As mulheres da geração do milênio estão furiosas: âQuem disse que o voto para presidente tem a ver com útero?â, perguntam. â Isto é a doença infantil do feminismoâ reclamam, adaptando um clássico do comunismo aos tempos de hoje. Enquanto caÃamos no carnaval, duas gerações de mulheres entravam em conflito diante de uma perguntinha básica: tinham elas obrigação de apoiar Hillary Clinton, a primeira entre nós com reais possibilidades de ser presidente dos Estados Unidos? As feministas históricas acham que sim, as jovens dizem não.
[g1_quote author_description=”Jovem eleitora de 23 anos” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Vergonha acharem que votarÃamos só por uma questão de gênero.
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Veja o que já enviamosâTem um lugar no inferno para as mulheres que não ajudam as mulheresâ, provocou Madeleine Allbright, a primeira Secretária de Estado dos Estados Unidos, poderosÃssima na época de Bill Clinton presidente. Gloria Steinem, um Ãcone do feminismo, ainda tão bonita aos 81 quanto a atriz Susan Sarandon aos 69, foi ainda mais desastrada: as meninas apoiam Bernie Sanders para presidente porque só vão fazer polÃtica quando estiverem mais velhas, agora querem encontrar os rapazes e eles estão fazendo campanha para o senador, o candidato-revelação desta eleição.
à uma livre tradução das palavras de Gloria Steinem, mas o tom delas foi tão ofensivo como soa em português. E provocou, claro, a fúria das mulheres nas redes sociais, obrigando as duas a pedirem desculpas. Hillary, que rira e aplaudira quando Albright prometeu a danação eterna à s âtrairasâ, também teve de se distanciar da opinião das companheiras de viagem. âVergonha acharem que votarÃamos só por uma questão de gêneroâ, disse uma jovem de 23 anos, descrevendo-se como feminista.
[g1_quote author_name=”Madeleine Allbright” author_description=”ex- Secretária de Estado dos Estados Unidos” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Tem um lugar no inferno para as mulheres que não ajudam as mulheres.
[/g1_quote]As mulheres progressistas racharam. As pioneiras da década de 60 contavam com o entusiasmo das jovens para impulsionar a campanha de Hillary pela nomeação do Partido Democrata à Presidência e ficaram mexidas com o apoio da nova geração ao senhorzinho de 76 anos, atrevido e energético senador socialista de Vermont, que vem conquistando de corações e mentes de multidões nos Estados Unidos.
Os resultados da primária de New Hampshire, terça-feira, expõe uma dolorosa rejeição à Hillary e explicam o nervosismo das veteranas: foram as mulheres, especialmente as mais jovens, que deram a Bernie uma vitória por 21 pontos, ao contrário de 2008 quando foram elas que ajudaram a derrotar o então jovem Barack Obama nesse mesmo estado. Esta semana, a maioria das mulheres (55%) e dos jovens preferiu Sanders, Hillary só recebeu 16% dos votos de jovens de menos de 29 anos e 32% dos adultos entre 30 e 44. Entre as mulheres com menos de 30, 82% votaram Bernie, talvez com a ajuda desastrada de Madeleine Albright e Gloria Steinem.
Hillary tem um problema: credibilidade. Ex-primeira-dama, ex-senadora, ex-adversária de Obama na disputa pela nomeação democrata em 2008 e ex-secretária de Estado até 2013, ela mudou de estilo e reformatou ideias tantas vezes que acabou tornando-se uma incógnita para a maioria dos americanos. Tá bom que ninguém é a mesma ao longo de 25 anos, mas ela foi uma metamorfose ambulante durante esse longo perÃodo sob os holofotes do mundo. âà a pessoa mais opaca que encontrei na vidaâ, disse seu ex-colega de Senado Charles Schumer.
Quem é a Hillary 2016? No seu perfil do twitter, ela é âmulher, mãe, avó, advogada, defensora de mulheres e crianças, autora, aficionada por terninhos, dona de um cachorro, determinadaâ. Nesta campanha para ocupar o cargo mais poderoso do planeta, ela promete ajudar a estilhaçar o teto de vidro que limita o acesso das mulheres aos postos top da carreira, seja no comando de empresas, na escola da esquina ou no mundo das artes. A trilha sonora nos seus comÃcios frequentemente fala do âempoderamentoâ das mulheres e ela frequentemente discute o seu papel de avó.
à uma volta ao tempo em que iniciou sua carreira solo, ainda primeira-dama, magrinha e jovem, com cabelos longos, louros e cacheados nas pontas. Usava um terninho cor de rosa, saia justa e saltos altos, quando subiu ao palco da conferência internacional das mulheres em Pequim – a maior da ONU – e levou os chineses à loucura ao ousar tocar num tema proibidÃssimo pelo regime nos idos de 1985. âPor muito tempo a história das mulheres foi uma história de silêncio, é tempo de romper este silêncioâ, anunciou, enumerando uma longa lista de abusos aos direitos da mulher.  Só para lembrar, enquanto vigorou a polÃtica do filho único, muitas famÃlias chinesas matavam os bebês do sexo feminino. As palavras de Hillary criaram um inusitado incidente diplomático porque, pela primeira e talvez única vez na história, uma primeira-dama teve um discurso censurado.
A agenda de gênero não entrou na campanha da candidata à presidente em 2008, em que o lado âmachoâ da senadora combinava mais com sua ambição de não destoar do figurino do establishment de Washington. Foi um erro, claro, todos vimos aquele desconhecido polÃtico de Illinois emocionar e empolgar os EUA com sua convicção de que nós podÃamos e querÃamos mudar tanto o paÃs quanto a polÃtica de Washington.
De novo, a bilionária campanha de Hillary não está dando certo. Os eleitores ainda não mostram entusiasmo com a possibilidade de ela virar a primeira Madam President. Foi dada à filha Chelsea a tarefa de conectá-la com a geração do milênio, aquela que no passado preferiu Obama e agora está entusiasmada com Bernie Sanders. O senador nem é tão bom orador quanto Obama, mas tem uma mensagem poderosa. âPara mim, riqueza e desigualdade são a questão moral dos nossos tempos, é a grande questão polÃtica e econômica atualâ, diz.
Até aÃ, nada: o FMI e o Banco Mundial já disseram isso, mas ele emenda na denúncia do poder dos bilionários doadores de campanha sobre a agenda polÃtica dos EUA. âJá deu, esta grande nação e seu governo pertencem a todos e não a um punhado de bilionários, seus super PACs (Comitês de Ação PolÃtica) e lobistasâ, diz Bernie.
à um dardo que atinge o coração da campanha de Hillary, irrigada pelo dinheiro de Wall Street e de Silicon Valley, das velhas e novas fortunas. Este é o ano em que o eleitor mais desconfia dos polÃticos tradicionais e abre seu coração para os outsiders. âSinta Bernieâ é o mantra dos jovens e é tema do melhor jazz tocado nos clubes nova iorquinos, ou seja, Bernie virou cool.
âHillary não nos faz sonharâ, diz uma estudante, aluna da ex-diretora do New York Times, Jill Abranson, agora professora de Harvard.
O mesmo sentimento tem Dana Edell, diretora executiva do Spark Movimento, um grupo de advogados pela justiça de gênero.
âTer uma mulher presidente seria importante e passaria uma imagem poderosa para inspirar mulheres e homens jovens, mas talvez ela não seja a mulher certa para este papelâ.
A campanha ainda está no começo. Todas as pesquisas indicam Hillary como a mais provável vitoriosa nessa eleição: ela é preparada e detalha cada uma de suas propostas mas falta comprometimento com as angústias dos cidadãos comuns, ainda vivendo os efeitos da crise econômica de 2008 e confrontado com o enriquecimento quase âescandalosoâ do andar de cima. à disso que Bernie trata. Mas bacana em toda esta história é ver que as jovens não acham nada de extraordinário uma mulher virar presidente dos EUA e isso tem a ver com a luta das veteranas feministas.
