à novembro, mês que o povo negro escolheu para celebrar personalidades históricas e reverenciar a luta ancestral por liberdade e direitos. à tempo de o Brasil ser confrontado com as mazelas seculares â desemprego, informalidade, baixa remuneração, atraso escolar, homicÃdio, violência de gênero, perseguição religiosa, pobreza, habitação precária â que alcançam os autodeclarados pretos e pardos, 55,8% da população, segundo o IBGE. Justiça seja feita, não é de agora a encomenda destas linhas pelo #Colabora. Foi meu cotidiano de compromissos que empurrou as reflexões sobre âEscravidãoâ (Editora Globo, 479 páginas, R$ 49,90) para o Dia Nacional da Consciência Negra, homenagem a Zumbi dos Palmares, lÃder do mais conhecido quilombo brasileiro e herói nacional desde 1997. Em 20 de novembro de 1695, ele foi morto e decapitado por bandeirantes, Domingos Jorge Velho à frente, escalados pelas autoridades coloniais. Daà a data.
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Laurentino Gomes, autor de â1808â, sobre a chegada da famÃlia real ao Brasil, â1822â, sobre a Independência, e â1889â, sobre a proclamação da República, iniciou há seis anos o projeto da trilogia que investiga a brutalidade seminal do paÃs. Jornalista e escritor best-seller, com 2,5 milhões de livros vendidos, ele lançou em setembro o volume inicial da série, que abarca três séculos: do primeiro leilão de cativos em Portugal, em 1444, ao assassinato de Zumbi. O segundo livro sai em 2020 e cobrirá o século XVIII, auge do tráfico negreiro no Oceano Atlântico. O terceiro vai do movimento abolicionista ao século XXI; será lançado em 2022, ano do bicentenário da Independência.
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Veja o que já enviamosâEscravidãoâ estreou em setembro último na Bienal do Livro do Rio de Janeiro. Desde então, lidera as vendas de não ficção no paÃs, informa o site âPublishNewsâ. Num par de meses, ultrapassou a marca de 40 mil exemplares comercializados. O prestÃgio do autor fez do perÃodo nefasto interesse nacional. E tornou âEscravidãoâ obra obrigatória de 2019. Como o próprio Laurentino gosta de dizer, não se trata de produção definitiva sobre o tema: âà uma, não a históriaâ.
A obra é um compilado de produção acadêmica, entrevistas, estatÃsticas, mapas, fotos e relatos de visitas do escritor a uma dúzia de paÃses de três continentes (Ãfrica, América e Europa) organizado em 30 capÃtulos-reportagens. Tem a linguagem leve e o texto acessÃvel que são a chave do sucesso de um dos mais festejados autores do paÃs. Percorri âEscravidãoâ num só fôlego, me preparando para entrevistar Laurentino Gomes na Bienal.  A seguir, 12 pontos que me chamaram atenção, por arrasadores, polêmicos, surpreendentes, revoltantes.
1 – Homem branco, Laurentino Gomes reivindica lugar de fala para tratar do perÃodo escravocrata sob o que chama de âolhar atentoâ. Reconhece que seria indevido ou falso tentar expressar a dor e o sofrimento do âolhar negroâ, que nunca experimentou. Mas como repórter, pesquisador, descendente de imigrantes italianos e de um lÃder abolicionista e republicano de Minas Gerais, está habilitado a tratar da escravidão. âSua história e seu legado são temas do meu interesse, como deveriam ser para todos os demais 210 milhões de brasileirosâ, escreveu. Com razão.
2 – Já na introdução, o autor trata de suas escolhas linguÃsticas. Embora compreenda a diferença de significados de palavras como escravo (substantivo ou adjetivo que remete à condição natural) e escravizado (situação circunstancial), optou por usar no livro o par de palavras incorporadas aos âusos e costumes da lÃngua portuguesaâ, bem como cativo. Dono e senhor de escravos também estão no texto, assim como Ãndio, que guarda conotação negativa para os povos indÃgenas; e descobrimento (do Brasil), quando historiadores têm preferido a palavra chegada (dos colonizadores).
3 – O uso de mão de obra cativa alicerçou todas as antigas civilizações; atravessou diferentes regiões, etnias e povos. Na Rússia,  de 5% a 15% da população eram escravizados até 1725. Na China e na Ãndia, 10% dos habitantes eram cativos em 1800. Houve escravidão de brancos na Europa. Mas foi a colonização da América que deu ao sistema escala mercantil, via tráfico e venda de corpos negros africanos. A exploração associada à cor da pele também nasceu ali. Foi a escravidão que pariu o racismo.
4 – O primeiro registro de tráfico atlântico foi da América para a Europa, não o contrário. Cristóvão Colombo cruzou o oceano em 1493 com indÃgenas sequestrados da Ilha de Santo Domingo para Sevilha, na Espanha. Em 1511, Fernando de Noronha, que batiza o arquipélago famoso da costa nordestina, levou para Portugal peles de onça, toras de pau-brasil e 35 nativos. Quando os colonizadores chegaram, o Brasil tinha entre três e quatro milhões de indÃgenas, que falavam mais de mil lÃnguas. Em 1808, eram 700 mil. Eles foram escravizados e dizimados. O genocÃdio dos povos nativos foi âuma das maiores catástrofes demográficas da história humanaâ, nas palavras do autor de âEscravidãoâ.
5 – O livro escancara o papel central das religiões na escravidão. O sistema foi a base da expansão do islã. Cerca de 12 milhões de negros africanos foram capturados e exportados por Saara, pelo Mar Vermelho e Oceano Ãndico dos séculos VII ao XIX. Foi praticamente o mesmo número de embarcados para a América em 350 anos. A Igreja Católica, até o fim do século XIX, nunca se pronunciou contra a escravidão. Mais que isso, ajudou a construir a base ideológica do regime no Novo Mundo, seja naturalizando o tráfico negreiro, seja ratificando a discriminação racial contra pretos e pardos. Sem falar no apoio à s expedições marÃtimas a cargo de fanáticos extremistas, que forçavam a conversão de africanos e indÃgenas. O autor chega a comparar as missões jesuÃtas aos jihadistas deste século.
6 – Naturalizada, a escravidão alcançou nomes respeitáveis da História mundial. Aristóteles era senhor de escravos; Thomas Jefferson, autor da Declaração de Independência dos Estados Unidos, idem. Tiradentes, herói da Inconfidência Mineira, foi dono de seis cativos. John Newton, autor de âAmazing Graceâ [hino evangélico que o então presidente dos EUA, Barack Obama cantou em Charleston (Carolina do Sul) no funeral de um pastor metodista chacinado junto com oito fiéis], foi capitão de navio negreiro. Garcia DâÃvila, que batiza uma das ruas mais famosas de Ipanema, Zona Sul carioca, é festejado como o homem que trouxe a pecuária ao Brasil. Foi, contudo, especialista em capturar e escravizar indÃgenas, tal qual os bandeirantes Raposo Tavares e Fernão Dias, nomes de rodovias em São Paulo. Em guarani paraguaio, banderante é sinônimo de bandido. Sobrenomes como Souza, Silva, Santana, Chagas, Santos, Almeida e Medeiros pertencem a linhagens nascidas de ex-cativos brasileiros que retornaram à Ãfrica, os agudás.
7 – De 1500 a 1867, 12,5 milhões de africanos atravessaram o Atlântico em 36 mil viagens de navios. Chegaram vivos à América, 10,7 milhões; no caminho 1,8 milhão de pessoas morreram. Por dia, em média, 14 corpos eram lançados ao mar, a ponto de tubarões mudarem suas rotas migratórias para seguir os tumbeiros. Sozinho, o Brasil recebeu 4,9 milhões de africanos, enquanto 750 mil portugueses entraram no paÃs em três séculos e meio. Em 1872, a esperança de vida de um escravizado era de 18,3 anos, contra 27,4 anos da média da população. O extermÃnio da juventude negra vem de longe. Na época da Lei Ãurea, em 1888, havia cerca de 700 mil cativos, em consequência do alto número de alforrias e da baixa taxa de natalidade nas senzalas.
8 – O comércio atlântico de africanos era orientado por dois grandes sistemas de correntes marÃtimas e ventos. Um, dominado por brasileiros e portugueses, favorecia as viagens de navios entre o litoral brasileiro e as regiões de Angola, Congo, Nigéria e Benim. Outro facilitava rotas entre Europa, Gana, Senegal, Caribe e América do Norte; era controlado por britânicos, holandeses e franceses.
9 – A presença feminina é modesta no primeiro volume de âEscravidãoâ. Há um capÃtulo dedicado à Catarina de Bragança, rainha de Portugal e Inglaterra, que foi acionista da empresa RAC, monopolista britânica do tráfico de escravos. Outra parte é dedicada à Rainha Jinga, de Angola, que comandou guerrilhas contra os portugueses, aliou-se aos holandeses e morreu devota católica. No texto sobre Palmares há uma referência à Aqualtune, mãe de Ganga Zumba, avó de Zumbi, mas nenhuma linha sobre Dandara. Na entrevista, o autor explicou que não há documentos comprovando a existência da mulher de Zumbi, guerreira de Palmares, figura de referência para negras brasileiras. A equação é complexa, em razão da tradição oral de transmissão de conhecimentos nas culturas africanas. O segundo volume de âEscravidãoâ, promete, terá mais participação feminina, pela existência de registros, a começar por Xica da Silva.
10 – No mais polêmico capÃtulo, o autor põe em dúvida a existência de Zumbi, herói de Palmares. Reparte o personagem em três fases: ameaça para os portugueses e o sistema escravagista; risco à identidade nacional pela insubordinação; e Ãcone do movimento abolicionista e da luta por liberdade do povo negro. Laurentino diz que o Zumbi heroico é fruto de âum esforço deliberado de distorcer a pesquisa histórica com óbvio propósito ideológicoâ. Afirma que a documentação histórica desmente as biografias construÃdas pelos historiadores Décio Freitas e Joel Rufino dos Santos e incorporadas ao site da Fundação Cultural Palmares. âEscravidãoâ apresenta o Zumbi gay, descrito em ensaio do antropólogo Luiz Mott.
11 – O autor reconhece a beleza e o encantamento da herança africana. Nenhum outro assunto foi tão importante e definidor para a construção da identidade brasileira quanto a escravidão, sinônimo de trabalho árduo, violências, humilhações, exploração e discriminação. Contudo, enumera: âSão da Ãfrica a capacidade de resistência e adaptação, a resiliência, a criatividade, o vigor, o sorriso fácil, a hospitalidade, alegria, a música, a dança, a culináriaâ. E evoca o pensamento do sociólogo francês Roger Bastide: âA escravidão não apenas divide, ela também une o que divideâ.
12 – O livro não termina na edição impressa. Laurentino Gomes é presença constante nas redes sociais. Além de interagir com leitores, pesquisadores, escritores e colegas jornalistas, compartilha conteúdos em vÃdeo dos caminhos que percorreu para construir a obra. Sigam @laurentinogomes no Twitter e @laurentino.gomes2018 no Instagram.
