Tintin caiu na rede chorando as vÃtimas dos atentados em Bruxelas; suas lágrimas são das cores da bandeira belga. à um conhecido fenômeno de nosso tempo; como um cacoete, estampas de futuras camisetas viralizam internet afora, mal a tragédia se deu. São imagens que carregam uma pilha de significados: de acordo com o humor do usuário, podem ser decodificadas como a hashtag de descargo de consciência do momento, apenas mais um ato de indignação-ostentação, ou mesmo uma manifestação sincera de pesar. Esta, em especial, embute um ato falho que pode ajudar a explicar o clima de ressentimento entre a Europa e suas antigas colônias.
O intrépido repórter Tintin é um sÃmbolo da Bélgica, assim como a batata frita. O personagem foi criado pelo quadrinista Georges Remi, o Hergé (1907-1983), em 1929. Nasceu, portanto, na Europa colonialista do entre guerras. Em suas aventuras, lançava-se ao mundo resolvendo mistérios e exportando o european way of life, os modos do homem civilizado. Sem dúvida é um produto de sua época; pode-se dizer que os valores de seu autor, também.
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Veja o que já enviamosSobre Hergé pesavam outras acusações abomináveis: dizia-se também ser antissemita, misógino e simpatizante do nazismo. Mas não se pode afirmar que não reconhecia os seus erros – não cabe considerar os motivos.
[/g1_quote]Igualmente se pode dizer que no primeiro álbum do herói, âTintin no PaÃs dos Sovietesâ (1930), Hergé, por puro preconceito, atirou no que viu e acertou no que não viu. Sua criação cristã e burguesa o fez antecipar em algumas décadas a autocrÃtica que a esquerda se obrigou a realizar, ao retratar os lÃderes bolcheviques como tiranos gananciosos. No segundo, porém, errou feio, sem direito a revisão histórica: âTintin no Congoâ (1931) legou-lhe a pecha de racista que resiste até hoje. Os congoleses de seus quadrinhos são indivÃduos totalmente obtusos, praticamente inimputáveis, pouco mais do que macacos. O Congo era colônia belga, e os belgas não foram colonizadores gentis. âConhecia deste paÃs apenas o que as pessoas contavam na época: âos negros são grandes crianças, felizmente estamos lá!â. E desenhei os africanos de acordo com estes critérios, de puro espÃrito paternalista, que era o da época na Bélgicaâ, disse o autor em seu favor.
Sobre Hergé pesavam outras acusações abomináveis: dizia-se também ser antissemita, misógino e simpatizante do nazismo. Mas não se pode afirmar que não reconhecia os seus erros – não cabe considerar os motivos. Em seu quinto álbum, âO Lótus Azulâ (1936), por exemplo, tomou como colaborador o jovem estudante chinês Chang Chung-jen, para evitar embaraços. Seguiu cometendo atrocidades nos seguintes (as vÃtimas de âTintin no PaÃs do Ouro Negroâ, de 1950, foram ninguém menos do que os árabes), mas não se furtou de redesenhar histórias inteiras, caso julgasse necessário. O racismo de âTintim no Congoâ foi atenuado em reedições posteriores; mesmo assim, ainda incomoda um bocado.
Entretanto, se o autor reconheceu suas faltas, o espÃrito paternalista e supremacista daquela época de certa forma permaneceu, travestido de razão. Em 2007, o cidadão congolês Bienvenu Mbutu Mondondo pediu à Justiça belga que âTintim no Congoâ fosse interditado ou, ao menos, que fosse incluÃda nas novas edições um texto introdutório que explicasse o contexto da época em que foi publicado pela primeira vez. Seu advogado, Ahmed LâHedim, argumentou: âImagine uma menina negra de 7 anos descobrindo âTintim no Congoâ com os colegas de escolaâ.
Os juÃzes, contudo, consideraram que Tintim não só não era âracistaâ como âcultivava a amizadeâ com os personagens negros âcontribuindo para a paz entre as tribos, colocando a sua vida em perigo para socorrer o próximo, e luta contra o mal que está representado por um personagem branco e não negroâ. Em sua decisão tomada de cima para baixo, a corte ainda condenou Mondondo e o Conselho Representativo das Associações Negras de França, que impetrou a ação junto com ele, a pagarem uma indenização simbólica de 110 euros à s editoras Moulinsart e Casterman, detentoras dos direitos sobre os quadrinhos do personagem.
à um caso exemplar: lê-se claramente nas entrelinhas da sentença do tribunal belga que o que é bom para a Europa, é bom para o mundo. O Velho Continente acredita que atingiu tal grau de civilidade que os seus valores são absolutos – e que o seu critério para determinar o que deve ser admitido em nome de liberdade de expressão, entre outros princÃpios, é infalÃvel. Tintin chora os seus mortos sem se dar conta de seu papel na tragédia.
