Todas as sextas-feiras pela manhã, quando vou à feira, é comum encontrá-lo na calçada sob a sombra dos oitis. Paraibano de 52 anos, talvez pernambucano, Charles chegou à cidade maravilhosa nos anos 80. à difÃcil reconstituir seu passado, pois ele apresenta uma condição psÃquica â psicose â que costuma embaralhar a realidade. Na verdade, até seu nome é difÃcil precisar, pois, apesar da vizinhança conhecê-lo por Charles, já disse se chamar Joaquim e outras vezes Heleno. Com frases curtas e rápidas, conta que dorme na Praça da Cruz Vermelha, não possui documentos e os parentes moram longe. Para sobreviver, recolhe material reciclável nas ruas da região central do Rio.
Na feira, compro frutas e legumes com o Joaquim, e reparo nos alimentos jogados nos lixos improvisados atrás das barracas: os restos que ficam pelo caminho.
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Nas grandes cidades, muita coisa vai ficando pelo caminho. O Rio de Janeiro, por exemplo, joga fora a cada dia cerca de 9 mil toneladas de lixo. Outros dejetos além dos materiais também são produzidos: os dejetos humanos. Atualmente, por volta de 8 mil pessoas moram nas ruas do Rio â Charles é uma delas. Se tirarmos os olhos das telas e olharmos para o lado, é fácil perceber essa realidade.
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Veja o que já enviamosComo disse, não é difÃcil encontrá-lo pelas manhãs nas ruas de paralelepÃpedo de Santa Teresa, recolhendo seu sustento. Mesmo as adversidades não o impediram de ser criativo, já que construiu sua própria condução com uma porta velha, pedaços de madeira e rodinhas de rolimã. Muitas vezes o vi descendo as ladeiras do bairro, abarrotado de material reciclável, manejando seu veÃculo de coleta com os pés, como devia fazer com seu carrinho de rolimã na infância no Nordeste. Coleta de material reciclável e veÃculo não-poluente: sem saber, Charles está na vanguarda.
Atualmente ele sobe e desce as ladeiras a pé, com os sacos à s costas, pois a Guarda Municipal â segundo seu relato â apreendeu seu instrumento de trabalho na Praça Onze, num dos últimos Carnavais no Rio.
O material recolhido é vendido, como ele mesmo diz, na Apoteose. Certamente lhe pagam um valor irrisório, como são os valores pagos aos catadores individuais que não pertencem às cooperativas ou associações.
Charles tem olhos inchados, avermelhados, com uma secreção viscosa permanente. Ele coça-os repetidas vezes com as mesmas mãos que vasculham os lixos. O nariz também tem uma secreção constante. Diz que não vai a médicos, nunca foi. Na pandemia do coronavÃrus eu o via com máscaras descartáveis. Comprava-as ou utilizava as que encontrava no lixo? Ou recebia de alguém?
Ao vê-lo na sua batalha diária, sempre lembro do aforismo atribuÃdo a Gandhi: âa verdadeira medida de qualquer sociedade pode ser encontrada em como ela trata seus membros mais vulneráveisâ.
São essas mesmas sociedades implacáveis que, cada vez mais, necessitam de imensa quantidade de matéria-prima para manter o funcionamento de suas engrenagens, produzindo toneladas de resÃduos. Uns se beneficiam das engrenagens, outros são moÃdos.
A verdadeira medida de qualquer sociedade pode ser encontrada em como ela trata seus membros mais vulneráveis.
Hoje sabemos que essas duas pontas precisam estar conectadas â a tal economia circular â, a fim de evitar o colapso que se anuncia no horizonte. Talvez Charles não tenha noção, mas ele é justamente um dos que sustentam essa conexão com seu valoroso trabalho. Uma rápida pesquisa na internet me informou que os catadores informais recolhem cerca de 90% do material reciclável, no Brasil, mas ficam com apenas 25% dos ganhos do setor; a maior parte, óbvio, fica com as indústrias, que já estão de olho nesse negócio lucrativo. Chamam isso de âlógica reversaâ â acho que âlógica perversaâ seria mais adequado.
Afinal, a perversão é o próprio modo de funcionamento de nosso sistema econômico e social, no qual as pessoas mais vulneráveis sempre ficam com as sobras. Ãs vezes com a sobra dos porcos, como Jorge Furtado mostrou magistralmente no seu âIlha das Floresâ.
A dureza da vida de Charles poderia ser minimizada se ele contasse com uma rede de suporte efetiva, amparada em polÃticas públicas mais consistentes e eficientes. Instrumentos para isso, em vários nÃveis, existem: reconhecimento da profissão de catador, planos nacional e municipal de resÃduos sólidos, cooperativas de reciclagem, CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), consultórios de rua, abrigos etc.
Alô, Eduardo Paes: o que falta para que uma cidade como o Rio de Janeiro tire efetivamente do papel seu plano de resÃduos sólidos e crie milhares de empregos no setor, voltados sobretudo para pessoas mais carentes?
No inÃcio do século XX, Freud criou a psicanálise a partir da valorização daquilo que era considerado, pela discurso cientÃfico da época, apenas restos psÃquicos destituÃdos de valor. Foi assim que os sintomas histéricos, os sonhos e os atos falhos serviram como ponto de partida para a criação do edifÃcio conceitual psicanalÃtico que se mantém de pé até hoje.
Enquanto isso, mais de um século depois, Charles por conta própria e contra todas as expectativas continua vivendo dos restos que estupidamente jogamos fora.
Migrante, morador de rua, miserável, pouco instruÃdo e psicótico, ele foi sendo empurrado por sucessivos processos de exclusão â geográfica, social, econômica e psÃquica â para a zona de dejetos que reservamos aos mais vulneráveis.
Charles sobrevive nesse espaço-tempo que lhe é próprio, aberto nos interstÃcios da cidade e habitado pelos resquÃcios da infância. Em ruas de paralelepÃpedo e ladeiras sinuosas, com carrinho de rolimã ou a pé, dormindo em praças ou nas calçadas, ele persevera na sua trajetória singular, como o bairro histórico que resiste à ârevitalizaçãoâ.
Sempre me pergunto quantos aguentariam manter a cabeça fora da água nas condições em que ele vive? Por quanto tempo?
Seu percurso lembra o de outra catadora â Estamira â, que viveu por mais de vinte anos no lixão de Gramacho, em Duque de Caxias, e teve sua vida retratada no épico documentário de Marcos Prado (âEstamiraâ). Seu quadro psicótico não a impediu de forjar um discurso original e crÃtico à nossa sociedade de consumo, produtora de outros tantos lixões nos arredores das grandes cidades.
Soube pelos jornais que ela morreu de septicemia em 2011. Com o braço inflamado e acompanhada do filho, aguardava a internação num hospital público do Rio de Janeiro; após ser internada, resistiu mais dois dias.
Volto da feira e o encontro novamente na rua. Ofereço-lhe uma fruta, ele aceita. Ãs vezes come, à s vezes não, mas sempre agradece de modo efusivo, com vários âobrigadosâ.
Chego em casa e tomo um banho, preparo-me para o trabalho. Da varanda consigo avistá-lo na calçada, ao lado dos sacos de material recolhido. E fico me perguntando quanto tempo Charles ainda resistirá antes de ser tragado pelas engrenagens.
