Inamaty Kaxé, na lÃngua terena, quer dizer Novo Dia â tudo de que precisam crianças e adolescentes da aldeia urbana localizada na periferia de Campo Grande (MS), que carrega o nome. Sem aulas presenciais devido à pandemia, meninos, meninas e jovens indÃgenas sofrem com o precário acesso à internet para o ensino remoto. E entre o idioma dos ancestrais e a lÃngua dos colonizadores, o aprendizado torna-se inviável.
Comunidade com 70 famÃlias Terena, advindas de reservas do interior do estado, a aldeia Inamaty Kaxé ainda tem casas improvisadas com tapumes, lonas e pedaços de madeira. O material doado aos indÃgenas serve de estrutura para as casas de um ou dois cômodos, que abrigam até seis pessoas. Escola e posto de saúde ficam em outro bairro, obrigando os pais foram a caminhar para pegar atividades pedagógicas das crianças.
Rose Francisco da Silva, acadêmica de Letras na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, aponta a importância do respeito à lei da educação indÃgena. Ela é estagiária na Escola Estadual José Ferreira Barbosa, onde 60% dos alunos são de povos originários. âSempre tem um evento cultural, onde são apresentadas as diversas culturas, tanto dos indÃgenas quanto dos negros, para que a visão preconceituosa seja quebrada, e possamos assim aprender a respeitar uns aos outros. Além disso, a escola fornece professor indÃgena, que é para manter e preservar a lÃngua materna. Atuei dentro dessa salaâ.
[g1_quote author_name=”Alessandro Mariano Pereira” author_description=”Terena” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Não existe educação especÃfica, as atividades são as mesmas. Lá na aldeia tem aula de lÃngua Terena, aqui (na cidade) não. Nenhum deles fala a lÃngua do nosso povo. Tento conversar e passar, mas ninguém fala e eles vão perdendo. à tudo diferente
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Veja o que já enviamosAlessandro Mariano Pereira, 29 anos, aponta que na escola onde dois de seus cinco filhos estudam é diferente. Ele vê diferença na educação que o colégio ensina e a que ele recebeu na Aldeia Bananal. âNão existe educação especÃfica, as atividades são as mesmas. Lá na aldeia tem aula de lÃngua Terena, aqui (na cidade) não. Nenhum deles fala a lÃngua do nosso povo. Tento conversar e passar, mas ninguém fala e eles vão perdendo. à tudo diferenteâ.
Muitos pais da comunidade não terminaram os estudos e dependem da ajuda de parentes que concluÃram o ensino médio, ou estão na faculdade, para ensinar os filhos. O cacique Josivaldo expõe que os problemas na educação se intensificam com a perda de emprego dos pais e a falta de acesso à internet. âPara manter não é fácil, a gente vive de doação. A maioria tem dificuldade em se deslocar até a escola para pegar as atividades e muitos que não têm acesso à internet. A gente depende muito da ajuda um do outroâ.
Luana Figueiredo, 26 anos, tem sete filhos, quatro em idade escolar. Ela cuida sozinha das crianças â o pai trabalha na colheita de maçã no Rio Grande do Sul. Todo dia, Luana caminha uma hora até a escola e na volta, sem acesso à internet, se divide entre afazeres domésticos e a assistência na educação os filhos. âNa escola sabia que eles estavam seguros e aprendendo. Agora é bem mais difÃcil, ainda mais que tenho sete e preciso pegar os quatro da escola um por um, leva tempo para ensinar.â
As crianças também demonstram, em desenhos, a insatisfação por estarem longe da escola. Maria Eduarda, 8 anos, está no quarto ano e se queixa de ficar em casa. âSinto falta de sair, né? De ter aulas de matemática e ver meus colegasâ.
Segundo o IBGE, Mato Grosso do Sul tem a segunda maior população indÃgena do paÃs – 63 mil pessoas distribuÃdas por nove etnias diferentes, categorizadas pela Subsecretaria Especial de Cidadania (Secid/MS). Os Terena sofrem com a divisão entre os idiomas. Leozilda, 56 anos, é avó das crianças e ajuda na criação dos filhos de Luana e dos outros netos. Durante o dia, fica com 13 crianças em casa. Nascida e criada na Aldeia Bananal, no interior do estado, faz questão de passar a lÃngua materna aos netos. âEu e as crianças não falamos direito o português, porque lá na aldeia a gente conversa no nosso idioma, mas os brancos entendem, mesmo com os errosâ.
A famÃlia vive com R$ 700 mensais (arrecadados em programas sociais públicos), mas depende de doações e do âkit merendaâ â auxÃlio da prefeitura para a alimentação de crianças matriculada, mas que não chega a todas. âRecebo o Bolsa FamÃlia, mas só três dos meus filhos recebem o kit da escola. Uma das minhas meninas não recebe e eles dizem que não tenho o cadastro, mas não entendo, porque dos outros eu receboâ, lamenta Luana, mais uma à espera da chegada do novo dia, que livrará os indÃgenas deste pesadelo.
