Há um ano, entrevistei para Ecoa UOL o pensador John Elkington, criador do conceito Triple Bottom Line â um norte de ação que se destinaria a unir pessoas, planeta e lucro, todos em equilÃbrio, dando origem ao termo ESG (Environmental, Social and Governance para a sigla em inglêms; Ambiental, Social e Governança, em português). Na ocasião, o britânico refletia, em tom de tristeza, de como a sigla ganhou espaço no mundo corporativo, ao mesmo tempo em que não se tornava efetiva para mobilizar e engajar mudanças.
John parecia antever um cenário que fez alguns dias atrás causar revertério na opinião pública, quando Tallis Gomes, conhecido nome do mundo dos negócios brasileiro por sua atuação nas empresas Singu e a Easy Tax, afirmar nas suas redes: âDeus me livre de mulher CEOâ. E não parou por aÃ, depois de tentar explicar de que preferia ver a âenergia femininaâ usada ânos lugares certos, lar e famÃliaâ.
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Veja o que já enviamosTallis não é um qualquer. Fundou, em parceria com os empresários Alfredo Soares, Bruno Nardon e Tony Celestino, a G4 Educação, autodenominada a âevolução da escola de negóciosâ. Após os impropérios machistas publicados e a cobrança – sobretudo feminina -, ele deixou a presidência da G4, sendo substituÃdo por uma mulher, defendido por uma nota pública de que sua opinião não reflete o pensamento da empresa.
No site da instituição, onde Tallis ainda permanece como um dos rostos, é possÃvel traçar um panorama sobre como trabalham. De 12 pessoas como âmentoresâ, duas são mulheres, 10 são homens – ou seja, a maioria. Isso explica os motivos que fazem do Brasil ser um paÃs em que mulheres ocupam apenas 39% dos cargos de liderança, e apenas 5% são CEOs. Gozado, não?!
Voltando ao desbravamento do site da instituição, um dos nomes de notoriedade que figura na lista é conhecido de todos nós: o ex-ministro da economia Paulo Guedes. O tÃtulo da apresentação que oferta os coachs leva o lema ââSó ensina quem faz: aprenda com mentores e lÃderes que vivem diariamente a realidade dos negócios no Brasilââ. Me pergunto onde estão as pessoas que cuidam de micro ou pequenas empresas, ou na verdade, em que lugar na fila do pão estão elas.Â
A crise Tallis Gomes é só um recorte simples de como o paÃs tem encaminhado as transformações da pauta que é vista como o âcapitalismo do amanhãâ, sendo irresponsável o modelo que formata os empreendimentos que figuram no alto escalão da economia brasileira.Â
Sem sequer esforço, as mentes brilhantes pensam em dinheiro e na venda de ações (todas falsas), que imprimem um quê de inclusão, pensamento social e governança, quando, na verdade, não fazem cócegas para modificar as realidades brasileiras e movimentar, na ponta, quem está no poder. No fim, ESG que é bom, nada.
Os rostos são os mesmos e o modo de pensar, idênticos. Há falsidade no que tange a implementação da prática para bonificação e registros em redes sociais que amenizam as desigualdades que tanto são potencializadas em nosso patropi.Â
Se John tivesse conhecimento do caso, ficaria envergonhado. No mÃnimo.

Ninguem se importa com ESG