Na manhã do dia 18, uma segunda-feira, Adlène Hicheur estava ansioso dentro de sua sala do Instituto de FÃsica da UFRJ, no Rio. O cientista franco-argelino já havia preparado seu Power Point recheado de tabelas e gráficos. Eram complexas análises de dados sobre a procura por uma rara partÃcula subatômica (âBcâ). O relógio marcava meio-dia no Brasil. Eram 15h em Genebra. A voz de Hicheur foi ouvida e seus slides exibidos por meio de uma vÃdeoconferência para dezenas de cientistas que ocupavam a sala 24, no 1º andar do pédio 32 do CERN (Organização Europeia para FÃsica de PartÃculas), na fronteira entre a SuÃça e a França.
Além dos cientistas presentes no CERN, outros em vários lugares do mundo assistiam, naquele dia, a sua apresentação. Seu trabalho foi aprovado sem ressalvas. Mergulhado nos estudos sobre matéria e antimatéria, ele pavimentou, assim, o caminho para assinar um importante artigo sobre o assunto, como representante da UFRJ, em uma grande revista cientÃfica internacional.
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Veja o que já enviamosHicheur já pagou um alto preço por sua correspondência online. Ele nunca cometeu, direta ou indiretamente, qualquer ato terrorista ou criminoso, cumpriu sua sentença e estava trabalhando pacificamente no Brasil
[/g1_quote]Durante os 40 minutos da apresentação, Hicheur pôde esquecer a verdadeira explosão que o atormenta desde o último dia 9, quando seu rosto foi divulgado por uma revista brasileira, que o carimbou como âterroristaâ. Passou a ser caçado pela mÃdia até mesmo no corredor de seu prédio, que não tem porteiro. Uma jornalista invadiu o edifÃcio e bateu na sua porta. Ele avisou que chamaria a polÃcia. A jornalista ignorou a advertência e ficou escondida. Mas Hicheur viu que a luz automática do corredor continuava acesa: ela ainda estava lá. Ele, então, telefonou para um colega cientista que chamou a PolÃcia Federal. Uma agente foi imediatamente enviada ao prédio do fÃsico e a jornalista foi obrigada a deixá-lo em paz. O delegado contactado avisou que se o franco-argelino precisasse de qualquer proteção era só dizer.
A primeira reportagem sobre ele dizia que Hicheur tinha um âsegredo na sua biografiaâ: o de ter sido condenado pela Justiça francesa. Mas o âsegredoâ já havia sido publicado por toda a mÃdia internacional pela primeira vez há seis anos, quando ele foi detido na França. Depois, foi divulgado uma segunda vez, há três anos, quando Hicheur foi libertado. O fÃsico foi condenado, acusado de ter trocado e-mails com um suposto terrorista. Todo o processo do caso, que se estendeu de 2009 a 2012, foi alvo de crÃticas, inclusive de cientistas, como o prêmio Nobel de FÃsica Jack Steinberger. “Não havia indÃcios ou provas de ações concretas relacionadas ao conteúdo das conversas e de que a comunicação foi feita com um integrante da Al Qaeda”, alega  Hicheur. O cientista diz que os emails divulgados, nos quais ele falaria sobre ataques terroristas, foram distorcidos, tirados de seu contexto e pinçados de oito meses de conversas online. âEu não defendo a violênciaâ, afirmou ele, em entrevista exclusiva concedida a mim e a outro jornalista (o indiano Shobhan Saxena, do âThe Wireâ), nos dias 12 e 14 de janeiro.
âMas isso é passado. Já fui julgado por um crime que não cometi. Não posso ser julgado de novo no Brasilâ, reclamou, ressentido com a onda de islamofobia global reforçada pela mÃdia. Hicheur vive no Brasil há quase três anos e, nesse perÃodo, já voltou à Europa diversas vezes para visitar a famÃlia. Não existe mais nenhuma pendência contra ele na Justiça francesa. O fÃsico foi preso preventivamente em 2009, mas só foi julgado e condenado em 2012, quando recebeu a pena de cinco anos. No entanto, dez dias após a divulgação da sentença ele acabou sendo solto. Não houve nenhum recurso. O seu advogado avisou que se isso acontecesse ele poderia ficar mais tempo encarcerado.
O orientador de doutorado de Hicheur, Jean-Pierre Lees, da Université Savoie Mont-Blanc, em Annecy-Le-Vieux, (França), diz que os promotores âsabiam muito bem que Hicheur não tinha feito nada sérioâ. Hicheur âfoi atingido por ser um muçulmano com alto nÃvel de educação trabalhando em fÃsicaâ. O fÃsico argelino partiu para o Brasil buscando âapagar o passado e viver a sua paixão: a ciênciaâ, contou Lees. Aurelio Bay, que foi chefe de Hicheur no EPFL, laboratório do Departamento de FÃsica de Altas Energias da Ãcole Polytechnique Fédérale de Lausanne (SuÃça), defende o ex-subordinado e lembra que a PolÃcia Federal da SuÃça o investigou. âNão encontraram nada. Acharam só papeis, contas velhas e copos sujosâ, disse, revoltado.
No Rio, o argelino contava aos colegas as histórias de Fresnes, a famosa prisão francesa onde ele foi apelidado de âGoogleâ, por sua cultura geral: conversava sobre fÃsica, geopolÃtica, literatura, cinema e culinária. Com uma intensa crise ciática, ele amargou dois anos e oito meses de prisão preventiva sem que lhe aliviassem as dores com morfina. âEles te deixam morrer de dor. Só uma médica me tratou bem. Nunca a esquecerei. Ela era uma pessoa boa. Vou testemunhar diante de Deus o que ela fez por mimâ, lembrou, emocionado.  âNa prisão, eles me avisaram que eu nunca mais voltaria a ser cientista. Eles me falaram que como argelino eu teria que vender legumes na ruaâ, contou.
No meio do escândalo brasileiro, o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, teve uma atitude muito criticada pelos cientistas brasileiros: disse que uma pessoa âcondenada por terrorismoâ deveria ter sido impedida de entrar no paÃs e avisou que o governo iria averiguar seu status legal no Brasil. Foi aà que o argelino, sentindo-se injustiçado, avisou aos colegas que deixaria o paÃs e procuraria algum outro lugar para trabalhar e viver em paz, sem humilhações. Mas ele ainda não sabe que lugar seria este. Inconformado, o diretor do Centro Brasileiro de PesquÃsas FÃsicas, Ronald Shellard, acredita que vai convencê-lo a ficar. âNão há nada que justifique uma expulsão. Espero que o governo ofereça a ele, que é um cientista brilhante, a oportunidade de ficar pelo menos mais um ano no Brasilâ, comentou. âO fato de ele ser muçulmano é uma vantagem. Enriquece o nosso ambiente cientÃficoâ, opinou.
[g1_quote author_name=”Adlène Hicheur ” author_description=”Cientista franco-argelino e professor da UFRJ” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Na prisão, eles me avisaram que eu nunca mais voltaria a ser cientista. Eles me falaram que como argelino eu teria que vender legumes na rua
[/g1_quote]O advogado criminal Hugo Leonardo, diretor do Instituto de Defesa do Direito de Defesa, explicou que quem já cumpriu pena tem o direito ao esquecimento do passado. Leonardo afirmou que esta garantia constitucional possibilita ao ex-condenado, inclusive estrangeiro, âa retomada de sua vida de forma digna e plenaâ, sem referir-se ao caso de Hicheur, que não acompanhou de perto. Uma petição online, da organização Avaaz, pede a garantia dos direitos civis do fÃsico argelino.
âHicheur já pagou alto preço por sua correspondência online. Ele nunca cometeu, direta ou indiretamente, qualquer ato terrorista ou criminoso, cumpriu sua sentença e estava trabalhando pacificamente no Brasilâ, diz um e-mail, assinado por alguns dos mais proeminentes fÃsicos europeus. Entre eles, John Ellis, do CERN e professor de FÃsica Teórica do Kingâs College (Londres), agraciado, em 2012, com a Ordem do Império Britânico por seus serviços em favor da Ciência e da Tecnologia. âO artigo publicado pela revista Ãpoca [âUm terrorista no Brasilâ] não está baseado em fatos e é inconsistente com a aberta tradição humanitária do Brasilâ, disseram os cientistas europeus.
Adlène Hicheur, hoje com 39 anos, achava que tinha encontrado paz no Brasil. Ele quebrava a rotina de trabalho com suas preces na Mesquita da Luz, na Tijuca, e com suas caminhadas na Floresta da Tijuca, em Petrópolis e Teresópolis que lhe traziam a lembrança de Setif, sua montanhosa cidade natal na Argélia. Caçado por jornalistas dentro de sua própria sala na UFRJ, a universidade decidiu poupá-lo de dar aulas e deixou-o concentrado nas pesquisas. O jornal francês â20 Minutesâ, ao repercutir o caso, na semana passada, disse que ele foi tragado por uma âmáquina midiática-polÃticaâ.
No momento ele tenta ignorar esta âmáquinaâ e prepara um segundo artigo sobre a mesma partÃcula subatômica rara âBcâ. Os colegas contam que ele está entusiasmado com a possibilidade de encontrar um sinal desta partÃcula. âEu sou um cientista e vou continuar sendo um cientistaâ, avisou.

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Tempos atras, um ladrão confesso e condenado na Inglaterra pelo “roubo do século” lá, foli acolhido e defendido como heroi por esta mesma midia que hoje persegue um cientista pelo simples fato de ser argelino.