Nascido na Polônia em 1925, o sociólogo e filósofo Zigmunt Bauman começou sua carreira acadêmica no inÃcio na década de 1950. Mas foi só depois da publicação de  âModernidade lÃquidaâ (2000), que veio a se notabilizar como um crÃtico da modernidade, por ele definida como âlÃquidaâ, numa série de tÃtulos que inclui amor, vida, tempo, medo, vigilância, cultura, sociedade, todos com a mesma tônica: a volatilidade imposta pelas formas tardias do capitalismo nos empurram para uma vida sem bases sólidas sobre as quais nos apoiar. O diagnóstico fez eco na experiência cotidiana e impulsionou a venda de seus livros âlÃquidosâ, a despeito dos crÃticos que identificaram um certo tom nostálgico nas suas proposições. Editado no Brasil pela Zahar, Bauman tem 38 tÃtulos traduzidos no paÃs.
[g1_quote author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”solid” template=”01″]O indivÃduo liberal pós-moderno de Bauman era aquele cuja liberdade se exercia consumindo tudo que o mercado pudesse oferecer e vinha responder ao projeto de fim da história, aqui entendido como o ocaso das utopias socialistas e vitória da democracia liberal cuja principal referência é a sociedade norte-americana. Se todas as frases estão no passado é porque nada parece mais evidente hoje do que o fracasso desse modelo supostamente triunfante e alvo da arguta análise de Bauman.
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Veja o que já enviamosQuando, em 1997, Bauman publicou âO mal-estar da pós-modernidadeâ, parodiou o tÃtulo de Freud (âO mal-estar na civilizaçãoâ) e identificou esse mal-estar na exigência de liberdade individual, fazendo assim uma crÃtica à s promessas liberais de realização de uma vida sem limites. O indivÃduo liberal pós-moderno de Bauman era aquele cuja liberdade se exercia consumindo tudo que o mercado pudesse oferecer e vinha responder ao projeto de fim da história, aqui entendido como o ocaso das utopias socialistas e vitória da democracia liberal cuja principal referência é a sociedade norte-americana. Se todas as frases estão no passado é porque nada parece mais evidente hoje do que o fracasso desse modelo supostamente triunfante e alvo da arguta análise de Bauman.
Seu mais novo livro a ser lançado no Brasil trata de um tema que lhe foi caro: âEstranhos à nossa portaâ discute o atual problema dos refugiados, especificamente na Europa onde Bauman também foi imigrante. Dos horrores do holocausto na Polônia, ele fugiu para a URSS, em 1939, e se filiou ao Partido Comunista. Depois da guerra, voltou à Polônia, onde se casou com Janine. O casal trocou o paÃs natal pela Inglaterra desde os anos 1970. âEstranhos à nossa portaâ reconhece que âa migração em massa não é de forma alguma um fenômeno recente. Ele tem acompanhado a era moderna desde seus primórdiosâ, outro modo de dizer que não há necessariamente novidade naquilo que parece novo.
[g1_quote author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”solid” template=”01″]A vida lÃquida escorre pelos dedos e pelos cliques, pelas mensagens instantâneas, pela sucessão de projetos profissionais a serem sempre substituÃdos por alguma ânovidadeâ. Velocidade, volatilidade, obsolescência programada, entrega voluntária a dispositivos de controle são alguns dos sintomas de liquidez que Bauman encontrou nos modos de vida contemporânea. Não sem algum tom de nostalgia.
[/g1_quote]A movimentação de pessoas já o preocupava em 1999, quando escreveu que âhoje em dia estamos todos em movimentoâ, outro modo de dizer que não há necessariamente novidade no que parece novo. Era um livro crÃtico à globalização e suas consequências e antecipava uma das contradições do capitalismo contemporâneo: fazer circular pessoas e mercadorias e ao mesmo tempo impedir que certas pessoas ou determinadas mercadorias circulem, em polÃticas de proteção de fronteiras e de interesses econômicos, o que na maioria dos casos é a mesma coisa.
Embora Bauman estivesse se referindo ao deslocamento de seres humanos pelo mundo, estava também antevendo o fenômeno da hiperconectividade como um imperativo de velocidade impossÃvel de ser atendido, tal qual a exigência da liberdade. A vida lÃquida escorre pelos dedos e pelos cliques, pelas mensagens instantâneas, pela sucessão de projetos profissionais a serem sempre substituÃdos por alguma ânovidadeâ. Velocidade, volatilidade, obsolescência programada, entrega voluntária a dispositivos de controle são alguns dos sintomas de liquidez que Bauman encontrou nos modos de vida contemporânea. Não sem algum tom de nostalgia.
[g1_quote author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”solid” template=”01″]Bauman rejeitava as mesmas transformações, em um livro fácil de agradar aos que gostariam de eliminar o aspecto errante da existência, mas que só se sustenta se esquecermos todas as violências das tradicionais sociedades patriarcais
[/g1_quote]Em âAmor lÃquidoâ, por exemplo, é fácil de perceber o saudosismo que sua obra foi ganhando. Enquanto outro sociólogo, o inglês Anthony Giddens, tentava dar conta das profundas mudanças nas relações afetivas ao escrever âA transformação da intimidadeâ (1993), Bauman rejeitava as mesmas transformações, em um livro fácil de agradar aos que gostariam de eliminar o aspecto errante da existência, mas que só se sustenta se esquecermos todas as violências das tradicionais sociedades patriarcais. Se a vida contemporânea se liquefaz, isso não quer necessariamente dizer que o passado era melhor.  à verdade que os discursos de pânico moral consideram as modificações nas relações, amorosas e familiares formas de desestruturação da vida social. Para pessoas cujas trajetórias de vida se abriram a outras perspectivas, a arranjos afetivos distantes de padrões impostos por estruturas capitalistas e patriarcais, é difÃcil olhar para o presente apenas de modo negativo, por pior e mais pessimistas que estejamos hoje.
