Esta semana, o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional do governo, general Augusto Heleno disse a apoiadores do presidente Jair Bolsonaro que âinfelizmenteâ o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva não estava internado, como anunciava uma das milhares de mentiras que circulam em grupos bolsonaristas nas redes sociais: âEsse negócio do Lula estar doente…Não está, infelizmente. Infelizmente é mentira. Vamos torcer para que tenhamos um futuro melhor. Na mão do cachaceiro, não vaiâ. Não é a primeira vez que Lula é chamado de cachaceiro. O adjetivo se junta a outros tantos como presidiário, paraÃba, cabeça chata, nove dedos etc. Todos carregados de muita raiva, preconceito e uma falta crônica de argumentos mais inteligentes.
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Lula também não é a única vÃtima desses ataques. Ele está na companhia dos indÃgenas âpreguiçososâ, dos quilombolas que são pesados em âarrobasâ, das mulheres que ânão merecem ser estupradasâ, dos nordestinos que só querem saber do Bolsa FamÃlia, dos moradores de favela que, na verdade, não passariam de âtraficantesâ; do filho âgayzinhoâ que merece levar porrada, dos universitários âmaconheirosâ etc. A lista é imensa. Uma busca simples no Google com âfrases absurdas de Bolsonaroâ vai te levar para uma viagem longa pelo esgoto da humanidade.
O espetáculo do outro, tÃtulo desta coluna, é inspirado num dos capÃtulos do livro âCultura e Representaçãoâ, do sociólogo Stuart Hall. Nele, Hall fala sobre estereótipos, suas origens e histórias. Ele explica que no fundo tudo não passa de um jogo de poder, uma luta por hegemonia. Uma tentativa de moldar a sociedade de acordo com uma visão de mundo especÃfica, muito própria, que, para alguns, deveria ser ânaturalâ e âinevitávelâ. Para esses grupos, o âoutroâ é aquele que tem um comportamento desviante, errado, monstruoso. Alguém que vive em uma espécie de circo dos horrores repleto de âhomens elefanteâ, âcachaceirosâ, âtraficantesâ, âmaconheirosâ e âgaysâ. Ao longo da história, esses grupos já se vestiram de preto e foram chamados de fascistas. Já colaram estrelas amarelas de seis pontas nas roupas e nas casas dos judeus e foram identificados como nazistas.
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Veja o que já enviamosHoje, o mais simples é chamá-los pelo que realmente são: extremistas de direita. Grupos que não aceitam os contrários, não respeitam as diferenças e não têm nenhum amor ao próximo. Eles estão em todas as partes, na Alemanha, na Itália, nos Estados Unidos, na França…Querem poder, querem hegemonia, não gostam de democracia. No Brasil, diferentemente do que pregam nas redes sociais, não estão preocupados como uma eventual crise econômica, com o desemprego, com a volta do âcomunismoâ, seja lá o que isso queira dizer, eles estão apavorados com a possibilidade de que o novo governo dê certo. Vai ser horrÃvel ver um cachaceiro, nove dedos – cercado de pobres, pretos, mulheres e nordestinos – transformando o Brasil, novamente, em uma das maiores economias do mundo, sem fome e com desmatamento zero.
