Entre os méritos das recentes ações desencadeadas no âmbito da Operação Lava-Jato está a abertura de oportunidades para debates relacionados a questões que vão muito além das operações policiais. à uma chance que, acredito, está proporcionando a milhares de professoras e professores e a milhões de pais e mães discutir questões relacionadas ao que Aristóteles sabiamente se referiu com a singela expressão âvida boaâ: o que uma sociedade, este conjunto de pessoas que decidiu viver junto num espaço territorial, quer para si mesma? O mundo em sociedade, inclusive o mundo polÃtico, não se resume à descrição do que Nelson Rodrigues (com ecos distantes, mas bem nÃtidos, de Maquiavel) chamaria de âa vida como ela éâ. Professores e pais (e sou pai e professor) ganharam contexto para falar com os mais jovens sobre a âvida como ela deve serâ.
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Veja o que já enviamosFilosofia polÃtica deixou de ser algo que, não sei por que cargas dâágua, passou a ser considerada inútil no debate polÃtico brasileiro
[/g1_quote]Apanhei a mim mesmo explicando para meus alunos o conceito de Aletheia – Parmênides e Heidegger no Jornal Nacional! Para minha filha de 7 anos, e até mesmo para a de 4, o profundo significado por trás da expressão âerga omnesâ â por trás do âjuridiquêsâ dos âdireitos e obrigações que valem igualmente para todosâ está a intuição de Rousseau, posteriormente formalizada por Kant, de que as pessoas são iguais. Filosofia polÃtica deixou de ser algo que, não sei por que cargas dâágua, passou a ser considerada inútil no debate polÃtico brasileiro. Pelo contrário, tornou-se um dos fundamentos que podem iluminar nossa saÃda do âmundo como ele éâ para que retomemos as rédeas de sociedade tal qual ela deve ser â ou que pelo menos nos permita ter esta esperança.
Daà minha tristeza com a denúncia do Ministério Público de São Paulo contra o ex-presidente Lula. Não quero, nesta oportunidade, mencionar as avaliações até mesmo da oposição ao teor excessivamente politizado do texto, ou à s suas alegações de caráter prático. Fico apenas no que toca ao renovado interesse pela filosofia polÃtica. Em outras palavras, quero aqui defender não os que foram acusados formalmente, mas outros potenciais âinvestigadosâ: Nietzsche (com âSâ – este tal âNietzcheâ da denúncia eu desconheço) e Hegel não mereciam ser acusados de pensar o que lhes foi imputado.
A denúncia, em seu âpreâmbuloâ na seção relativa aos âfundamentos fático-jurÃdicosâ do pedido de prisão de Lula, apresenta trecho de conhecida obra de Nietzsche na qual ele afirma que jamais existiu um âSuper-homemâ, e a denúncia chega à duvidosa (para dizer o mÃnimo) conclusão de que o controverso filósofo alemão âestabelece que todos os seres humanos se encontram em um mesmo planoâ. Se Nietzsche faz (ou assim pareceu fazer aos autores da denúncia) isso, é para lamentar. Num resumo quase irresponsável da complexa e talvez ambÃgua obra de Nietzsche, ele, o Super-homem, quer separar-se da multidão de âescravosâ, da massa. Isso significa não apenas não fazer parte dela, mas não ter qualquer contato com ela.
Este é um dos pontos mais estudados por não-especialistas em Nietzsche, pelo simples fato de que houve tentativas (hoje desacreditadas) dentro do movimento nazista para interpretar Nietzsche como validando Hitler. Revoltaria Nietzsche imaginar um Super-homem na massa popular, num comÃcio ou manifestação (como parece ser a lógica por trás do pedido de prisão preventiva da denúncia do MP de São Paulo). Para Nietzsche, seguir um lÃder (um âSuper-homemâ, uma âbesta louraâ) tudo bem, mas não dentro de um regime democrático: massas não devem votar, devem seguir autocratas. Mas, em última instância, num autor que muitos consideram desprovido de uma filosofia polÃtica, o movimento intelectual que ele faz é essencialmente individual â portanto, não relativo à vida em sociedade, nem à dominação polÃtica.
A denúncia também ataca âMarx e Hegelâ. Ela diz que âas atuais condutasâ de Lula âcertamente deixariam Marx e Hegel envergonhadosâ. Se a ideia é apenas partir do pressuposto que o ex-presidente desviou dinheiro de alguma forma (algo que ainda não se pode falar, pois ele sequer é réu em qualquer acusação), não apenas Marx e Hegel, mas qualquer outra personalidade histórica ou atual honesta ficaria envergonhada.
Agora, entendo que a intenção é traçar algum tipo de traição a princÃpios de âMarx e Hegelâ que teriam sido traÃdos por Lula. Não encontro qualquer tipo de relação lógica nesta afirmação. Talvez seja a interpretação do mundo como uma evolução necessária dos fatos num determinado sentido (a pretensiosa ideia de uma âfilosofia da históriaâ); ou ao recurso formal da dialética que ambos autores fazem. Mas, além disso, como hoje se diz nas redes sociais, não sou capaz de opinar…
O que me ocorreu é a possibilidade de os autores da denúncia terem ligado Lula ao comunismo filosófico do qual Marx certamente fez parte (possivelmente como o mais influente entre os pensadores desta corrente). Movimento do qual Hegel de forma alguma faz parte. Teriam eles confundido Hegel com Engels?
Vou pedir para que meus alunos não leiam esta denúncia. E, com as minhas filhas, só vamos ler gibis â pelo menos nos próximos dias…
