(Wanessa Oliveira/MÃdia Caeté*) – Chega ao seu quarto ano, e em absoluto sigilo, o inquérito aberto pela PolÃcia Federal (PF) que deve apurar a responsabilização criminal da Braskem em relação à abertura de minas de exploração da sal-gema, operação iniciada ainda na década de 1970 e que provocou a subsidência do solo nos cinco bairros e todo o desastre socioambiental em Maceió. Em meio a questionamentos e manifestações de receio de impunidade por parte de moradores, o órgão federal não informa sequer se há qualquer previsão para conclusão ou possÃvel oferta de denúncias.
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Questionado, o órgão limitou-se a responder que âa PolÃcia Federal não se manifesta sobre eventuais investigações em andamentoâ, o Ministério Público Federal emitiu uma nota informando que a investigação tramita sob sigilo para garantir a efetividade da persecução penal, que é do maior interesse público.
âEm 2019, após o laudo conclusivo do Serviço Geológico do Brasil (SGB/CPRM) descartar causas naturais para o fenômeno, foi requisitada a instauração de inquérito policial à PolÃcia Federal, em Alagoasâ, descreveu o MPF, em nota. âDesde o inÃcio, a prioridade foi a salvaguarda das pessoas em área de risco. à notória a complexidade dos fatos em andamento e, portanto, sob investigação, demandando uma apuração ampla, criteriosa e responsável para individualização correta das condutasâ.
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Veja o que já enviamosMais adiante, o órgão também alerta sobre os riscos de comprometimento da ação penal, no caso de oferta de denúncia de forma precoce. âEventual propositura precoce de denúncia pode levar ao trancamento da ação penal, razão pela qual o inquérito policial conduzido pela PolÃcia Federal, com a coleta de provas suficientes, se faz imprescindÃvel para o êxito da persecução penalâ.
Para as vÃtimas da Braskem, entretanto, o tempo de investigação e a ausência completa de informações intensificam o medo de impunidade e demonstram, ainda, uma falta de transparência em relação ao que vem sendo encaminhado. Para o Procurador Regional do Trabalho e uma das vÃtimas da mineração, Cássio Araújo, esse receio está conectado também com a forma como os órgãos públicos têm operado em relação ao caso, incluindo em relação à s outras responsabilizações administrativa e civil.
âEm plano geral, nosso direito tem três tipos de responsabilização. A Civil, a Administrativa, e a Criminal ou Penal. A responsabilização civil se resolve de dois modos: ou com a obrigação especÃfica, que é exigindo que a pessoa conserte o que fez de errado. Não sendo possÃvel o conserto, que pague uma indenização, após devida avaliação, que venha a equivaler à quilo que deveria ser consertado, compensando o que não se pode voltar atrásâ, explica. âJá na responsabilização administrativa, a consequência é posta na relação em que o praticante do erro tenha com a administração pública, a exemplo de perder uma licença de funcionamentoâ.
Finalmente, a responsabilização penal configura na possÃvel perda da liberdade individual, para o caso de determinadas situações serem vistas como crimes mais sérios, segundo Araújo.
âNo caso da Braskem, em relação à responsabilização penal, temos essa força-tarefa do Ministério Público Federal, que culminou na abertura de um inquérito há quatro anos. E, até agora, não se sabe se pessoas foram ouvidas, se foram pedidos laudos técnicos, ou quebra de sigilo bancário. Ninguém sabe absolutamente nada. Nos preocupa, ainda, porque as penas previstas em crimes ambientais são pequenas, e vem o receio do risco de prescrever e o crime ficar impune. Se em todos os outros campos, a transparência é muito prejudicada, neste caso ela tem sido absoluta, porque tem um caixa-preta e tudo o que sabemos é que existe uma caixaâ, relata. âà tudo intransponÃvelâ.
Coordenadora do Movimento Unificado de VÃtimas da Braskem, MUVB, Neirevane Nunes, reforça: âà um absurdo como tem se comportado esta questão do inquérito. São quatro anos que foi aberto. Ainda foi solicitada uma queixa-crime pela Associação de Empreendedores e VÃtimas. Os advogados foram procurar a PolÃcia Federal para buscar algum acesso e também foi negado. Nós, vÃtimas, estamos revoltados com a morosidade e a inoperância em relação a esse casoâ.
Durante sua posse, a superintendente da PolÃcia Federal em Alagoas, delegada Luciana Paiva Barbosa, chegou a declarar que a investigação sobre os danos causados pela Braskem em Maceió seria a prioridade do órgão, âpara encerramento do ciclo de dor das famÃliasâ. A afirmação, entretanto, foi feita em março deste ano. Desde então, nenhum outro pronunciamento foi verificado pelo órgão.
*Wanessa Oliveira, jornalista graduada pela Universidade Federal de Alagoas, com MBA em Jornalismo PolÃtico (UGF) e mestrado em Sociologia (UFAL), é cofundadora e editora da MÃdia Caeté
