A reeleição de Dilma Rousseff para o segundo mandato de presidente do Brasil, em 2014, e mesmo antes, na campanha eleitoral daquele ano, seguida à s Jornadas de âjunho de 2013â, mudaram a face da polÃtica no Brasil em vários aspectos. Um deles, creio que se instalou entre nós sem chamar muita atenção.
A sociedade brasileira – malgrado as suas caracterÃsticas paternalistas, cooptadoras dos âout sidersâ, e ditas âcordiaisâ – sempre foi hierárquica, excludente e autoritária. No entanto, a violência âativaâ ou âpassivaâ na sociedade brasileira mantinha uma postura de discrição. Da simples exclusão até a opressão violenta direta, como nos diversos massacres coletivos e/ou de massas da nossa história, isso sempre acontecia. Foi assim com as guerras de Independência, passou por Canudos (1896-97), pelo Contestado (1912-16) indo até Carandiru (1992) e os assassinatos dos meninos da Candelária, em 1993.
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Veja o que já enviamosOs dados de mortes violentas no Brasil mostram um paÃs que supera as baixas de guerra no LÃbano, na LÃbia, no Mali ou Nigéria e equivalem, anualmente, a todas as baixas norte-americanas na Guerra do Vietnã (1965-1975).
[/g1_quote]Ora tal violência era ocultada, na história, na mÃdia e nos tribunais, ora era atribuÃda a atavismos e âatrasosâ (como em El Dorado dos Carajás, em 1996, ou Corumbiara, em 1995). Passando a ideia de que eles seriam próprios da estrutura social do paÃs e que iriam, aos poucos, –  sem muita vontade das estruturas do Estado de acelerar o processo – se extinguindo.
Isso, no entanto, mostrou-se um engano e, pior ainda, uma grande mentira. Os dados de mortes violentas â que alguns governos estaduais querem agora esconder, como no caso de São Paulo â mostram um paÃs que supera as baixas de guerra no LÃbano, na LÃbia, no Mali ou Nigéria e equivalem, anualmente, a todas as baixas norte-americanas na Guerra do Vietnã (1965-1975). Explicita tal afirmação a matança silenciosa, sistemática e crescente, de jovens negros e pobres das comunidades brasileiras. Cujos números já ultrapassam a maioria das guerras contemporâneas (dos 30 mil jovens mortos por ano no Brasil â de um total de 56 mil assassinatos â 77% são negros). E, mesmo assim, tal violência mantém-se como uma âfala mal-ditaâ e, na maioria das vezes, inconsequente do ponto de vista da Justiça.
Durante a campanha eleitoral de 2014, tais dados e o debate que deveria seguir-se, estavam ausentes. No entanto, mesmo não trazendo à tona suas maiores mazelas, a violência do debate, das imagens e metáforas foi inédita na história do Brasil. Na sequência daquilo que se convencionou chamar de âintelectuais de direitaâ â uma série de nomes, que se revezam na televisão e nas mÃdias nacionais â declarando pachorrentamente que era possÃvel sim, e muito popular, atingir os adversários ou simples debatedores, com injurias pessoais, xingamentos chulos, rótulos fácies e equivocados, sem quaisquer consequências.
Durante uns bons 10 anos, coincidentes com o Governo Lula, estes âcolunistasâ escreveram de tudo e de todos sem qualquer consideração pela verdade, pela comprovação dos fatos ou a mÃnima responsabilidade em informar. Na sua esteira vieram os âcomunicadores de massaâ, dubles ocasionais de polÃticos, com longos programas televisivos em que amedrontam a população, ameaçam as normas do direitos e garantias civis e desmoralizam o próprio Estado, muitas vezes justificando e mesmo aplaudindo grupos de âjusticeirosâ e a morte para lá de duvidosa de pessoas apontadas como criminosos.
Desta forma, o sistema de cotas raciais e sociais, os projetos de moradia e de renda mÃnima, as leis de proteção à s minorias e à s mulheres, a busca da proteção do meio ambiente e do patrimônio material e imaterial do paÃs sofreram ataques ferozes e totalmente infundados. Mentiu-se sistematicamente sobre o rendimento dos alunos âcotistasâ, mentiram sobre um pretenso âKit Gayâ, mentiram sobre as taxas de natalidade das famÃlias favorecidas pelo âBolsa famÃliaâ e, mais assustador de tudo, os insultos raciais e de condição e opção sexual tornaram-se corriqueiros.
Quando, de forma excepcional, alguns poucos cidadãos â como o goleiro Aranha, em 2014, ou os dois operários negros que no âDia da Consciência Negraâ, no Rio, ganharam de um comerciante bananas de presente (sic!) â resolveram buscar seus direitos de ofendidos na Justiça, formou-se, de pronto, uma longa fila de aderentes ao âdeixa dissoâ. MÃdia, instituições esportivas, gente comum manifestaram-se â´preocupadosâ com o exagero da reação dos ofendidos, afinal eram situações âexcepcionaisâ em locais excepcionais ou talvez uma simples piada!
Bom, o resultado de tanta complacência â dificuldade de registrar uma queixa por racismo ou ofensa moral (eu mesmo, numa delegacia do Rio presenciei a desilusão de duas jovens cujos retratos apareciam no Facebook como ânegras cotistas que tiram nosso lugarâ), a dificuldade da causa ir à julgamento, o silêncio exausto dos chamados âparasitasâ, âgaysâ (ou outros termos do campo semântico), negros, crioulos, âvadiasâ, etc., que ousavam enfrentar colunistas, comunicadores e deputados liberticidas â resultou na adoção vitoriosa da mesma estratégia de violência verbal e imagética por parte dos polÃticos em campanha e, pior ainda, na prática do debate polÃtico na atual legislatura. A pior legislatura desde da redemocratização do paÃs e, talvez, a pior da história republicana do paÃs. No entanto, com certeza, a mais cara!
[g1_quote author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”solid” template=”01″]Pois então, como os polÃticos ineptos, incapazes, absenteÃstas e corruptos chegam em BrasÃlia? Pelo voto. Pelo voto direto e garantido, modernizado pelas urnas eletrônicas, preparado por uma longa, cansativa e cara campanha eleitoral.
[/g1_quote]Nunca se viu no Brasil uma campanha eleitoral com tamanhas ofensas, insinuações maldosas e mentirosas, e ataques diretos à honra, deixando de lado temas fundamentais para o paÃs, pulverizando qualquer preocupação com projetos e programas, esquecendo os campos da Saúde e da Educação â o que resultaria de imediato numa conta que ora pagamos com escolas fechadas e epidemias que lembram o Brasil pré-Oswaldo Cruz, quando cidades como o Rio de Janeiro eram declaradas âporto sujoâ!
Qual o projeto de tais deputados â ou se quiserem, de qualquer deputado â para o controle e extinção do império de 30 anos do mosquito da dengue (zika e outras doenças) no paÃs? Qual os projetos para solucionar a incapacidade dos municÃpios lidarem com o esgotamento sanitário? Qual o projeto para o risco de secar a maior cidade do Brasil? Qual o projeto para ampliar e qualificar a educação no paÃs, em especial a educação básica?
Silêncio.
As chamadas âreformasâ, todos os dias apresentadas nos noticiários e debatidas por todos, são reformas que afetam diretamente uma pequena elite do paÃs: reforma tributária, reforma fiscal, reforma polÃtica, reforma trabalhista, reforma previdenciária… Podem até mesmo serem importantÃssimas, mas não tanto quanto a vida das pessoas e o futuro de crianças inocentes e o futuro do Brasil, atolado em uma educação de péssima qualidade.
Assim, a pauta dita ânacionalâ é a pauta das elites de sempre, do mandonismo, do patrimonialismo e do coronelismo redivivo. Todo o mais é tratado como eventualidade, emergência e improvisação, resultando numa decisão final em voga desde os tempos do Marechal Rondon: â- que se chame o Exército, talvez a Marinha e a Aeronáutica, para a guerra contra o mosquito! â.
Enquanto isso, a plena confusão entre o dinheiro público e a vida e viver privados dos polÃticos e seus funcionários mais próximos, o crescente fosso de vivências cotidianas entre a elite do mando e o homem comum â como no transporte, nas férias, nas filas nas portas de escolas e hospitais, no pagamento de diárias e de viagens â se aprofunda. No entanto, como reclamar e condenar os polÃticos? Não é possÃvel e admissÃvel a afirmação de que âtodos os polÃticos são iguais e então tanto faz em quem votar! â   Temos polÃticos competentes, honestos, sinceros e preocupados com a população e o paÃs. Poucos, mas os temos. E não são, de forma alguma, monopólio de um partido. Só de poucos, mais uma vez.
Pois então, como os polÃticos ineptos, incapazes, absenteÃstas e corruptos chegam em BrasÃlia? Pelo voto. Pelo voto direto e garantido, modernizado pelas urnas eletrônicas, preparado por uma longa, cansativa e cara campanha eleitoral. Ou seja, só teremos outros polÃticos quando a população que vota conseguir entender a relação entre a zika e o voto, a escola do seu filho e o voto, o atendimento de emergência num hospital e o voto, as horas em pé dentro de um ônibus e o voto….
Em suma, hoje, muito possivelmente, das grandes democracias de massa modernas (Ãndia, EUA, Indonésia, Japão e Brasil são os maiores paÃses em eleitorado ativo) o Brasil é o paÃs em que o voto popular é o mais inconsciente e inconsequente do mundo. Escolher um candidato, ou um partido, buscar seu programa e depois cobrar dos seus eleitos ações coerentes â e os meios de cobrança estão aÃ, via e-mails e portais â é uma exceção rara entre os eleitores brasileiros.
Temos, mais do que nunca, que discutir polÃtica como instrumento de educação do povo.

Acredito que o povo perceba a relação das coisas do cotidiano e o voto. Mas a nossa forma de fazer politica, clientelisma e coronelista, transformou essa visão em uma ação utilitarista imediatista individualista (eita, ficou esquisito). A relação se percebe nas frases: “ano que vem tem eleição” quando a passagem aumenta ou o posto de saúde não oferece atendimento. Ou “sem obra, sem voto”, comum nos perÃodos de eleição aqui em Nova Iguaçu, onde a urbanização e o sanemento ainda é um grande problema.
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