Semana de trabalho de quatro dias começa a se espalhar pelo Brasil

Equipe da martech Winnin teve um aumento de 17,33% no equilíbrio entre a vida pessoal e profissional com a semana de trabalho reduzida. Foto acervo pessoal

Tendência de jornada laboral reduzida conquista startups nacionais, que utilizam variados formatos do modelo com suas equipes, e começa a ser estudada por empresas de vários setores

Por Luana Dandara | ODS 8 • Publicada em 4 de abril de 2022 - 15:47 • Atualizada em 13 de abril de 2022 - 10:52

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Equipe da martech Winnin teve um aumento de 17,33% no equilíbrio entre a vida pessoal e profissional com a semana de trabalho reduzida. Foto acervo pessoal

No fim de 2019, a Microsoft do Japão conduziu experimento onde seus funcionários passaram a trabalhar apenas quatro dias da semana, com descanso estendido de três dias. Os resultados foram surpreendentes: aumento de 40% na produtividade dos trabalhadores, enquanto os custos de operação diminuíram, incluindo redução de 23,1% nos gastos de energia. Esse modelo de jornada laboral começou a ser estudado na década de 1970, e vem sendo replicado nos últimos anos em diferentes países – Islândia, Espanha, Bélgica, Japão, Suécia e Nova Zelândia entre outros. Pode parecer uma realidade distante, mas chegou também ao Brasil. Só neste ano, pelo menos duas startups nacionais adotaram a semana de quatro dias em seus negócios, somando-se a outras companhias que trabalham no formato.

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O principal objetivo é a promoção do bem-estar dos trabalhadores, que relatam menos estresse, mais equilíbrio entre vida profissional e pessoal, além de maior entusiasmo e eficácia em suas funções. A agência de comunicação Shoot, por exemplo, não só adotou os quatro dias de trabalho para seus funcionários, como reduziu para seis horas a carga horária diária.

A decisão aconteceu em janeiro deste ano, tomada em conjunto com os 11 funcionários da agência, fundada em agosto de 2010, em Porto Alegre, e adepta do trabalho remoto desde 2018 – bem antes da pandemia. “Depois que vimos que os quatro dias de trabalho faziam as pessoas mais felizes em todos os aspectos e ainda aumentavam (ou mantinham a mesma) produtividade, não tinha por que não se jogar de cabeça”, afirmou Luciano Braga, um dos sócios-proprietários da Shoot, em post no Linkedin.

Artur Scartazinni, CEO da Shoot, explicou que a equipe foi dividida em dois grupos: quatro pessoas trabalham de segunda a quinta, as outras sete de terça a sexta. “Estamos com um time mais focado e mais feliz. Não estamos falando sobre trabalhar menos, mas trabalhar melhor. Não enxergo as tradicionais 40 horas semanais de trabalho como produtividade, e sim como disponibilidade, ter o colaborador disponível para você durante todo aquele tempo. E na Shoot, a gente comercializa projetos e não horas. Organizamos e mapeamos as demandas e pedimos que as pessoas entreguem dentro de suas jornadas”, detalhou Scartazinni, que mora em Barcelona, na Espanha.

O empreendedor e publicitário afirmou enxergar diferença marcante na maneira em que os dois países gerem o trabalho. “Acredito que os brasileiros depositam em seu emprego grande parte da sua motivação. Procuramos muito mais significado no trabalho do que os europeus. Talvez por isso estejamos tão desassistidos nesse momento, depositamos em nossas profissões muitos dos nossos sonhos”, pontuou.

Todos os funcionários da Shoot são regidos pela CLT e não sofreram nenhuma mudança de salário com a novidade. A empresa tem recebido, inclusive, mais currículos e uma procura crescente de outras companhias, que querem entender melhor o modelo para possivelmente adotá-lo.

Para a publicitária Francine Ramos, de 27 anos, funcionária há cinco da Shoot, a semana reduzida de 24 horas de trabalho a permitiu maior dedicação para a formação em Cinema, além de mais tempo para lazer e programações culturais. “Eu me sinto mais motivada e atenta às minhas funções. Nossa gestão de tarefas também ficou mais bem organizada e distribuída”, comentou ela, que mora em Lisboa. “De início, era estranho acordar sexta-feira e não saber como organizar meu dia. Mas foi algo rapidamente superado, e só consigo enxergar benefícios desse modelo. É um dia que tiro para cuidar de mim. A semana de trabalho de 40 horas foi implementada há muitos anos, toda a nossa construção de sociedade e de trabalho era outra. Precisamos repensar e reestruturar esses padrões”.

Martech carioca realiza experimento e comprova benefícios

A martech Winnin, que mapeia dados de consumo, iniciou em agosto de 2021 um experimento para a adoção da semana de trabalho reduzida. A empresa, fundada em 2014 no Rio de Janeiro, atestou aumento de 17,33% no equilíbrio entre a vida pessoal e profissional dos colaboradores, e também no aumento do sentimento de propósito, pertencimento e orgulho em relação à empresa. Outros resultados foram o aumento de 5,68% na produtividade e de 41,93% da percepção do time na atenção para a saúde mental e física, lazer, amigos e família. “Além dessas métricas, vemos que é possível construir uma empresa que cresce de forma muito acelerada (triplicamos de tamanho ano passado) com qualidade de vida. Nosso sonho é seguir crescendo com nossa empresa como exemplo positivo para a sociedade”, escreveu o co-fundador e CEO da Winnin, Gian Martinez, no Linkedin. A postagem tem quase 17 mil curtidas.

A maior parte dos funcionários da Winnin folga sexta-feira, enquanto o time de Operação obedece uma escala de atendimento. O regime é híbrido (entre trabalho remoto e presencial), e a jornada de oito horas vigora nos quatro dias da semana. Atualmente, são cerca de 90 colaboradores, número que vem aumentando. “Foi uma surpresa a produtividade ter aumentado. Esse é um forte impacto em um modelo de trabalho centenário. A produtividade, em minha visão, está alinhada em saber utilizar o tempo de maneira inteligente e estratégica. É o que a gente chama de eficiência”, ponderou Carolina Brito, Head de Gente & Cultura da Winnin.

Os salários dos funcionários não sofreram alterações. “Tenho certeza de que esse é o futuro para o mercado de trabalho. As novas gerações buscam por essa independência maior em relação à vida profissional. Já sofri com um burnout e sei como o descanso é importante”, contou Carolina.

O analista de marketing Flávio Ribeiro, de 38 anos, trocou há quatro meses o antigo emprego, em Santa Catarina, por uma vaga na equipe da Winnin. Segundo ele, tanto o benefício dos quatro dias de trabalho como o home office impactaram fortemente na decisão. “Pude voltar para Macaé (RJ), onde minha família mora, e ganhei mais tempo para cuidar da minha filha, que está com 8 meses. Eu e minha esposa agora temos uma rede de apoio por perto, e às sextas fico livre para estar com a bebê. Me sinto com muito mais qualidade de vida, tem sido extremamente positivo”, elogia Flávio, que se considerava um workaholic, e levou tempo até se adaptar. “De início, me senti até mal por estar um dia sem trabalhar. Mas depois entendi que é uma forma de organizar melhor a jornada. Foi uma virada de chave bem importante”.

Já a jovem Marie Mamedes, de 22 anos, há quatro na Winnin, vivencia em seu primeiro emprego a experiência de trabalhar apenas 32 horas semanais. “Comecei como estagiária, e acompanhei todo o processo. Durante os primeiros meses, utilizei a sexta-feira livre para escrever minha monografia. Agora, formada, foco em resolver minhas questões pessoais. Meu fim de semana ganhou nova roupagem”.

Sociólogo Domenico De Masi há anos defende redução da jornada

O engenheiro de software Tony Westerich, da Crawly, com a filha pequena: mais tempo para a família. Foto acervo pessoal
O engenheiro de software Tony Westerich, da Crawly, no sorvete com a filha pequena: mais tempo para a família. Foto acervo pessoal

A redução da carga de trabalho tem como seus principais defensores o sociólogo italiano Domenico De Masi, autor do livro “O ócio criativo”, de 2000. “As empresas seriam mais criativas, mais produtivas e reduziriam as despesas. Os trabalhadores teriam mais tempo para a vida pessoal, revitalizariam seus relacionamentos com a família, com o bairro, com a cultura, alimentariam a própria criatividade”, enfatizou, acrescentando que o modelo pode ajudar, ainda, a aquecer a economia. Com mais um dia de folga, as pessoas sairiam mais e teriam mais dias para lazer. Como consequência, poderiam consumir mais.

O engenheiro de software Tony Westerich, de 48 anos, tem há quase quatro suas sextas-feiras livres, desde que começou a trabalhar remotamente na Crawly, startup mineira de automação de dados. Ele mora em Blumenau (SC), e costuma aproveitar o dia de folga com a filha caçula, de 7 anos, e para agendas pessoais. “Teve um impacto muito grande em nossa relação. Ela chama do ‘dia de papai e filhinha’. A gente vai tomar sorvete, ao médico… são momentos pequenos e baratos, mas têm efeito tão positivo”, comentou Westerich, emocionado.

Ele não pretende recuar. “Não me vejo mais trabalhando os cinco dias da semana. O excesso de horário de expediente gera muitos impactos negativos. Todo cidadão, independentemente da posição hierárquica, tem assuntos pessoais para resolver. Se não resolve, trabalha com outros assuntos na cabeça, o que é ruim para a empresa. Hoje, realmente produzo nos quatro dias e no quinto cuido das atividades particulares. Os fins de semana são para descanso”, resumiu.

A startup adotou a semana reduzida logo em sua fundação, em 2017, porém apenas para a área de desenvolvimento. Em meados de 2021, funcionários de outros setores foram contemplados com o mesmo benefício. Atualmente, a equipe é composta por 20 pessoas, que trabalham de segunda a quinta, oito horas por dia. Na equipe de marketing, por exemplo, percebi claramente os funcionários mais colaborativos e com novas ideias”, avaliou o head de Marketing da empresa, Thiago Veloso.

A Zee.Dog Brasil, empresa de produtos para pets, anunciou em fevereiro de 2020 a semana reduzida. Contudo, o benefício foi suspenso por conta do início da pandemia, e retomado em fevereiro do ano passado. Por lá, os colaboradores têm, em semanas intercaladas, a quarta-feira de folga. Não houve mudanças salariais ou de tempo de trabalho nos outros dias. “Pesquisamos exemplos na Austrália, Nova Zelândia e no Japão que adotaram a folga na quarta-feira, e vimos como uma oportunidade do funcionário se reenergizar no meio da semana, tornando produtivo tanto o bloco de segunda-feira e terça-feira quanto o de quinta-feira e sexta-feira. Buscamos ao máximo não agendar reuniões e compromissos nos dias ‘off’. Abrimos exceções em casos mais urgentes e específicos e costuma funcionar muito bem”, assinalou Thadeu Diz, fundador e diretor criativo da Zee.

Para o empreendedor, houve um grande ganho na produtividade, mais objetividade em reuniões e melhora na autogestão dos colaboradores. “Resultado é muito importante, como em toda startup, mas também percebemos que produtividade não é tudo. De repente, podemos perceber que o retorno sobre o investimento foi simplesmente em bem-estar e tudo bem. Para os funcionários, é importante passar mais tempo com os filhos ou desenvolver um novo hobby”.

Encontro presencial da equipe da agência de comunicação Shoot. Por lá, os colaboradores trabalham 24 horas semanais. Foto divulgação
Encontro presencial da equipe da agência de comunicação Shoot. Por lá, os colaboradores trabalham 24 horas semanais. Foto divulgação

Lei trabalhista não prevê impedimento para o modelo

Em relação às leis trabalhistas brasileiras, não há nenhum impedimento para que empresas adotem a semana de quatro dias de trabalho, desde que não haja alteração salarial. A Constituição prevê apenas um limite máximo de 44 horas semanais trabalhadas. Basta um acordo entre empregador e empregado, que pode ser feito por um termo aditivo no contrato de trabalho, se o empregador quiser reduzir as horas trabalhadas, ou pelo que chamamos de Acordo de Compensação de Jornada, uma espécie de banco de horas. Na prática, o efeito é ampliar um pouco a jornada de alguns dias, deixando um dia na semana livre para o empregado descansar”, esclareceu o consultor jurídico trabalhista Pedro Capanema Lundgren.

Segundo ele, caso uma companhia queira implantar o modelo, mas reduzir proporcionalmente o salário dos funcionários, seria preciso um acordo com o sindicato. “Só se pode reduzir salário no Brasil se o sindicato da categoria representar o trabalhador. Nessas hipóteses, haverá a redução de jornada proporcional”.

Luana Dandara

Jornalista carioca, com passagens pelos jornais O Globo, O Dia, TV Bandeirantes, entre outras redações. Gosta de ouvir e escrever sobre histórias dos mais diferentes assuntos.

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