Inara Fonseca*
âMaria Elizabeth era uma mulher forte e determinada e pelos poucos meses que esteve à frente da AGERGS, teve uma grandiosa e significante passagem com determinação e muitos planos de efetividade para a Agência e para o Estado do Rio Grande do Sulâ, diz a nota de pesar emitida pela Agência Estadual de Regulação dos Serviços Públicos Delegados do Rio Grande do Sul (AGERGS).
Maria Elizabeth Rosa Pereira, 65 anos, mãe, advogada, técnica tributária aposentada e presidenta da AGERGS estampou as notÃcias dos jornais do Rio Grande do Sul no mês de abril. Morta, no dia 17 do mesmo mês, com um tiro nas costas na casa do companheiro, o policial militar (PM) da reserva José Pedro da Rocha Tavares. O PM virou réu, no inÃcio de junho, após o Judiciário aceitar a denúncia por feminicÃdio â ou seja, homicÃdio em contexto de violência doméstica familiar ou menosprezo e discriminação à condição de mulher â realizada pelo Ministério Público.
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Veja o que já enviamosMaria Elizabeth é uma das 21 mulheres vÃtimas de feminicÃdio no Rio Grande do Sul, durante o perÃodo de isolamento em decorrência da pandemia de Covid-19. Entre os meses de março e abril de 2020, o Estado teve um aumento de 23,5% da mortalidade de mulheres em comparação ao mesmo perÃodo no ano de 2019. Se comparado aos quatros primeiros meses de 2019, o Rio Grande do Sul teve um aumento de 71% dos casos de feminicÃdio em 2020. Enquanto em janeiro, fevereiro, março e abril de 2019 foram 21 casos; em 2020 foram 36. Os dados são da Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Sul (SSP/RS).
[g1_quote author_name=”Tatiana Bastos” author_description=”Delegada titular da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (DEAM) do Rio Grande do Sul.” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Os crimes mais graves que não têm como serem acobertados, como o feminicÃdio, aumentaram. à preciso que as mulheres e toda a sociedade entendam que todos os crimes precisam ser denunciados
[/g1_quote]De acordo com Ariane Leitão, advogada e coordenadora da Força-Tarefa de Combate aos FeminicÃdios no RS, o aumento da taxa de mortalidade feminina é um forte indÃcio de que as estatÃsticas relativas aos demais crimes de violência doméstica familiar contra as mulheres no Estado, durante a quarentena, não retratam a realidade. Isto é, as denúncias registradas são menores que os casos cotidianos. âTemos certeza de que estão subnotificados. O feminicÃdio é o ápice do ciclo de violência contra as mulheresâ, afirma.
A delegada também ressalta que a subnotificação é um problema anterior à Covid-19 agravado no contexto da pandemia. âA subnotificação já é a tônica na questão da violência doméstica, temos estudos que demonstram que 90% das mulheres não denunciam. No caso da pandemia, com aumento da convivência familiar, muitas mulheres estão confinadas com seus agressores o que agrava a subnotificaçãoâ, afirma.
O desafio da subnotificação
Durante esta investigação, duas realidades tiveram mais destaque tanto nas falas das entrevistadas, quanto na compilação das estatÃsticas sobre a violência doméstica e familiar contra mulher no Rio Grande do Sul: a subnotificação e a inconsistência dos dados. Delegada, advogadas, pesquisadoras, ativistas, todas foram categóricas: as estatÃsticas de agressões, estupros, mortes, denúncias e medidas protetivas não representam a realidade. Ou seja, o quadro que já é ruim, no cotidiano, é ainda pior.
[g1_quote author_name=”RaÃssa Jeanine Nothaft” author_description=”Pesquisadora no Núcleo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisas sobre Saúde, Sexualidades e Relações de Gênero” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Existe essa falta de confiança na polÃcia como uma instituição que possa ajudar e proteger as mulheres. E isso também tem relação com gênero uma vez que a polÃcia é uma instituição muito machista. Estudos relatam que muitas mulheres não conseguem registrar a ocorrência, elas são desencorajadas quando chegam nas delegacias
[/g1_quote]RaÃssa Jeanine Nothaft, doutora em Ciências Humanas e pesquisadora no Núcleo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisas sobre Saúde, Sexualidades e Relações de Gênero, explica que um grande entrave para prevenção e combate da violência doméstica e familiar contra as mulheres é a cultura patriarcal que naturaliza relações de domÃnio e abuso entre homens e mulheres. âPor existir uma cultura de naturalização da violência, as ameaças, as violências psicológicas ocorrem antes do crime de feminicÃdio, mas não são denunciadas. Por não terem sido consideradas como violência, não são notificadasâ, pontua RaÃssa Nothaft.
Uma questão levantada pela pesquisadora é a importância de compreender que embora o fenômeno da violência doméstica afete mulheres negras, indÃgenas, brancas, heterossexuais, lésbicas, pobres, ricas, entre outras, a maneira como atinge cada mulher se dá diferente de acordo com esses marcadores sociais de raça, etnia, classe e orientação sexual. No caso da população negra, por exemplo, RaÃssa pontua que o racismo que estrutura a violência policial é um fato que dificulta a relação de confiança entre a polÃcia e as mulheres negras em situação de violência doméstica.
âA lei Maria da Penha é uma legislação bastante ampla que prevê medidas protetivas, assistenciais e punitivas, mas se pensamos o histórico da implementação da lei o que tem sido privilegiado é a dimensão punitiva. Dentro de estudos que falam sobre encarceramento, sobre violência policial, existe uma polÃtica racista de segregação e genocÃdio da população negra empreendida por essas polÃticas de segurança pública. A ferramenta de proteção das mulheres em situação de violência no Brasil, que tem uma maioria de população negra, é a mesma que oprime essas mesmas mulheres. à muito contraditório. Como essa mulher negra que vê seu filho morto pela polÃcia vai confiar?â, questiona.
A falta de preparo para acolhimento da polÃcia também é apontada pela pesquisadora como um fator que agrava a subnotificação. âPara mim, é uma das principais causas que levam a subnotificação. Existe essa falta de confiança na polÃcia como uma instituição que possa ajudar e proteger as mulheres. E isso também tem relação com gênero uma vez que a polÃcia é uma instituição muito machista. Estudos relatam que muitas mulheres não conseguem registrar a ocorrência, elas são desencorajadas quando chegam nas delegacias: a questão não é de polÃcia, dizem, ou promovem revitimização da mulher questionando: Por que que tu tá fazendo denúncia? Amanhã tu vais estar de volta com eleâ, ressalta.
Sobre a inconsistência dos dados, além da subnotificação que não permite números precisos, há também desafios na tabulação. Durante o levantamento para esta reportagem, embora, majoritariamente, as instituições no Rio Grande do Sul tenham compartilhado os dados com eficácia e rapidez, não foi possÃvel coletar as estatÃsticas do 190 â número de telefone da PolÃcia Militar, disponÃvel 24h por dia em todo o território nacional, que é uma das principais portas de entrada para pedido de socorro ou denúncia de alguma agressão envolvendo violência doméstica. Através da assessoria da Secretaria de Segurança Pública do RS, descobrimos que não havia um filtro especÃfico que permita qualificar os atendimentos relativos à violência doméstica no sistema da Brigada Militar.
De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2020, após 14 anos da criação da lei Maria da Penha, as polÃcias militares de vários Estados ainda registram casos de violência doméstica sob a nomenclatura âdesinteligênciaâ (utilizada para classificar episódios que entendem não serem problemas de polÃcia) e âbrigas de marido e mulherâ.
A falta de confiabilidade nos dados é um problema histórico apontado pelo movimento feminista no Brasil. Renata Jardim, advogada e coordenadora de programas na ONG Themis, acrescenta que além do problema de transparência, a falta de cruzamento dos dados também prejudica uma compreensão do fenômeno da violência.
âNão se cruzam os dados (saúde, judiciário, secretaria de segurança pública, centros de referência, casas-abrigo). A qualificação dos dados já era uma demanda anterior do movimento feminista para formulação de polÃticas públicas mais efetivas. No contexto de pandemia, o levantamento desses dados deveria ser mais rigoroso ainda. Mas o que temos, com as várias possÃveis entradas de denúncias e pedidos de ajuda, são dados diferentes que não dialogam e se contradizemâ, explica Renata.
Mesmo subnotificados os dados são alarmantes. As ocorrências registradas revelam que 78 mulheres foram ameaçadas, 50 agredidas fisicamente e três estupradas por dia, em dois meses de pandemia. Isso significa que, no Rio Grande do Sul, a cada uma hora cinco mulheres sofrem alguma forma de violência.
O ciclo da violência: entre o romance e o domÃnio
Laudelina**, mãe e mulher preta, foi embora de casa fugida durante a pandemia do coronavÃrus, depois de dois anos de casada e várias agressões acumuladas. Laudelina, assim como tantas mulheres, viveu a narrativa da canção de Chico Buarque âA história de Lily Braunâ. Como num romance, o homem dos sonhos apareceu, com dez poemas e um buquê. E, após a conquista, nunca mais feliz. A cultura patriarcal de domÃnio dos homens sobre as mulheres representada através da vida de Laudelina e de tantas outras violentadas dentro de suas próprias casas.
Laudelina conta que a primeira agressão foi uma desagradável surpresa. âEu não acreditava que estava passando por aquiloâ, repete várias vezes indignada. A violência veio após o ex-marido descobrir que a companheira separava itens alimentÃcios da compra de mercado para entregar para a mãe. âEu sempre ajudei em casaâ, relata. No meio da discussão sobre o fato, ele a levantou pelo pescoço. Depois vieram os pedidos de desculpa, não ocorreria mais. Ocorreu. E, então, vieram as humilhações, os chutes, os xingamentos, outras ofensas e o afastamento de Laudelina de amigos e outros familiares. A mulher nunca denunciou o ex-marido. âSempre achei que como mentia, levando as comidas (para a mãe), era meu castigo apanharâ, Laudelina.
âEu sempre acabava me culpando de algo e acreditando que eu merecia aquilo ali, porque os homens agressivos te colocam em uma situação que tu foi a culpada deles brigarem, como se fossem tua mãe te punindo por uma arteâ¦â, lamenta Laudelina.
O rompimento com o agressor ocorreu quando a comadre de Laudelina precisou se fixar durante o isolamento em sua casa. A amiga presenciava os abusos e aconselhava Laudelina. Até que um dia, o ex-marido avisou Laudelina que não queria mais a amiga dentro de casa pela má influência: a comadre estava afastando Laudelina dele. Após uma discussão entre o casal, o ex-marido gravou um vÃdeo ofendendo a comadre de Laudelina e enviou para grupos de WhatsApp.
âOu eu continuava casada, ou perdia a única amiga que me restava. Perdi minha essência idolatrando um homem que me maltratava por ele ser bonito. Achava normal e não via quando ele me dizia que eu era nega véia, um bagulho. Quando fazia brincadeiras agressivas na frente das pessoas próximas, como: vou te quebrar o pau. E eu achava engraçado, até que comecei a notar que estavam sendo repetitivasâ, relata.
Felizmente, Laudelina sobreviveu. Diferente de Jocemara, Quelem, Maria Elizabeth e Andiara, todas elas vÃtimas de feminicÃdio durante a pandemia. Suas histórias, cujo ex-companheiros são majoritariamente os principais suspeitos, estamparam as manchetes dos jornais. Suas mortes viraram estatÃsticas. Em abril, com o aumento de 66% de feminicÃdios, em comparação ao mesmo mês em 2019, o Observatório da Segurança Pública e o Departamento de Inteligência da SSP do Rio Grande do Sul fez uma análise dos casos: nenhuma das 10 vÃtimas tinha qualquer registro de ocorrência anterior contra seus agressores. Porém, era de conhecimento dos familiares e amigos comportamentos abusivos nas relações.
Faltam polÃticas públicas e serviço estruturado
De acordo com Tatiana Bastos, assim que o isolamento foi decretado pelo governador do Estado, polÃticas que facilitam as denúncias de casos de violência doméstica foram aplicadas. âPassamos a adotar canais de denúncia e registro alternativo. Desde o dia 20 de março há possibilidade de fazer registro online. Os boletins de ocorrência já existiam no site da polÃcia civil, mas não havia como fazer o de violência doméstica e familiar contra mulher. Todo tipo de ocorrência é possÃvel que seja feito na Delegacia Online, inclusive a medida protetiva. Também tem a possibilidade do uso do WhatsApp e do Disque Denúnciaâ, explica.
Além dos canais, a PolÃcia Civil do Rio Grande do Sul iniciou, na DEAM de Porto Alegre, atendimento psicológico online para vÃtimas de violência doméstica e lançou a âCartilha da Delegacia Onlineâ â que ensina passo a passo como as mulheres em situação de violência doméstica podem registrar ocorrência na Delegacia Online.
[g1_quote author_name=”Télia Negrão” author_image=”Diretora da Rede Feminista de Saúde e da Rede de Saúde das Mulheres Latino-americanas e do Caribe” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Nos paÃses mais ricos, como Alemanha e Austrália, apesar da pandemia e do isolamento, as mulheres conseguiram acessar os serviços e as denúncias aumentaram. Nos paÃses mais pobres, onde os serviços não estão funcionando adequadamente, as mulheres não conseguem acessá-los e os feminicÃdios crescem
[/g1_quote]Apesar das ações pontuais relacionadas ao combate da violência doméstica contra mulher durante a pandemia de Covid-19, as medidas tomadas pelo governo estão longe de contemplar as indicadas pela Organização das Nações Unidas (ONU). A ausência de polÃticas de abrigamento, por exemplo, é denunciada por Télia Negrão, conselheira-diretora da Rede Feminista de Saúde e da Rede de Saúde das Mulheres Latino-americanas e do Caribe (RSMLAC). âAs casas-abrigo deixaram de receber pessoas novas. Recentemente, entrei em contato com duas coordenadoras para averiguar e haviam reduzido para 1/3 da capacidade de abrigamento por questões de segurança sanitária. Como não existem protocolos especÃficos diminuÃram a capacidade de atendimento no perÃodo que as mulheres mais precisamâ, afirma. Sem polÃticas de abrigo do Estado, as mulheres que conseguirem denunciar, caso não possuam uma rede de familiares ou amigos que as acolham, não terão para onde ir. Atualmente, o Rio Grande do Sul tem apenas 14 casas-abrigo para todo o Estado.
A fala de Ariane ressoa no fato já apresentado pela SSP/RS: em nenhum dos casos de feminicÃdio do mês de abril as mulheres haviam feito denúncias anteriores contra seus agressores. O que explica que essas mulheres tenham morrido sem sequer terem feito um boletim de ocorrência? Sem que tenham conseguido chegar aos serviços que deveriam ofertar acolhimento e segurança? Télia Negrão chama atenção para uma análise produzida pela ONU evidenciando a existência de um padrão de violência que em situações de crise sanitária e humanitária se reproduz e atravessa distintas regiões, em escala global.
âAs violências aumentam e atingem as mulheres, em contexto de pandemia, que estão com maior dificuldade de acesso à s polÃticas públicas. Nos paÃses mais ricos, como Alemanha e Austrália, apesar da pandemia e do isolamento, as mulheres conseguiram acessar os serviços e as denúncias aumentaram. Nos paÃses mais pobres, onde os serviços não estão funcionando adequadamente, as mulheres não conseguem acessá-los e os feminicÃdios crescem. O Brasil se enquadra nesses paÃses onde as mulheres não denunciam e acabam passando por uma situação de violência muito forte. Elas morrem sem terem feito um registro de ocorrência, sem terem uma medida protetivaâ, pontua Télia.
Apesar do aprofundamento dos desafios na prevenção e combate à violência doméstica durante a pandemia, o aumento dos feminicÃdios é apenas um sintoma mais visÃvel de uma realidade já existente no Estado: em 2019, o Rio Grande do Sul foi o terceiro estado com mais casos de feminicÃdio, de acordo com o relatório da Força-Tarefa de Combate aos FeminicÃdios no RS. No âMonitoramento da Violência contra a mulher na pandemia do coronavÃrusâ, investigação feita pelo Porta Catarinas em parceria com outros veÃculos de jornalismo independente, o Rio Grande do Sul aparece como o quarto estado com mais feminicÃdios consumados no Brasil, no primeiro quadrimestre de 2020. âAo não existirem possibilidades de acessarem os mecanismos de denúncia e proteção, as mulheres estão reféns. Esse indicador de acesso aos serviços de combate a violência doméstica determina também a gravidade dos crimesâ, afirma Télia Negrão, conselheira-diretora da Rede Feminista de Saúde e da Rede de Saúde das Mulheres Latino-americanas e do Caribe (RSMLAC).
[g1_quote author_name=”Ariane Leitão” author_description=”advogada e coordenadora da Força-Tarefa de Combate aos FeminicÃdios no RS” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]As mulheres voltaram a ser caso de polÃcia, não aparecemos em nenhuma outra seção do jornal que não esteja vinculada à violência
[/g1_quote]A queda brusca no orçamento destinado a Rede de Enfrentamento e Atendimento à s Mulheres em situação de violência é indicada como um dos principais fatores que influenciam o aumento dos feminicÃdios. Os cortes impactam tanto a qualidade, como a existência dos serviços de enfrentamento a violência e a exclusão social das mulheres. Ariane Leitão ressalta que o valor destinado para a questão, em 2020, foi de R$ 20 mil. Em 2019, o orçamento destinado foi de R$ 180 mil â valor já considerado insuficiente. Enquanto as mortes de mulheres aumentavam, o governo do Estado decidiu reduzir nove vezes os investimentos.
âà necessário investimento em polÃticas públicas para as mulheres ou as mortes continuarão aumentando. Nossas vidas, neste governo, valem R$ 20 mil reais e os serviços de enfrentamento a violência não são considerados essenciais. Falta rede, falta articulação, existe polÃcia trabalhando e saúdo o trabalho dos policiais. Mas, não temos nenhum projeto vinculado de emancipação das mulheres. Fomos o terceiro Estado que mais mata mulher no ano passado e estamos reféns da necropolÃtica do Eduardo Leiteâ, expõe Ariane Leitão.
âQuando começou a pandemia, o governo do Estado pediu para que nós mudássemos o escopo de todas a emendas destinando-as para a saúde. Fiz isso com outras, mas a emenda 275 propus para que fosse destinada ao combate da violência contra mulher, pois sabia que a pandemia iria aumentar essa violência. O governo do Estado não tem polÃtica voltada para as mulheres especificamente e esse dinheiro seria destinado para compras de vagas em hotéis ou locais que tenham condição de abrigamento das mulheres em situação de violência. O dinheiro já está destinado, o que ainda não saiu foi o edital para compra de vagas. Estamos batalhando para que saia o mais breve possÃvelâ, conta Luciana Genro
O desmonte das polÃticas públicas de enfrentamento a violência contra mulher é um projeto antigo dentro do Estado do Rio Grande do Sul. Em 2015, no governo de José Ivo Sartori (MDB), houve o fechamento da Secretaria Estadual de PolÃticas para as Mulheres que se transformou em um departamento dentro da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos. O orçamento de polÃticas para as mulheres reduziu de R$ 10.073.313.89, em 2014 no governo de Tarso Genro (PT), para R$ 180.000,00 em 2018. No governo Eduardo Leite (PSDB), o corte orçamentário foi ainda mais drástico.
âO retrocesso das polÃticas públicas fica claro com o desmonte do Conselho Estadual dos Direitos das Mulheres, da Coordenadoria Estadual da Mulher, da Secretaria da Mulher, com o fim da chamada Rede Lilás â um mecanismo da articulação do conjunto de polÃticas públicas de enfrentamento que estava instituindo protocolos. A rede de atendimento à s mulheres no Rio Grande do Sul está hoje fraturadaâ, narra Télia Negrão.
Com a recessão econômica pós-pandemia, momento que em muitas mulheres mesmo saindo do isolamento encontram-se em situação de vulnerabilidade econômica em decorrência do crescente desemprego, Ariane Leitão não enxerga possibilidade de melhorias no quadro. âVai vir um ajuste fiscal muito forte. Sabemos que nas crises econômicas e polÃticas os direitos das mulheres estão entre os primeiros a serem perdidos. Já está acontecendo e vai piorar. Não esperemos investimento público em relação a vida das mulheres. O pior é vivermos nesta polÃtica de morte, onde o Bolsonaro e outros autorizam essa onda de violência fascista e ultraconservadoraâ, lamenta.
A crise que abate os serviços de enfrentamento a violência doméstica antes e durante a pandemia de Covid-19 não é uma exceção do Rio Grande do Sul. Em todo o Brasil, a eleição do presidente Bolsonaro (sem partido) permitiu a ascensão do pensamento ultraconservador e ultraliberal que naturaliza o machismo e suprime polÃticas que garantam o direito à vida das mulheres.
Para Télia Negrão, o impacto das polÃticas de ódio propagadas após o golpe da ex-presidenta Dilma Rousseff (PT) ecoou com profundidade no Rio Grande do Sul fazendo emergir padrões de conservadorismo cultural e machismo muito elevados. A pandemia está dando apenas visibilidade para um problema enraizado: a relação de dominação socialmente estabelecida entre homens e mulheres que autoriza o machismo e, consequentemente, a propagação de violências.
âExistem as tradições gaúchas que são bastantes conservadoras e que colocam as mulheres num papel secundário muito forte. Atualmente, a misoginia é um padrão cultural muito importante no Rio Grande do Sul que chama atenção nesse processo da pandemia. Só transformações sociais profundas dão conta das relações de gênero desiguais que produzem essas ideias de propriedade dos homens sobre as mulheresâ, aponta Télia.
*Portal Catarinas
**Nome fictÃcio para proteger a vÃtima
