Não vai subir ninguém â só a truculência disfarçada sob o discurso da ordem e da segurança. Desde sua formação, a sociedade brasileira carrega a violência no DNA. Terreno fértil, daqueles em que se plantando tudo dá, para pavimentar aventuras autoritárias, camufladas sob discurso do combate aos criminosos â bandidos, no dialeto dos estetas da ideologia â, o Brasil estava madurinho para se jogar num projeto polÃtico com a intolerância como alicerce. Já que missão dada é missão cumprida, está aà o resultado.
Será objeto de estudo no futuro por que diabos a quinta população da Terra, a oitava economia do mundo, foi parar nas mãos de um polÃtico opaco, ex-capitão desimportante do Exército, famoso somente pelos atos de indisciplina. Boa parte da população entregou-se apaixonadamente ao dono de 27 anos invisÃveis de vida parlamentar, enxergando nele mistura de astro pop e super-herói, expressa no epÃteto “mito”. Mas onde essa maluquice começou?
O cabo eleitoral número 1 é, irresistÃvel coincidência, um colega de patente do presidente eleito: ele mesmo, o Capitão Nascimento. Possivelmente o personagem mais famoso do grande Wagner Moura (materializado, registre-se, em espetacular desempenho de ator), o protagonista de “Tropa de Elite” deu vocabulário e formato a um sentimento crescente na sociedade. O filme doura a tortura e desfila um cardápio de brutalidades, para absoluto delÃrio de milhões de espectadores nos cinemas e na internet. Escora-se em pensamentos rasos â âQuando eu vejo passeata contra a violência, parceiro, eu tenho vontade de sair metendo porradaâ â, comete crimes com desenvoltura â âBota ele no sacoâ â e formula um trecho do discurso vencedor â âSe o Bope tratasse polÃtico corrupto como trata traficante, o Brasil seria um paÃs melhorâ.
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Veja o que já enviamosBlockbuster nacional, a obra de José Padilha, lançada em 2007, atraiu aproximadamente 2,5 milhões de pessoas ao cinema, foi reproduzida em cerca de 11 milhões de cópias piratas – caiu na internet antes de ser lançado – e conquistou número infinito de espectadores dos canais a cabo (passa praticamente todo dia). Mas seu maior sucesso viria depois disso tudo, ao se encaixar à perfeição na narrativa vencedora em outubro.
Pilotando uma fictÃcia tropa de policiais honestos, Nascimento entende que sua retidão financeira é aval para qualquer barbaridade. Não há, na trama, qualquer sinal de respeito à democracia, Estado de Direito, ônus da prova e outros luxos. O âpessoal do direitos humanosâ vira piada na ONG promÃscua, no debate dos bem nascidos emaconhados, nos ricos âcom consciência socialâ. Nunca serão.
As ruas do Rio de Janeiro â tambor e vitrine nacionais da violência urbana glamurizada, sedutora â transformaram os bordões do filme em gÃria. Num tempo pré-redes sociais e WhatsApp, chamar o Capitão Nascimento ou o filme de fascista era garantia de treta forte. Vigora até hoje o sonho de uma polÃcia como aquela, totalmente baseada em fatos reais â âHomem de preto, qual é sua missão? Entrar pela favela e deixar corpo no chãoâ â, liderada por um super-herói fardado e frasista.
O extermÃnio cinematográfico enfeitou a vitória da narrativa do vale-tudo contra o crime nos guetos e periferias. Não adianta alertar que o banho de sangue nos levou a ter 25 das 50 cidades mais violentas do mundo. Tampouco que os 63.880 homicÃdios – ou 175 por dia – registrados em 2017 (aumento de 2,9% em relação ao ano anterior) só agravaram o problema. A doutrina Capitão Nascimento capturou a maioria da sociedade, que se entregou surda e apaixonada. E bota na conta do Papa.
Assim, bastou adaptar o roteiro à luta polÃtica e bombá-lo no combustÃvel das fake news, que o jogo estava jogado. O cenário de âTropa de Eliteâ será governado, a partir de janeiro, por um senhor que prega desavergonhadamente abates à distância, uso de equipamentos para extermÃnio e dá de ombros para direitos e cautelas. No Brasil das disputas de terra e do genocÃdio da população negra, não será diferente.
Porque missão dada é missão cumprida.
