Já ouviram falar de uma expressão em inglês conhecida como “fear of missing out”? No Brasil, traduzimos como “sÃndrome do FOMO”, cujo significado remete ao “medo de ficar de foraâ. Ela faz referência à ansiedade de ficar de fora de situações importantes, o medo de perder de iniciativas potencialmente promissoras, sobretudo dentro das telas do ambiente digital. à essa sÃndrome que nos escraviza ao ritual de checagem de notificações no celular ininterruptamente, além de acompanhar os grupos nas redes sociais e dizer sim para convites quando, na realidade, querÃamos dizer não.
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Minha dificuldade de dizer não já me levou a lugares terrÃveis. Desde eventos que não faziam sentido pra mim até trabalhos com prazos que, humanamente, não eram possÃveis. Ciclos de sobrecargas, micro surtos e até prejuÃzos financeiros. Hoje, me sinto mais fortalecida e seletiva com os convites que semanalmente chegam a mim. “Pode gravar um vÃdeo de 3 minutinhos até amanhã?” (Honestamente, não posso, porque vou gastar pelo menos duas horas com pesquisa e gravação). “Consegue entrar na reunião e falar do projeto que estamos fazendo rapidinho?” (Na verdade, não posso e não quero, mas vou dar um jeito). “Pode entregar o briefing nas próximas duas horas?” (Claro que não, mas sim). “Topa dar uma aula aqui na universidade para os meus alunos das 18h à s 22h?” (Convite de universidade particular de graça é muita cara de pau. Talvez sim?).
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Veja o que já enviamosQualquer rotina nos expõe a muitas escolhas diariamente. Quanto mais a gente “adultece”, mais a necessidade de definir prioridades grita. Eu, honestamente, odeio tomar decisões sob pressão e, sempre que posso, peço ajuda. Mas, sobretudo para mulheres negras, a sÃndrome do FOMO é ainda mais real. O medo de perder “possibilidades” traz uma leve cegueira irracional, onde é difÃcil decifrar o que é furada fantasiada de oportunidade.
Ficamos mais meia horinha no trabalho, que rendeu outras dezenas de horas extras em um ano. Respondemos mensagens no WhatsApp no domingo à noite. Perguntamos se o preço do orçamento “faz sentido” para a empresa. Pedimos desculpas por erros que não são nossos, ou justificamos que precisamos sair mais cedo hoje da reunião que já ultrapassou o horário previsto. Não negociamos prazo por medo de nos acharem incompetentes ou impostoras. Eu dou ou não dou conta disso? E assim vamos adoecendo.
Sou parte da estatÃstica de mulheres que aceitaram, por muitas vezes, fazer trabalhos não remunerados. Que disseram sim por ilusão de portas abertas que só existiam na nossa cabeça, e nunca na realidade. Hoje mesmo, não eram nem nove horas da manhã me vi justificando para uma representante do setor privado o porquê de não aceitar falar sobre racismo ambiental de graça. Mona, cê tá maluca?
Uma das maiores armadilhas da sÃndrome do FOMO é topar ser mão de obra gratuita por medo ou insegurança de não ser cogitada numa próxima vez. Um sentimento que, apesar de legÃtimo, só alimenta ciclo de exploração e injustiças que acontecem no mercado de trabalho. Essa é a reflexão que inspira o tÃtulo dessa coluna. Dizer não seria um ato de coragem ou um privilégio?
O que tenho aprendido é que dizer não para o que me parece injusto é uma coragem polÃtica. Não é de hoje que a branquitude e masculinidades tóxicas têm a ousadia de fazer propostas e subestimam nossas propostas e conhecimento. Essa autorização simbólica vem do colonialismo, pois as violências eram legitimadas em tempos de escravização. Por isso, dizer não não é birra, nem pirraça. à ato de resistência e coragem.
