Crianças e natureza, um tema urgente

Menino brinca no rio Araguari: crianças precisam do contato com a natureza

Falta de vivência ao ar livre está na base de problemas enfrentados pelos pequenos

Por Maria Isabel Amando de Barros | 11Vida Sustentável • Publicada em 12 de junho de 2016 - 14:25 • Atualizada em 2 de setembro de 2017 - 23:48

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Menino brinca no rio Araguari: crianças precisam do contato com a natureza
Menino brinca no rio Araguari: crianças precisam do contato com a natureza
Menino brinca no rio Araguari: crianças precisam do contato com a natureza

Basta sair de casa, ou de qualquer ambiente fechado, e passar algumas horas ao ar livre em uma área natural que já sentimos na pele como a relação com a natureza, por meio de experiências diretas e significativas, produz um impacto positivo que pode reverberar em cada esfera da sociedade. Uma atitude simples e que corrobora com um enorme corpo de estudos.

Em relação à criança não é diferente: pesquisas mostram o que pais e educadores atestam cada dia mais – as crianças ficam mais fortes, concentradas, criativas e motoramente hábeis quando têm a oportunidade de brincar ao ar livre com frequência.

O cenário da infância mudou: passamos de uma infância caracterizada pela liberdade de movimento, tanto motor quanto espacial, para uma caracterizada pelo confinamento e pela contenção

Esses estudos surgiram em decorrência da contradição que vivemos, pois pela primeira vez na história, a maioria da população mundial mora em cidades, onde o contato com a natureza é cada dia mais escasso devido ao estilo de vida apressado que adotamos e outros fatores como a escassez de áreas verdes e o domínio dos automóveis. No Brasil, esse número chega a 84% (IBGE, 2010). Simultaneamente, nunca passamos tanto tempo em lugares fechados e nossa sociedade mudou seu foco da experiência para a segurança. É sintomático que 47% brasileiros não se sintam seguros na cidade em que moram (IBGE, 2010).

Paralelamente, o cenário da infância mudou: passamos de uma infância caracterizada pela liberdade de movimento, tanto motor quanto espacial, para uma caracterizada pelo confinamento e pela contenção. Um dado dos EUA aponta que as crianças passam 90% do seu tempo em lugares fechados. Outra pesquisa comprova o que os pais e educadores já notaram na prática: a maioria das crianças não brinca ao ar livre. Resultados colhidos em 10 países mostraram que 56% das crianças passa uma hora ou menos brincando ao ar livre. Em todos os países pesquisados, as crianças passam 50% a mais do seu tempo brincando em frente às telas dos eletrônicos do que ao ar livre.

Vivemos tempos de mudanças vertiginosas que apontam para um futuro incerto e por vezes sombrio, um “verdadeiro terremoto que ameaça a condição humana”, como bem definiu Ernesto Sabato em seu livro-balanço ‘A Resistência’. O homem não teve tempo de se adaptar às bruscas e poderosas transformações que sua evolução técnica e social provocaram ao redor, e com isso sofre e causa muito sofrimento.

Na essência das atitudes necessárias para enfrentar o desafio de mudar a direção da história e contribuir com uma vida mais humana para nós e os demais seres que habitam esse planeta está o não conformismo e a esperança de que somos capazes de resgatar a nós mesmos e à casa que compartilhamos.

A criança personifica essa esperança, carregando em si todo um mundo de possibilidades, bondade e vida e hoje sabemos muito mais sobre a importância decisiva da infância do que no passado, já que diversos especialistas e pesquisadores apontam que as experiências e o desenvolvimento da criança em seus primeiros anos de vida ajudam a determinar o adulto que ela será, bem como mostra o recém-lançado documentário ‘O Começo da Vida’, da cineasta Estela Renner.

Entretanto, assim como nossa existência e bem-estar estão ameaçados pelo avanço da degradação ambiental, do medo da violência, da indiferença e da solidão, o cenário da infância também mudou, colocando em risco o desenvolvimento saudável e pleno das crianças.

São diversos e complexos os impactos que o atual sistema de valores causa no bem-estar físico, psicológico, emocional e espiritual das crianças. Um dos impactos mais contemporâneos, que se tornou realmente visível e disseminado nas últimas duas décadas, é o afastamento e a consequente desconexão entre a criança e a natureza.

A falta de contato e de oportunidades de brincar com regularidade e liberdade ao ar livre está na base de muitos problemas enfrentados pelos pequenos atualmente, como o aumento da obesidade infantil e as dificuldades de concentração, equilíbrio a atenção, e há muita pesquisa feita nessa direção.

Com base nessa premissa, o Projeto Criança e Natureza trabalha com o objetivo de garantir que as crianças cresçam e se desenvolvam em contato direto com a natureza.

Os efeitos da natureza têm sido testados particularmente em crianças diagnosticadas com TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade), tendo em vista o aumento expressivo de diagnósticos observado nos últimos anos. Pesquisadores norte-americanos descobriram que uma simples caminhada de 20 minutos em um parque urbano é capaz de trazer mais concentração a essas crianças do que o mesmo tempo de caminhada pelo centro da cidade. Outra pesquisa relata que os pais de crianças com déficit de atenção foram questionados sobre seu desempenho relativo à concentração após as crianças terem realizado atividades de lazer em diferentes áreas. Os resultados mostraram que as crianças tiverem um desempenho melhor após brincarem em áreas verdes e que quanto mais verde era a área de brincar, menos severos eram os sintomas de déficit de atenção.

É urgente o reconhecimento e o resgate dos valores mais caros à nossa humanidade entre os quais o afeto, a sensibilidade, o encontro, os vínculos, a imaginação e o senso de pertencimento à natureza. Isso é particularmente importante em relação às crianças, que como definiu Raffi Cavoukian, autor do livro Honrar a Criança, são a porta de entrada do ser humano no cenário da vida.

Esse é um desafio que exige ações conjuntas e a colaboração de diversos parceiros: conservacionistas e profissionais de saúde, advogados e educadores, familiares e planejadores urbanos, artistas e jornalistas.

Com base nessa premissa, o Projeto Criança e Natureza trabalha com o objetivo de garantir que as crianças cresçam e se desenvolvam em contato direto com a natureza. Entre nossas ações em 2016 está a realização do I Seminário Criança e Natureza do Brasil, em São Paulo (13/06) e no Rio de Janeiro (15/06), que reunirá especialistas brasileiros e estrangeiros para discutir as barreiras, os benefícios e as estratégias para promover a conexão entre a criança e natureza. Esperamos que esse espaço de encontro e troca nos inspire e motive a trazer mais natureza ao dia a dia das crianças, e de todos nós também. No dia 13 haverá transmissão ao vivo pela internet do evento. O link estará disponível no facebook do projeto.

Criança e Natureza – Brincando com a Natureza na Cidade from Maria Farinha Filmes on Vimeo.

 

Maria Isabel Amando de Barros

Mãe da Raquel e do Beni, Engenharia Florestal e Mestre em Conservação de Ecossistemas, sempre trabalhou com educação e conservação da natureza. Desde 2015 faz parte da equipe do Projeto Criança e Natureza do Instituto Alana.

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