Questão de fé

Na virada de 2015, a Comlurb recolheu 368 toneladas de lixo das areias de Copacabana

Morte de mãe Stella faz relembrar sustentabilidade nas oferendas no réveillon

Por Flávia Oliveira | ArtigoODS 6 • Publicada em 30 de dezembro de 2015 - 10:49 • Atualizada em 30 de dezembro de 2019 - 11:24

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Na virada de 2015, a Comlurb recolheu 368 toneladas de lixo das areias de Copacabana
Na virada de 2015, a Comlurb recolheu 368 toneladas de lixo das areias de Copacabana

No balaio de contradições que abriga a sociedade brasileira, a baixa proporção de autodeclarados praticantes das religiões de matriz africana é vizinha do robusto rebanho de devotos de Iemanjá. A senhora das águas salgadas, dona de todas as cabeças, é das divindades mais reverenciadas do país. No Rio de Janeiro, as homenagens à beira-mar estão na origem do que hoje é uma das mais famosas festas de réveillon do planeta; em 2011, tornaram-se patrimônio cultural da cidade. Nos dias que antecedem a virada do ano, centenas de milhares de iniciados na umbanda e no candomblé e de fieis de ocasião vão às praias oferecer presentes e lançar pedidos ao orixá. Por numerosas, as oferendas fazem soar o alarme da preocupação ambiental, como já pregava Mãe Stella de Oxóssi, do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, que morreu neste 27 de dezembro de 2018, aos 93 anos.

Quem for consciente e corajoso entenderá que os ritos podem e devem ser adaptados às transformações do planeta e da sociedade. Os ritos se fundamentam nos mitos e nestes estão guardados ensinamentos valorosos. O rito pode ser modificado, a essência dos mitos, jamais.

Mãe Stella de Oxóssi
Iyalorixá do Ilê Axé Opó Afonjá

Na virada de 2015, a Comlurb recolheu 368 toneladas de lixo das areias de Copacabana. Havia muitas garrafas de bebidas, mas também grande quantidade de flores, velas e vidros de perfume, típicos presentes dos devotos. Em Salvador, no dia seguinte ao 2 de fevereiro passado, quando a capital baiana festejou Iemanjá, a empresa local de limpeza urbana retirou uma tonelada de resíduos das praias do Rio Vermelho, epicentro das comemorações.

A transformação do ritual religioso em tradição cultural, não é de hoje, preocupa ambientalistas. Há dez anos, o grupo Nzinga de Capoeira Angola promove a campanha “Iemanjá protege quem protege o mar”, em Salvador. Os ativistas pedem que as oferendas sejam biodegradáveis ou de materiais orgânicos. À frente do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, Mãe Stella de Oxóssi pregava, fazia tempo, contra homenagens que agrediam a natureza. “A gente não leva presente para melar a casa da pessoa”, declarou às vésperas da festa de 2015.

Em 2016, a ialorixá dobraria a aposta. Na semana do Natal, em artigo no jornal baiano “A Tarde”, Mãe Stella convocou filhos de santo a reverenciarem Iemanjá com canto, dança e preces. No texto “Presença, sim. Presente, não”, uma das mais importantes sacerdotisas dos cultos afros do Brasil rejeitava a entrega de barcos, perfumes, espelhos, bijuterias e até mesmo flores no mar. “Quem for consciente e corajoso entenderá que os ritos podem e devem ser adaptados às transformações do planeta e da sociedade. Os ritos se fundamentam nos mitos e nestes estão guardados ensinamentos valorosos. O rito pode ser modificado, a essência dos mitos, jamais”, escreveu.

Em Salvador e Porto Alegre, o sincretismo religioso da umbanda reservou a Iemanjá o 2 de fevereiro, dia dedicado à Nossa Senhora dos Navegantes, santa católica que protege os pescadores. No Rio, a data era, na origem, o 31 de dezembro. Mas o gigantismo do réveillon levou devotos a anteciparem homenagens. No dia 29 de dezembro de 2016, centenas de pessoas participaram de cortejo do Mercadão de Madureira até Copacabana. Para reverenciar a Rainha do Mar, cruzaram 30 quilômetros, passaram por 15 bairros cariocas.

O babalaô Ivanir dos Santos, ativista contra a intolerância religiosa, recomenda que presentes inorgânicos não sejam deixados na natureza: “O que Mãe Stella propôs não é novidade no candomblé. Na Nigéria, a forma milenar de homenagear os orixás não polui. Basta uma cabaça com oferendas e milhares de pessoas cantando e dançando. A questão é como mudar a tradição sem ferir a fé”, diz. Outro ponto é conscientizar os leigos.

As garrafas de bebidas são os resíduos mais comuns, mas há também grande quantidade de flores, velas e vidros de perfume

Em 2006, com apoio da Fundação Palmares, Aderbal Ashogun – sob a consultoria de Mãe Beata de Iemanjá, do terreiro Ile Omiojuaro, há 30 anos em Nova Iguaçu (RJ) – publicou a cartilha “Educação ambiental para religiões afro-brasileiras”. O objetivo era resgatar o saber tradicional das religiões de matriz africana. “Os mais velhos não encontravam tantos resíduos de vidro, plástico, papelão compondo as oferendas. O dito progresso do mundo capitalista deturpou nossa maneira de tratar o meio ambiente. O povo de santo acabou incorporando valores que nos afastam de nossas tradições e justificam mais preconceito contra as religiões afro-brasileiras”, diz o texto.

No rol de práticas sustentáveis sugeridas na cartilha, está o uso de recipientes biodegradáveis (folhas de bananeira e cuias, no lugar de louças, por exemplo). Há recomendação expressa para que o devoto não deixe para trás sacos plásticos e embalagens. “No mar, derrame líquidos de garrafas e frascos de perfumes; retorne com objetos como espelho, pente, sabonete, bijuterias. Cantar, tocar, dançar são opções de oferendas que não deixam lixo”, destaca outro trecho.

O historiador Luiz Antonio Simas confirma que a questão ambiental é crescentemente discutida nas comunidades de terreiro. “Vejo mudanças, sim. O próprio processo de urbanização gera redefinições na estruturação do culto. Percebo um movimento de se combater a hipertrofia ritual, reduzindo o número de coisas utilizadas em oferendas. Em vez de oferecer frascos de perfumes, por exemplo, despeja-se um pouquinho do líquido no mar e descarta-se corretamente o vidro. Estou com Mãe Stella”, sentencia. É a prova de que fé e sustentabilidade podem, sim, andar juntas.

Flávia Oliveira

Flávia Oliveira é jornalista. Especializou-se na cobertura de economia e indicadores sociais. É colunista do jornal O Globo e comentarista no canal GloboNews. É membro do Conselho da Cidade do Rio de Janeiro.

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2 comentários “Questão de fé

  1. Oswaldo Copque disse:

    Muito feliz, ousado e apropriado o discurso de Mãe Stella ao desafiar as pessoas corajosas e conscientes para adaptar os ritos em função das transformações do planeta e da sociedade. Considerando que todo rito esteja fundamentado em um mito. Abrem-se, as perspectivas de novas formas de homenagens. Os saudosos mestres baianos, Dorival Caymmi, o poetinha Vinicius de Morais dentre outros, deixou um imenso legado nas composições de suas obras para a música popular brasileira. Essa campanha é possível de realização, conforme sugere Mãe Stella. Onde estão os artistas da nossa terra para mostrar a riqueza cultural através do canto, da dança e outras formas de expressão? A sua visão aponta que é possível colocar em prática redefinições na estruturação dos cultos, quanto aos costumes, sem mudar a tradição, nem ferir a fé. Por exemplo, troquei o uso de louças por caixa de papelão para oferecer as comidas aos Orixás. Essa é uma singela mudança, que prova que a fé e a sustentabilidade, podem, sim, caminhar juntas.

  2. Gilson&Ray Góes disse:

    Parabéns a excelente jornalista Flávia pelo brilhante artigo sobre a conscientização da poluição do meio ambiente. “A prática do rito pode (e deve) mudar; essência jamais!”

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