Mistura tóxica: homofobia, armas e Estado Islâmico

ORLANDO, FL – JUNE 13: Mike Graham of Orlando bows his head at a makeshift memorial prior to an evening vigil for the victims of the Pulse Nightclub shootings, at the Dr. Phillips Center for the Performing Arts, June 13, 2016 in Orlando, Florida. The shooting at Pulse Nightclub, which killed 49 people and injured 53, is the worst mass-shooting event in American history. Drew Angerer/Getty Images/AFP

Controle de armamento, terrorismo, igualdade de gênero e respeito à orientação sexual dominarão a campanha nos EUA nas próximas semanas

Por Helena Celestino | Artigo • Publicada em 14 de junho de 2016 - 08:00 • Atualizada em 14 de junho de 2016 - 12:39

Compartilhe

ORLANDO, FL – JUNE 13: Mike Graham of Orlando bows his head at a makeshift memorial prior to an evening vigil for the victims of the Pulse Nightclub shootings, at the Dr. Phillips Center for the Performing Arts, June 13, 2016 in Orlando, Florida. The shooting at Pulse Nightclub, which killed 49 people and injured 53, is the worst mass-shooting event in American history. Drew Angerer/Getty Images/AFP
Memorial improvisado para as vítimas do tiroteio na Discoteca Pulso, em Orlando

Foi provado mais uma vez o poder de destruição do ódio. No massacre da discoteca gay em Orlando juntou-se a homofobia com a ideologia do Estado Islâmico e a Associação Nacional do Rifle, a poderosa bancada da bala nos Estados Unidos. Morreram 49 inocentes em pleno ato de celebração do orgulho gay. Mistura tóxica semelhante levou ao assassinato de mais de 170 pessoas na boate Bataclã e na redação do jornal “Charlie Hebdo”, ano passado em Paris – todos abatidos pelo simples exercício do direito de pensar e de viver a vida com alegria.

Apressado pode comer cru. Donald Trump quebrou mais um ritual político domingo ao politizar a tragédia de Orlando e mostrar-se orgulhoso por ter avisado que um ataque terrorista “aconteceria cedo ou tarde”, provando a necessidade de fechar as fronteiras. Só que o atirador de Orlando é americano – descendente de afegãos – e jamais foi treinar no Oriente Médio, portanto não adiantaria proibir a entrada de muçulmanos.

Manifestações de tristeza, revolta,  e repúdio à  homofobia espalharam-se pelos EUA e as capitais do mundo. Líderes do movimento gay já haviam expressado o sentimento de que aumentara a violência contra homossexuais nos Estados Unidos por conta da polarizada campanha eleitoral, em que o candidato Donald Trump destila ódio aos imigrantes, com propostas para construir muros contra mexicanos e proibir a entrada de muçulmanos no país. Na França, logo depois dos ataques do Bataclan, o partido de extrema direita foi o mais votado nas eleições municipais, mas, no segundo turno, a união da esquerda com a direita republicana derrotou os candidatos do extremista Front Nacional.

Moral da história? Apressado pode comer cru. Donald Trump quebrou mais um ritual político domingo ao politizar a tragédia de Orlando e mostrar-se orgulhoso por ter avisado que um ataque terrorista “aconteceria cedo ou tarde”, provando a necessidade de fechar as fronteiras. Só que o atirador de Orlando é americano – descendente de afegãos – e jamais foi treinar no Oriente Médio, portanto não adiantaria proibir a entrada de muçulmanos.

União contra Trump

O ataque à boate gay evidencia o óbvio, a americaníssima cultura da bala mata mais do que o terrorismo internacional. O matador homofóbico comprou as armas legalmente nos últimos dias, assim como aconteceu com os autores dos dezesseis tiroteios contra cidadãos pacíficos durante os dois mandatos de Obama, obrigando o presidente a, cada vez, defender, inutilmente, o controle da venda de armas. Esta bandeira já está nas mãos de Bernie Sanders, a surpresa da temporada política, e de Hillary Clinton, a primeira mulher a garantir a indicação de um grande partido à presidência dos EUA. Trump, claro, é apoiado pela bancada da bala, mas distorce a verdade, tendo chegado a afirmar que “Hillary quer deixar as armas com os terroristas”.

Controle de armas, terrorismo, igualdade de gênero e respeito à orientação sexual de cada um dominarão a campanha eleitoral americana nas próximas semanas. Se alguma racionalidade existisse em política, Hillary Clinton sairia vitoriosa nesse debate. A ex-secretária de Estado cometeu erros na política externa – como a intervenção na Líbia e o voto no Senado a favor da invasão do Iraque – mas, certamente, será uma comandante em chefe mais dura do que Obama e mais respeitada internacionalmente do que o bilionário animador de reality shows . Os punhos de ferro do republicano e as bravatas contra muçulmanos podem acalmar a direita americana, mas provavelmente também facilitarão a união dos progressistas contra Trump.

É verdade que aí começa outra polêmica. Hoje, dia 14, a vencedora e o derrotado das primárias democratas devem se reunir para tratar do apoio de Sanders a Hillary. Só que o senhorzinho de 76 anos tem um tesouro disputado a tapa entre os caciques do partido democrata: uma lista com cinco milhões de emails. A preciosidade permitiu que ele arrecadasse muitas dezenas de milhões de dólares com um clique. Mas, mais que isto, é o coração e mente desse eleitorado fiel e caloroso que atiça o desejo de Hillary Clinton: eles são parte da mesma geração que se emocionou e votou em Barack Obama há oito anos, mas não confia na mensagem política nem se deixa seduzir pela histórica oportunidade de eleger a primeira mulher presidente dos Estados Unidos. “Não informem meu email para a campanha de Hillary, please”, postou um eleitor de Sanders e a mensagem foi replicada quatro mil vezes nos primeiros minutos.

Por quê? Os democratas estão querendo tirar Sanders rapidamente do caminho, sem perder seus eleitores. Mas o candidato tem compromisso com os 10 milhões que votaram nele nas primárias e só vai pensar em dar apoio à Hillary se ela comprar sua plataforma política: “se for vigorosamente a favor dos trabalhadores e da classe média, se movimentar-se agressivamente contra a mudança climática, se defender a saúde para todos e a universidade gratuita”, listou ele num programa político de domingo.

Não achei que Obama botou o coração ao apoiar Hillary

Shepard Foreman
antropólogo brazilianista

O senador é teimoso, suas exigências soam diferente dos coreografados discursos de apoio de Obama a Hillary quinta-feira passada , quando ficou uma sensação de ambos estarem abrindo mão de sua “persona” política para unir o partido, o que só criou um desconforto a mais nesta época de desconfiança com frases feitas e platitudes marqueteiras.

“Não achei que Obama botou o coração ao apoiar Hillary”, diz o antropólogo brazilianista Shepard Foreman.

Se Hillary vencer, a nova configuração da Casa Branca vai render uma boa imagem: Hillary no Salão Oval, Bill Clinton na ala West, onde ela mesmo já esteve como primeira-dama. Então, por que não comemorar a indicação? Apesar do apoio das feministas históricas, ela não é vista pelas jovens como símbolo da nova mulher, aquela que quebra o último teto de vidro e abre o caminho para a igualdade de gênero. Em vez de percebida como uma força transformadora, Hillary é vista primeiro como uma representante da dinastia Clinton, depois como parte da casta política de Washington e, só então, como uma mulher com a agenda feminista Para muitos, era inevitável uma mulher concorrer à Presidência, mas Hillary é a mulher errada, a mulher sem graça, a mulher com compromissos demais com Wall Street, com os doadores de campanha, com o lobby judeu.

A primeira vez de Barack Obama foi diferente. O desconhecido senador negro de Illinois mexeu com a emoção dos americanos desde que apareceu no cenário nacional em 2004, defendendo, na convenção democrata de Boston, que um mundo melhor era possível. Ao iniciar a campanha nas primárias de 2008, entusiasmou a geração do milênio com a palavra de ordem “Yes, we can” – um convite ao empoderamento dos cidadãos para mudar o país e a cultura política de Washington. Nos comícios pelos Estados Unidos fez chorar os velhos militantes dos direitos civis, ao se reivindicar herdeiro de Martin Luther King e Malcom X , prometendo um país em que a cor da pele não teria mais importância – não foi possível honrar a promessa, sabemos, mas uma família negra na Casa Branca fez diferença na autoestima dos afro-americanos.

Na época, as pesquisas indicavam que 60% dos eleitores achavam que o país estava pronto para ter um presidente negro, agora 80% não acham nada demais ter uma mulher presidente dos Estados Unidos. Isso pode ser bom ou ruim para Hillary, mas é uma conquista nossa; nós mulheres já mostramos que podemos correr atrás dos nossos sonhos e desejos sem barreiras de gênero.

Helena Celestino

Jornalismo é um vício assumido, é difícil me imaginar longe da notícia. Acostumei a viver com o dedo na tomada: aprendi isto trabalhando, viajando pelo mundo e sendo por muitos anos editora executiva do Globo.

Newsletter do Colabora

Nossa newsletter é enviada de segunda a sexta pela manhã, com uma análise do que está acontecendo no Brasil e no mundo, com conteúdo publicado no #Colabora e em outros sites.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Sair da versão mobile