1. A foto do corpo do menino sÃrio Aylan Kurdi, de 3 anos, estendido na praia de Ali Hoca, em Bodrum, na Turquia, foi a mais emblemática da crise migratória europeia de 2015 (Aylan morreu afogado após um naufrágio quando sua famÃlia tentava escapar para a Grécia numa balsa). Entretanto, ela é simbólica de uma mazela muito maior que assola a sociedade contemporânea: nossos sectarismos regionais. Isolados no provincianismo de nossos relacionamentos, sejam eles reais ou virtuais, estamos cada vez menos propensos a nos aproximar do outro â que o digam os paÃses europeus que anunciaram a construção de muros para evitar a entrada de imigrantes. O que mais importa são os laços de proximidade, sejam geográficos ou psicológicos. Buscamos viver em âcomunidadesâ, idealizadas em nosso imaginário como espaços idÃlicos onde seremos compreendidos e acolhidos. Perseguimos o próximo, o âaquiâ, um dos três valores em voga na contemporaneidade (os outros são o âeuâ, que já debati por aqui, e o âagoraâ, sobre o qual falarei em breve).
2. No mundo on-line também erguemos muros. Nossos murais são construÃdos com base em algoritmos que cruzam nossas informações pessoais com nosso comportamento na rede e na web. Dos 1.500 posts elegÃveis para aparecerem em nossa linha do tempo diariamente no Facebook, o algoritmo escolhe 300 para serem mostrados. O problema não reside no que nos é exibido, mas no que nos é ocultado. Quanto menos interagirmos com uma pessoa, menos saberemos sobre ela até que desapareça por completo na estreita imensidão do mundo virtual. à bom que se ressalve que âo algoritmoâ não é uma entidade maquiavélica e conspiratória, mas fruto das pegadas que deixamos quando curtimos, comentamos e compartilhamos conteúdo. Ele também se alimenta do nosso lado mais egoÃsta e intolerante: toda vez que ocultamos ou deixamos de seguir alguém, tais informações são valiosamente guardadas. Pessoas que publicaram posts para os quais torcemos o nariz naufragam em nossas timelines. E é assim que a tirania das comunidades vai se revelando.
3. Mas por que as comunidades não seriam a proteção ideal para a fuga de todos os males do mundo contemporâneo? Quantos de nós já não ouvimos ou dissemos que âfalta calor humanoâ no mundo? Quantos não acusam nossa sociedade de ser impessoal e fria? Bastante instigante para investigar o tema é a perspectiva do sociólogo inglês Richard Sennett, que desvenda o que para ele é o mito da comunidade. Sennett destrói o que está por trás do que chama de âideologia da intimidadeâ, segundo a qual os relacionamentos sociais serão mais autênticos e sinceros tanto mais próximos estiverem das preocupações interiores de cada pessoa. Em âO declÃnio do homem públicoâ, o autor aponta a armadilha deste mito. Para ele, a âpsicologização do mundoâ foi fruto do capitalismo. Quanto mais o homem mergulha no universo interior, mais se afasta de suas condições materiais e objetivas. Quanto mais se aproxima do vizinho, mais perde os vÃnculos com a cidade, com o Estado. A pessoa ocupa o lugar do cidadão. Lançamo-nos numa luta de combate à impessoalidade buscando o âcalor humanoâ perdido. O viver em comunidade se torna o meio possÃvel para alcançá-lo. Na unanimidade de pontos de vista, entretanto, não há espaço para a diferença. âO compartilhar desse eu fica também reduzido a excluir aqueles que são muito diferentes em termos de classe, de polÃtica, ou de estiloâ, observou ele.
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Veja o que já enviamos4. A âimpessoalidadeâ da cidade faz com que ela seja combatida, afirma Sennett. O mundo exterior, na medida em que não transmite âcalor humanoâ, passa a ser um inimigo a ser exterminado. âEsta nova geografia é a do comunal versus o urbano; o território dos cálidos sentimentos e o território da indiferença impessoalâ, nota o sociólogo. Quanto mais se reforçam os laços geográficos e psicológicos, mais distante fica a complexa realidade social. Quanto mais buscam compartilhar o pessoal nas relações sociais, mais distantes os homens estão das possibilidades de ação. O ideal da comunidade anestesia seus membros contra o âindecifrávelâ mundo lá fora. Em nome de um denominador comum, destroem-se pontos de vista que não levem à convergência de opiniões. Paradoxalmente, é em nome de laços fraternos que se dissolve a fraternidade, sustenta Sennett.
âO declÃnio do homem públicoâ foi escrito em 1974. A data de publicação revela o quanto foram premonitórias as palavras de Sennett. No mundo real, estamos cercados de sectarismos regionais. PaÃses europeus erguem muros para impedir a entrada de refugiados (como já mencionado acima). O pré-candidato republicano à presidência Donald Trump lançou sua candidatura insultando o México, que seria responsável pela entrada de drogas e âestupradoresâ nos EUA, e anunciando um plano para erguer um muro na fronteira com aquele paÃs. Na campanha presidencial brasileira de 2014, o ex-secretário nacional de Justiça Romeu Tuma Júnior propôs um muro para separar o Nordeste do Sul e do Sudeste. Isso para falar apenas de iniciativas de concreto e tijolo.
5. Mas não são somente as barreiras fÃsicas que nos separam. Ao oferecer o resultado para uma busca, o Google leva em conta 57 itens, tais como o local de onde o acesso foi feito, o navegador que o internauta está usando e os termos que já havia pesquisado anteriormente. Ou seja, não existe uma lista padrão de relevância para os temas, mas uma relação de resultados sob medida para aquele usuário. Foi o que revelou Eli Parisier no livro âO filtro invisÃvelâ. Assim, o Google nos oferece um mundo uniforme, de acordo com nossos próprios gostos, reduzindo o espaço para o conhecimento de outros pontos de vista. Da função âperto de vocêâ em nossos smartphones aos posts geolocalizados nas redes sociais, prezamos o que está próximo. Escolhemos o cinema e o restaurante mais perto, fechando-nos cada vez mais em nosso próprio bairro. Pelo celular, podemos saber quais são os amigos que estão geograficamente mais próximos. Resultado: o mundo, aquele tão sectário na vida real, nos parece familiar e uniforme no bairrismo de nossas redes.
6. Então estamos encurralados em muros fÃsicos e psicológicos? Talvez não. Existem teóricos que pensam diferente, como o antropólogo mexicano Néstor Canclini. Para ele, os movimentos sociais que lutam pela preservação de tradições locais – reforçando as comunidades – refletem uma resistência à globalização e, por isso mesmo, ele vê tais ações com otimismo. Mas ele só chega a esse diagnóstico depois de percorrer um cenário sombrio. Vamos a ele: numa economia globalizada, Canclini acredita que a dimensão socioespacial vem cedendo terreno para o aspecto sociocomunicacional. Nossos hábitos culturais girariam muito mais em torno das mensagens audiovisuais que recebemos do que da produção de bens provenientes da nossa relação com o território. Nas grandes metrópoles, observa ele, a vida social está migrando cada vez mais dos centros históricos para os shoppings, ou seja, dos espaços historicizados para os desterritorializados. E é em meio a esse pessimismo que ele enxerga uma saÃda. Para combater tais males, a chave seriam os movimentos de reterritorialização, que buscariam resgatar os vÃnculos perdidos com o território ao afirmarem valores das comunidades locais. Será?
