram a melhor cara do Brasil. Batucaram, dançaram, compuseram, tocaram, cantaram samba, gênero musical inventado por eles. Depois, criaram as escolas de samba e estão há mais de um século oferecendo as melhores lições ao paÃs.
âO aforismo é absolutamente genial pelo poder de sÃnteseâ, exalta o sociólogo, professor e pesquisador de cultura popular Mauro Cordeiro. âPessoas rotuladas como problema nacional, exemplos vivos do passado que o Estado brasileiro queria apagar, vÃtimas da legislação criminalizante dos corpos negros no espaço público produziram, em resposta, escola de sambaâ. E destaca o valor polÃtico das festas numa sociedade tão desigual. âServe para derrubar a lógica capitalista e mostrar que há outras formas de lidar com a vidaâ.
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Veja o que já enviamosO professor ainda contesta a parolagem de alienação, pregada por setores especialmente carrancudos dos brasileiros. âComo se o cotidiano fosse regido pela racionalidade, sem a necessidade do encantamento. A alegria tem sua dimensão polÃtica, constrói sentido de pertencimento, identidade e articula várias maneiras de estar no mundoâ, pondera.
Beto Sem Braço espalhou sua filosofia por sambas antológicos, como âCamarão que dorme a onda levaâ e âPisa como eu piseiâ, compostos com Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Aluisio Machado, Almir Guineto e Martinho da Vila, entre outros parceiros. Também com Machado criou o magistral âBumbum paticumbum prugurundumâ, um dos mais aclamados sambas-enredo da história, do Império campeão do Carnaval de 1982.
No desfile de 2025, a verde e branco de Madureira fará merecida reverência ao compositor, que será o enredo da escola (desde já, um dos melhores do ano). O tÃtulo, claro, é o aforismo. âA frase tem muitas camadas, ao enxergar a festa como processo de resposta e manifestação, maneira de responder a todo um sistema injustoâ, analisa o carnavalesco Renato Esteves, que fará sua estreia na Coroa Imperial. âA filosofia nasce da vivência do autor, que consegue passar sentimentos muitas vezes complexos. Precisa ler e refletir muito para entender a profundidadeâ.
O carnavalesco acrescenta que o desfile terá ainda como função reconhecer os compositores de samba e partido alto, que sofrem teimoso processo de apagamento. âA gente não presta atenção nas canções na perspectiva de quem as criaâ, protesta.
Agora, um dos maiores bambas de todos ganhará a homenagem devida, no altar das festas que espantam qualquer miséria.
