Clima, alimentação e saúde são temas entrelaçados pelo atual contexto de crise ecológica global. No Brasil, essa relação é sentida, principalmente, no prato das pessoas. Levantamento do Departamento Intersindical de EstatÃstica e Estudos Socioeconômicos (Dieese) identificou aumento no custo da cesta básica em 13 capitais, de um total de 17 cidades pesquisadas. De acordo com o estudo, em média, o valor dos Ãtens básicos para alimentação equivale a 40% do salário mÃnimo, de R$ 1.518. O maior valor foi em São Paulo, onde a cesta ficou em R$ 851,82, o que corresponde a 60% do salário mÃnimo.
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No contexto de preços elevados, as pessoas são obrigadas a fazer mudanças nos hábitos alimentares, o que geralmente, significa reduzir o consumo de alimentos frescos e naturais. âVocê chega no supermercado e aquele produto que você ia comprar está muito caro, então você acaba trocando por outro, na maioria das vezes é um produto ultraprocessadoâ, explica MaÃra Mazoto, professora de Nutrição na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio)
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Veja o que já enviamosTemos uma concentração elevada de CO2 (gás carbônico) que pode reduzir o teor de ferro e zinco em grãos e o teor de cálcio e magnésio em vegetais de raiz, como mandioca, insumo muito consumido pelos brasileiros, principalmente em regiões de insegurança alimentar
De um modo geral, os preços dos alimentos sofrem influência de diversos fatores, inclusive internacionais. Contudo, a questão climática adiciona desafios extras relacionados com sua produção e disponibilidade. âSe os alimentos ficarem mais caros, obviamente uma grande parcela das pessoas não poderão adquirir alimentos para sua dieta diáriaâ, pontua Suzi Barletto Cavalli, professora do Programa de Pós-graduação em Nutrição da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
De acordo com a pesquisadora, a consequência desse cenário é o agravamento de problemas de saúde, como obesidade, desnutrição, diabetes, doenças coronárias, entre outras. Suzi também lembra do papel central da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) nesse debate, como a possibilidade de controle dos estoques e influência nos preços dos alimentos.
Café falso e ultraprocessados
A alta no preço do café – relacionada com as questões climáticas – tem feito surgir produtos alternativos que imitam o grão. à o caso do âcafé fakeâ, também chamado de âpó para bebida sabor caféâ, produto feito com a polpa do grão, misturado com outros insumos, incluindo aromatizantes e corantes. âA população acaba sofrendo bastante também com essa questão do café, porque é uma cultura extremamente vulnerável à s variações climáticasâ, enfatiza a pesquisadora, autora de artigo sobre os impactos das mudanças climáticas na segurança alimentar e nutricional.Â
De acordo com MaÃra Mazoto, diferente de outros alimentos, como a carne bovina, que pode ser substituÃda por outras proteÃnas – como frango ou ovos – o café não tem uma substituição fácil. “Já vemos o caso de misturas que imitam leite condensado, mas que a lista de ingredientes tem baixo valor nutricional e não fazem bem a saúde. Isso é importante notar ao substituir alimentos”, complementa a pesquisadora, sobre a atenção necessária com os ingredientes na hora de escolher os produtos.
Mas a agricultura – produção de alimentos – terá que ser sensÃvel à nutrição e não o contrário. A atividade de produção de alimentos e de outros produtos, deverá ou deveria ser para preservar e priorizar a vida no planeta e do planeta
Em muitos casos, diante da falta ou de preços elevados de frutas e alimentos frescos, as opções se tornam bolachas, salgadinhos e outros ultraprocessados. De acordo com definição do Guia Alimentar da População Brasileira, ultraprocessados são produtos que passam por diversas etapas e técnicas de processamento, com adição de muitos ingredientes, incluindo sal, açúcar, óleos, gorduras e substâncias de uso exclusivamente industrial.
âTem muitos estudos que já mostram as relações de ultraprocessados com diversas doenças cardiovasculares e com questões de saúde mentalâ, menciona MaÃra. Relatório produzido pela ACT Promoção da Saúde relaciona o consumo desses produtos com pelo menos 57 mil mortes prematuras em 2019, além de doenças e de um impacto negativo de R$ 10,4 bilhões por ano na saúde pública brasileira.
Apesar da mobilização da sociedade civil e de diferentes entidades, como o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), os ultraprocessados ficaram de fora da lista do chamado âimposto seletivoâ da Reforma Tributária, sancionada em janeiro deste ano. Reportagem do O Joio e o Trigo mostra ainda que fabricantes de ultraprocessados contam com isenções de impostos em valores que somam R$15 bilhões na última década.
Clima afeta qualidade dos alimentos
As condições climáticas atingem tanto a produção de alimentos de origem animal, quanto de origem vegetal. âAs hortaliças, se não forem produzidas em sistemas de irrigação e proteção, serão muito afetadas, mas essa forma de produção requer um maior custo e também depende de recursos ambientaisâ, exemplifica Suzi Cavalli, doutora em Alimentos e Nutrição pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Além disso, existe também o impacto na qualidade e na composição nutricional dos alimentos produzidos sob extremos de temperaturas e instabilidade de chuvas. âTemos uma concentração elevada de CO2 (gás carbônico) que pode reduzir o teor de ferro e zinco em grãos e o teor de cálcio e magnésio em vegetais de raiz, como mandioca, insumo muito consumido pelos brasileiros, principalmente em regiões de insegurança alimentarâ, complementa Franciele Cardoso, professora e pesquisadora na área de insegurança alimentar e mudanças climáticas na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos).
âPor enquanto, estamos trabalhando com a questão do acesso e da disponibilidade. Não estamos olhando para a qualidade do alimentoâ, aponta MaÃra Mazoto. Nesse contexto, a especialista defende a adoção de polÃticas públicas para o fortalecimento dos estoques da Conab, taxação de ultraprocessados e subsÃdios para a produção agroecológica.
De acordo com Suzi Cavalli, a trÃade entre alimentos seguros, saudáveis e sustentáveis é essencial para a saúde e nutrição das pessoas. âMas a agricultura – produção de alimentos – terá que ser sensÃvel à nutrição e não o contrário. A atividade de produção de alimentos e de outros produtos, deverá ou deveria ser para preservar e priorizar a vida no planeta e do planetaâ, destaca a professora – afinal de contas, comer e viver bem são direitos básicos.
