Ao entrarem na faculdade, estudantes cotistas precisam se adaptar a uma nova realidade que impõe barreiras no seguimento da formação, como custos com transporte, alimentação e moradia. O acesso aos locais de ensino também é uma questão, uma vez que muitos dependem de meios de locomoção coletivos. Anna Julia, que mora em Sobradinho, cidade satélite de BrasÃlia, diz que para chegar até o campus Darcy Ribeiro há poucos ônibus, que passam em horários inadequados para sua rotina.
âSituação semelhante fez parte do cotidiano de Dayhane durante os dois primeiros anos de faculdade, quando morou em Nova Iguaçu, no bairro de Jardim Roma, com uma tia que a ensinou o trajeto até a Uerj, no Rio de Janeiro. A professora saÃa de casa à s 5h para ter aula à s 7h, após uma viagem de ônibus e trem. âSe desse algum problema, eu perdia os dois primeiros tempos de aula. Mas era a luta. Eu queria muito fazer a faculdadeâ, explicou Dayhane.
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âNo caminho, além dos objetos de estudo, muitas vezes a professora levou também sua refeição, como outros colegas de turma que se reuniam com ela para almoçar na Uerj, uma prática que estreitou laços. Todos do grupo eram cotistas. âQuando Ãamos comer ao meio-dia, precisávamos cheirar [a comida] antes para ver se não estava azeda, porque não havia nenhuma geladeira para guardar a marmitaâ, contou Dayhane.
â Se não fossem as polÃticas de permanência, eu não teria conseguido me graduar
Na época, a universidade estadual ainda não possuÃa restaurante universitário, popularmente conhecido como âbandejãoâ, inaugurado em 2011 após muitas reivindicações. Outro avanço nas polÃticas de acolhimento e permanência na Uerj foi a garantia do apoio financeiro aos estudantes cotistas durante todo o curso universitário, medida instituÃda pela Lei 5.230, aprovada em 2008. No ano de 2020, em média, 6.093 alunos recebiam bolsa permanência na instituição.
âEssa garantia a longo prazo poderia ter evitado a saÃda de colegas de Dayhane da faculdade. O auxÃlio oferecido a alunos de baixa renda naquele perÃodo era válido apenas para o primeiro semestre da graduação. Com o fim da assistência, muitos cotistas abandonaram o curso porque não possuÃam condições financeiras de arcar com os gastos de transporte e alimentação.
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Veja o que já enviamosâApesar dos avanços em determinadas instituições, a melhoria das condições para a permanência estudantil ainda é uma pauta defendida por estudantes e professores que observam os efeitos da falta de apoio no cotidiano de alunos de baixa renda. âAs polÃticas de acolhimento dos estudantes cotistas são extremamente conservadoras. Mesmo nas universidades que implementaram o sistema de cotas já no começo dos anos 2000, a exemplo da universidade que eu dou aula, a UNEB, há polÃticas de permanência extremamente frágeisâ, relatou Marcia Guena.
A importância de uma polÃtica de permanência eficaz se traduz também na trajetória de Karina Peres, de 26 anos, que estudou Jornalismo na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), entre 2015 e 2019. Durante toda a sua formação, a jornalista pôde contar com auxÃlios financeiros fornecidos pela instituição, além de ter residido em moradia estudantil. âSe não fossem as polÃticas de permanência, eu não teria conseguido me graduarâ, destaca Karina. Antes de iniciar a faculdade, a jovem morava com os pais em uma casa alugada na cidade de Congonhas, em Minas Gerais. Filha de uma empregada doméstica e de um caminhoneiro, ela já sabia que seria difÃcil para a famÃlia pagar pela locação de mais uma habitação, uma vez que precisaria se mudar para o municÃpio de Mariana para estudar.
â Neste semestre, como havia mais alunos que estavam envolvidos com essas discussões [sobre raça], houve mais produções que falassem disso de forma especÃfica. Mas em outros semestres, não. As outras turmas são muito abraçadas por uma visão fechada de autores brancos e que não são brasileiros
A jornalista, que ingressou na UFOP por meio das cotas para estudantes egressos de escolas públicas, negros e de baixa renda, precisou morar, inicialmente, com sua tia, mas logo conseguiu uma vaga em um dos conjuntos habitacionais da universidade, onde viveu até o fim da graduação. Karina também recebeu bolsa alimentação – garantia de gratuidade no restaurante universitário – e auxÃlio permanência, uma ajuda financeira que era fornecida mensalmente.
âAtualmente, Karina é repórter na TV UFOP e também trabalha em um jornal regional do estado de Minas Gerais. A conexão com a instituição que tão bem lhe acolheu foi estendida, ainda, na formação acadêmica. No inÃcio de 2022, ela ingressou no programa de mestrado em Comunicação da universidade. “Vivo por mim mesma e, à s vezes, tenho acesso a coisas que eu não teria se não fosse a graduação também. Então, [as cotas] mudaram tudo na minha vidaâ, conta.
Representatividade combativa
âComo muitos outros estudantes na universidade, Karina conta que o contato com textos de autores negros lhe trouxe uma melhor compreensão sobre o racismo e, consequentemente, de sua própria história. âAjudou a me formar como sujeito mesmo, como uma mulher negraâ, explica a mestranda, que atualmente estuda as novas formas de inserção de profissionais negras no jornalismo esportivo. O interesse pelas temáticas sobre raça e diversidade tem sido uma importante ferramenta no combate ao “epistemicÃdio”, palavra que vem ganhando maior destaque recentemente. Marcia Guena descreve o termo como âo assassinato das epistemologias não brancasâ. âà você negar que existem outras formas de compreensão do mundo que não apenas a oriunda das culturas europeias e hegemônicas, as culturas que colonizaram as Américas e a Ãfricaâ, explica.
A jornalista destaca que o cenário atual nas universidades, quase que estritamente eurocêntricas, ainda é desafiador e muito difÃcil de ser rompido, mas também observa certa mudança nos últimos anos: âComeçamos a ver referências de autores e autoras da Ãfrica, da América Latina, a discussão decolonial. Os filósofos africanos despontando na bibliografia e se tornando lidos e divulgadosâ.
Para a professora, essa transformação no cenário acadêmico e social ocorre como consequência da Lei de Cotas, que mudou o perfil da universidade e os temas de interesse de pesquisa.  âOs estudantes negros têm trazido outras pautasâ, explica ela.
Na UnB, Anna Julia Carvalho, aluna de Artes Cênicas, também observa que o engajamento de alunos com assuntos sobre diversidade e inclusão está contribuindo para, aos poucos, combater o “epistemicÃdio” na instituição: âNeste semestre, como havia mais alunos que estavam envolvidos com essas discussões [sobre raça], houve mais produções que falassem disso de forma especÃfica. Mas em outros semestres, não. As outras turmas são muito abraçadas por uma visão fechada de autores brancos e que não são brasileiros, e essas coisas se reforçam na forma dos professores guiarem as aulasâ.
Alunos negros passaram a representar maioria nas universidades públicas do Brasil (50,3%) pela primeira vez em 2018, de acordo com dados no IBGE. O marco contribuiu para reafirmar a importância das ações afirmativas e celebrar uma educação superior mais representativa da sociedade brasileira, uma vez que pessoas pretas e pardas constituem a maior parte da população do paÃs – um total de 56,2%, segundo dados de 2019 da Pesquisa Nacional por Amostra de DomicÃlios (PNAD).
Além dos estudantes pretos e pardos, vale destacar que a Lei de Cotas também se destina a pessoas brancas, indÃgenas e com deficiência egressas de escolas públicas. Nesse sentido, Ana Paula da Silva, cientista social e doutora em Antropologia, defende que o aumento da diversidade nas universidades contribui para o aprofundamento de partilhas de conhecimento e das inovações cientÃficas. Para a doutora, as ações afirmativas são benéficas não só para os diferentes perfis de estudantes que passam a vislumbrar o ensino superior como uma possibilidade em suas vidas, mas também para a economia e a ciência do Brasil. âEu acho que se a gente quer um paÃs que de fato pense em avanços tecnológicos, precisamos pensar na democratização do ensinoâ, afirma.
