Para bem e para mal, sigo acompanhando as discussões e memes que brotam todos os dias na rede social que Elon Musk tenta, de todo jeito, estragar. Para bem porque ainda vem de lá boa parte das bobagens que me fazem rir fininho, sozinha, rolando a tela do celular. E para mal porque sabemos que boa parte do esgoto da internet desemboca por ali. Mas entre uma gargalhada e enquanto espero pelo saneamento básico das redes sociais, vou ficando por lá, como quem espera pra ver o que acontece num fim de festa.
Outro dia mesmo, a discussão da vez surgiu a partir da publicação de uma usuária que dizia que sexo casual só beneficia os homens, âporque o Brasil é lÃder em feminicÃdioâ, e mulheres que se relacionam casualmente âcorrem o risco de não voltar para casaâ. Obviamente, logo o conservadorismo do argumento foi apontado, além do fato de que âvoltar para casaâ é justamente o que vai tornar muitas mulheres vÃtimas de feminicÃdio. Ou de estupro. Ou de outras formas de violência de gênero. E não sou eu que digo isso.
Segundo o último Anuário Brasileiro de Segurança Pública, sete em cada dez vÃtimas de feminicÃdio foram mortas dentro de casa. E em mais da metade do total de casos, o assassino foi o parceiro. Ainda de acordo com o levantamento, a maior parte dos estupros não ocorre em uma rua escura ou uma esquina deserta. E o estuprador não é um âmonstroâ ou um âdoenteâ – 68,3% dos estupros ocorre dentro da casa das vÃtimas, e o agressor é, na maioria absoluta das vezes, um conhecido.
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Veja o que já enviamosMaria da Penha, que deu seu nome à lei que busca proteger mulheres de violência doméstica, que o diga. Seu ex-marido e agressor primeiro atirou em suas costas enquanto ela dormia, causando sua paralisia. Posteriormente, tentou eletrocutá-la para finalizar o que começou. O crime teve alguma justiça, com sua prisão, à s vésperas de prescrever; e recentemente, já solto, Marco Antonio Viveros foi ouvido, por Leda Nagle, para âdar sua versão dos fatosâ. âO opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidosâ, como lembra Simone de Beauvoir. Existe benefÃcio maior do que esse?
Harvey Weinsten, ex-magnata do cinema hollywoodiano, acusado de estupro e assédio sexual por mais de 30 atrizes, teve uma condenação por estupro anulada nos últimos dias pelo tribunal superior da Justiça de Nova York. Os crimes de Weinsten e as denúncias das estrelas foram tão contundentes que, na época, o caso desencadeou o movimento #MeToo, em que incontáveis mulheres denunciaram assédios que viveram usando a hashtag. E em 2024, sete anos depois, a Justiça invalida a condenação do predador, com base no argumento de que ele não teve um julgamento justo. Existe benefÃcio maior que esse?
No fim das contas, querer atribuir ao sexo casual as violências que sofremos é só uma forma cruel de culpabilizar as vÃtimas e cercear a sexualidade das mulheres. Além do velho e bom conservadorismo disfarçado de preocupação com as mulheres. à claro que transar casualmente nos expõe a perigos de alguma forma.
Mas dentro de casa, em relacionamentos duradouros e monogâmicos, não estamos seguras. Se estamos, ainda estamos sujeitas à sobrecarga do trabalho doméstico, da maternidade, do cuidado com as pessoas, e tantas outras. Em relacionamentos não monogâmicos, somos muito mais julgadas pela sociedade do que os homens. Se estamos num relacionamento homoafetivo, somos fetichizadas, objetificadas, desrespeitadas e violentadas, âpra aprender a gostar de homemâ. Se escolhemos ficar solteiras, somos amargas, encalhadas, âficamos pra titiaâ (como se fosse ruim!). Se priorizamos nossas carreiras, somos egoÃstas. Se sonhamos em ser mães, somos submissas, antifeministas. Se nos maquiamos, somos fúteis. Se aparecemos de cara lavada, somos desleixadas. Eu poderia continuar por dias aumentando a lista, e isso porque não complexifiquei as relações de raça, classe, sexualidade, para mostrar que o buraco do patriarcado é muito mais embaixo e engole a nós todas â umas mais, outras menos, mas ninguém escapa.
O sexo casual pode até beneficiar os homens de alguma forma, sim. Mas em um mundo historicamente pensado pelos e para os homens, ainda que muitas de nós teimemos em ir contra a maré, eu prefiro continuar remando bravamente pra cima de qualquer onda de conservadorismo e caretice.
