âO Estado autoritário prendeu e exilou. A sociedade foi Rubens Paiva, não os facÃnoras que o mataramâ. As mesmas paredes que ecoaram a frase do então presidente do Congresso, Ulysses Guimarães, proferida em 5 de outubro de 1988, ao promulgar a Constituição, reverberaram 26 anos depois – do microfone onde os deputados se revezavam na votação sobre a abertura ou não do impeachment contra a presidente Dilma Roussef â, o elogio de Jair Bolsonaro (PSC-RJ) ao torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra.
A violência perpetrada com o intuito de ferir a presidente e ex-presa polÃtica foi recebida como um soco na cara da nação, que desde 2012, quando foi criada a Comissão Nacional da Verdade, dando origem a várias outras pelos estados, tenta reconstruir os abusos do arbÃtrio. Abusos, esses, que a Constituição Cidadã, promulgada no Congresso Nacional, pelo Dr. Ulysses, varreu do paÃs.
O voto de Bolsonaro, aliando uma evocação a Deus ao nome de Ustra, que muitas vezes levou estudantes, sindicalistas, idealistas que lutavam por liberdade, a sessões de tortura que lembravam o inferno, causou indignação e revolta. Afinal, Ustra, ou o âDr. Tibiriçáâ, como se tornou conhecido no comando do Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI/SP) de 1970 a 1974, cravou seu nome de forma canhestra na história recente, por participar pessoalmente da morte e da criação de artifÃcios para o âdesaparecimentoâ de muitos que por ali passaram. à  responsabilizado por 47 homicÃdios e sequestros.
Em 1971, foi preso junto com seu pai, Joaquim Alencar de Seixas. Ambos foram levados pela polÃcia ao DOI-CODI, em São Paulo. Aos 16 anos, permaneceu sendo torturado durante dois dias ao lado do pai. Ele, no pau de arara, e Joaquim na cadeira do dragão, uma espécie de cadeira elétrica com fios ligados a diversas partes do corpo, para dar choques. Os dois foram brutalizados com choques, espancamentos e afogamentos.
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Veja o que já enviamosUm dos casos mais emblemáticos de que é acusado é o do pai de Ivan Seixas, um dos mais ativos militantes na luta por Memória, Verdade e Justiça, e um dos responsáveis pela abertura da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) de 1990, que investigou crimes cometidos durante a ditadura. Ivan foi também presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe).
Em 1971, foi preso junto com seu pai, Joaquim Alencar de Seixas. Ambos foram levados pela polÃcia ao DOI-CODI, em São Paulo. Aos 16 anos, permaneceu sendo torturado durante dois dias ao lado do pai. Ele, no pau de arara, e Joaquim na cadeira do dragão, uma espécie de cadeira elétrica com fios ligados a diversas partes do corpo, para dar choques. Os dois foram brutalizados com choques, espancamentos e afogamentos.
Joaquim acabou assassinado durante a tortura e Ivan ouviu o pai ser morto. Ficou sabendo que o pai seria assassinado quando, levado pelos torturadores para uma simulação de fuzilamento num parque de São Paulo, leu na capa do jornal Folha da Tarde que Joaquim, ainda vivo, tinha morrido em confronto.
Sua mãe, Fanny, e suas duas irmãs, Ieda e Iara, também foram presas e levadas para a sede do órgão. As três acompanharam as torturas e o assassinato de Joaquim numa sala no andar de baixo, de onde era possÃvel ouvir tudo, numa tortura psicológica brutal. Elas foram espancadas e Ieda foi vÃtima de violência sexual por parte de três dos torturadores. Ivan, que ficou preso até os 22 anos, foi coordenador da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo âRubens Paivaâ.
Oito anos depois do ocorrido, em abril de 1979, o jornal Em tempo nº57 publicou uma reportagem sobre a prisão e as torturas sofridas por Joaquim e por seu filho. Nessa matéria, Ivan Seixas relatou as circunstâncias da prisão e denunciou os torturadores David Araújo dos Santos (capitão Lisboa), Pedro Mira Gracieri, Dalmo Moniz Cirilo, vice-comandante da Oban e Carlos Alberto Brilhante Ustra, comandante do DOI-CODI à época, como os responsáveis pela morte de seu pai. (Conforme pág. 299 do Relatório Final da CNV).
Em um depoimento ao jornal Zero Hora, concedido em 25 de março de 2014, Ustra justificou para a repórter Cleidi Pereira, o porquê de sua obsessão no combate ao comunismo. Contou que o fez por estÃmulo de seu pai, Célio, que serviu o Exército juntamente com o irmão, Lupes, e admirava a figura do militar Luiz Carlos Prestes. Ambos o acompanharam na Coluna Prestes e Lupes acabou morrendo no percurso. A admiração passou assim que o pai soube que tinha combatido na coluna âatrás de um homem que virou comunista. Ele ficou revoltado. Isso me incentivou o civismo e a entender que o comunismo não era uma coisa boaâ, disse à época.
Da decepção do pai ao radicalismo cego que imprimiu ao seu comando e à s suas ações, o coronel Ustra passou pelo dissabor de ter sido o primeiro militar a ser reconhecido, em 2008, pela Justiça, como torturador por atuar na ditadura. A decisão em primeira instância foi do juiz Gustavo Santini Teodoro, da 23ª Vara CÃvel de São Paulo. Antes, porém, em outubro de 1985, durante o governo Sarney, a então deputada Bete Mendes, que integrava a comitiva brasileira em uma visita oficial ao Uruguai, reconheceu nele o homem que a torturou em 1970, no DOI-CODI paulista.
A deputada enviou carta ao presidente denunciando o fato e pedindo a sua exoneração. Eram tempos ainda muito difÃceis. O paÃs lambia as feridas provocadas pelo antigo regime e militares, como o general Leônidas Pires, então ministro do Exército, e quem bancou a posse de Sarney, mandava muito. Manteve Ustra no posto e avisou que não demitiria nenhum outro militar por acusações de tortura. O episódio, estampado em todas as manchetes dos principais jornais do paÃs, desencadeou uma crise.
Em junho de 2012, Ustra foi também condenado a indenizar por danos morais a esposa e a irmã do jornalista Luiz Eduardo da Rocha Merlino, morto em 1971. Merlino foi preso no dia 15 de julho daquele ano, em Santos, e morto quatro dias depois. A versão oficial da sua morte, fornecida pelos agentes do antigo Departamento de Ordem PolÃtica e Social (DOPS), foi a de que ele suicidou enquanto era transportado para o Rio Grande do Sul.
Ustra foi um dos organizadores do âLivro Negro do Exércitoâ, e que tem o tÃtulo: ORVIL, âlivroâ ao contrário. Escreveu dois outros, esses apenas de sua autoria. O primeiro, âRompendo o Silêncioâ, nasceu logo depois do reconhecimento feito pela atriz Bete Mendes. E âVerdade Sufocadaâ (2006), dá tÃtulo também ao seu site, onde lança a seu modo os episódios envolvendo o seu combate à esquerda.
Gaúcho de Santa Maria, nascido em 1932, atuou também no Centro de Inteligência do Exército, em BrasÃlia, no fim da década de 1970. Desempenhou também a função de comandante do 16º Grupo de Artilharia de Campanha, em São Leopoldo. Foi casado durante 54 anos com Maria JoseÃta, que o incentivou a escrever. Ãs voltas em defender o marido para as filhas, que o questionavam sobre as acusações de Bete Mendes, juntou recortes dos episódios em que era citado e formou um álbum. A partir dele Ustra teve a ideia de escrever o primeiro livro, lançado em 1987. Os dois que publicou já somam mais de 20 mil exemplares vendidos. Foram fruto do esforço para melhorar sua imagem e justificar o âtrabalhoâ executado nos porões.
Em maio de 2013, Ustra compareceu à sessão da Comissão Nacional da Verdade. A primeira aberta ao público e transmitida pela TV.
Compareceu munido de um habeas-corpus que lhe permitia ficar em silêncio. Mesmo assim, respondeu a algumas perguntas, negando seus crimes e alegando ter recebido ordens superiores. Aproveitou o momento para acusar a presidente Dilma de participar de quatro organizações terroristas.
Durante a entrevista à Zero Hora, admitiu ter cometido alguns âexcessosâ no ato de prisões. âPode ter sido. O cara reagia, brigava, havia luta corporal… Você sabe, terrorista não é brincadeiraâ. Mas chamou de ârevanchismoâ os trabalhos das Comissões da Verdade que têm como missão apurar esses âexcessosâ. Disse que se considerava um homem tranqüilo, que vivia em paz. E, também ele, tal como Bolsonaro, evocou Deus. Em seu caso, para se regozijar de ser âum homem respeitadoâ. E acrescentou: âO dia em que morrer vou tranquilo na presença de Deus, muito tranqüilo mesmo. Não cometi nada de erradoâ. Carlos Alberto Brilhante Ustra morreu dois anos depois, em 15 de outubro de 2015. Sabe-se lá se chegou a ser recebido por Deus.

” Abusos, esses, que a Constituição Cidadã, promulgada no Congresso Nacional, pelo Dr. Ulysses, varreu do paÃs.” Não varreu. A Constituição de 88 foi um avanço, sem dúvida, fruto de um desejo genuÃno de reconstruir o paÃs em outros termos. Mas, o que temos visto, é que o veneno da “anistia ampla, geral e irrestrita” foi crescendo nas sensibilidades dos brasileiros. A Constituição pesou, por um lado, mas a indiscernibilidade entre crime individual e crime de Estado, a perversa equiparação entre ação civil e barbárie estatal produziu um ruÃdo que acabou por se sobrepor, no imaginário popular, à s conquistas democráticas e cidadãs. A comissão da verdade é um primeiro passo,importantÃssimo para a revisão desse contexto. Mas, é necessário expurgar esse veneno, para que o Brasil possa assumir, finalmente, algum espÃrito republicano. à necessário que haja revisão da anistia, o reconhecimento, pelo e Estado Brasileiro, dos seus crimes, e a punição dos envolvidos. O Brasil precisa disso. Pra que um Bolsonaro da vida, por exemplo, não seja nunca mais possÃvel. Pra que os direitos civis de todas as minorias, assim como dos presidiários e todas as pessoas em estado de vulnerabilidade, sejam respeitados. Que a polÃcia exista a favor da vida, da dignidade humana, da liberdade. Que não haja nenhuma simpatia pela polÃcia que violenta, que tortura, que os direitos à manifestação polÃtica sejam efetivamente respeitados. Enfim, ainda há um longo caminho a ser percorrido…